OSVALDO SOARES DA SILVA 58 ANOS DE REISADO!


Osvaldo Soares da Silva nasceu em Itapetinga, em 22 de abril de 1949, no mesmo dia da chegada dos colonizadores portugueses ao Brasil (22 de abril), trazendo o catolicismo, edificando as tradições religiosas e culturais, entre elas o reisado.
Osvaldo é filho de Josefa Maria de Jesus, natural do Riachão, antigo município de Condeúba, atual Guajeru (antiga Santa Rosa). Quanto ao genitor, João Soares da Silva, era natural de Itapetinga. Contou o homenageado, que o pai era tropeiro e reiseiro, bem como seu avô. Conduzindo tropas, João conheceu a linda Josefa, por quem se apaixonou, com quem namorou, casou e foi habitar em Itapetinga, que significa “pedra branca” na língua indígena tupi. O menino Osvaldo teve pouca oportunidade de estudar. Frequentou uma sala de aula por apenas 15 dias, que por motivo desconhecido foi desativada. Assim, Osvaldo cresceu trabalhando, impossibilitado de alfabetizar-se. Ele sabe assinar o nome e fazer conta de cabeça!
Semelhante à consistência e candura de uma rocha “Itapetinga”, Osvaldo Soares da Silva começou a cantar reis aos 12 anos de idade, ainda menino de calça curta. Iniciava uma história duradoura, ao ponto de não esmorecer nunca quando o assunto é folia de reis. O tempo fez de Osvaldo um reiseiro completo. Aos 75 anos de idade, ele canta, toca gaita, bate caixa, zabumba, chocalho e ainda samba a noite inteira.
Todos os companheiros reconhecem as qualidades técnicas, bem como a veracidade expressa nos cabelos brancos, no rosto enrugado, na voz lamuriosa do reiseiro mais idoso e experiente da região. Um exemplo único, praticante do catolicismo popular. Um homem simples e determinado, que muitas vezes tira do bolso o que não tem para realizar a sua vocação missionária: cantar reis!
O caminho percorrido foi longo e promete estender-se por muitos anos mais! Antes de ingressar na primeira companhia, o pai ensinou Osvaldo a tocar gaita, feita com madeira de quiabento. Em 1961, pousava na casa de dona Josefa e seu João Soares uma companhia. Sozinho, sentado num canto da velha casa de enchimento, Osvaldo tocava gaita. Gaudêncio, chefe dos reiseiros, impressionou-se e convidou o menino para o giro. Ele aceitou o desafio e permaneceu na turma cinco anos, tocando e encantando as pessoas do Riachão e da Baixa Verde. Quem via, dizia: “Olha esse menino, o reis não vai morrer”. Aos 17 anos, em 1966, o adolescente Osvaldo ingressou no grupo de Zé Correia, chefe de terno de Itumirim. Com esses foliões foram cinco anos de cantoria, período de grande transformação na vida pessoal do artista popular, de tradição cristã.
A turma de Zé Correia saindo de Itumirim chegava ao Pau Preto. Atravessando o Centrão, visitando presépios de casa em casa, arranchava no Quati, no casarão de Fidelcino Araújo, pai de uma linda rosa do sertão: Maria Delfina Araújo da Silva. Entre cantarias e olhares esquivos, o cupido flechou o coração reiseiro. O tempo de namoro não tardou muito. No dia 10 de outubro de 1971, domingo de manhã, Maria e Osvaldo realizaram um sonho e mais um sacramento, casando-se na igreja de Santo Antônio de Irundiara. Maria tinha 24 anos e Osvaldo 21. Da época do Quati, Osvaldo fala com orgulho dos seus três amores: o reisado, a esposa e os filhos.
O casamento aumentou a responsabilidade, mas não paralisou a missão reiseira, herdada do pai e do avô. Pouco menos de 90 dias morando no Quati, Osvaldo reuniu os companheiros: Chico Foguete, Onofre, Bernardo, Tião de Zé Quati, Miltinho de Manoel Silva, João Paixão, Francisco Soares Malta, Zé Gomes, montando a sua primeira companhia de Santo Reis, que atuou por dois anos. Em 1972, o reiseiro deixou a terra natal e foi ganhar a vida em São Paulo, onde permaneceu até 1975, afastado do que mais gosta na vida: cantar reis! De volta ao sertão catingueiro, Osvaldo fixou residência em Lagoinha, na casa da sua mãe, localidade distante do Quati. Osvaldo e Maria Delfina viviam uma crise conjugal que durou metade de uma década. Osvaldo sofria, preocupava-se, mas encontrou força na tradição de reis. Sob a chefia de Osvaldo, a turma de 10 reiseiros da Lagoinha cantou por seis anos. Em 1982, finalmente, Maria Delfina e Osvaldo reatam os laços matrimoniais. A família se reintegrou, morando na Lagoinha: Osvaldo, Maria Delfina e os quatro filhos, Maria Aparecida Araújo da Silva, Rosalina Araujo do Silva, Valdir Soares da Silva e a caçula Jandira Araújo da Silva.
Na localidade não corria dinheiro, prevalecia o sistema de troca de dias de trabalho. Diante de enormes dificuldades, dias quase insuportáveis, em 1993, Maria Delfina disse: “vamos para Irundiara”. Com ajuda dos parentes, comprou de Anais de Fidel um casebre por 40 reais, no morro da Coruja. Assim, ficava para trás mais de 11 anos de cantoria de reis com Osvaldo chefiando os companheiros: Joaquim de Josué, João Paixão, Idálio e Zé de Jesuína, Oriás Soares Malta, Mané Iedo, Zé Maria, Joaquim de Eva e Agenor de Zé Bernardo.
Em 1994, com as mãos vazias e o coração esperançoso, o reiseiro, a esposa e os quatro filhos chegaram ao distrito de Irundiara. Não sabiam, mas a grande transformação da vida familiar estava ali. Era tudo uma questão de tempo, foco e trabalho. Osvaldo se encaixou na prefeitura, escola, saúde, água, novas amizades, reconstrução da casa e a montagem do grupo de Santo Reis: Lote, Tuta, Nem do Canto do Arroz, Onofre, Osvaldo. Mais dois anos de cantoria. Em 1996, um fato chamou a atenção: o casal Joani e Sizineo chegou a Irundiara. Sizineo, quase paralítico, arrastando de uma perna, apoiado em uma bengala, saiu de São Paulo para cumprir uma promessa: cantar reis sete anos seguidos. A turma do chefe Osvaldo acolheu o pedido e o casal. Cantaram e a graça foi alcançada: Sizineo está curado, graças aos Santo Reis e aos companheiros de giro, Osvaldo, Nem do Canto do Arroz, Kel, Dedé de Albino, Bui, Quelé e Antônio de Basílio, Sil, Ismael, Loro das traçadas, Almir do Xixá e Onofre.
Em 2003, Sizineo e Joani entregam a bandeira de santo reis. Nas duas primeiras décadas deste século, dois acontecimentos irão marcar profundamente a trajetória de Osvaldo: a aposentadoria rural em 2009 (da esposa em 2010), bem como a pandemia de COVID-19. Era algo invisível, tão poderosa que
paralisou o mundo, o Brasil, os reiseiros, durante dois anos (2019 e 2020). Passado o susto e perdas de entes queridos, a companhia de reis voltou a difundir fé e valorização da vida. Mais cinco anos de cantoria sob o comando do chefe Osvaldo abrilhantam esse breve histórico, contando um pouco da trajetória de um homem predestinado a continuar a missão dos três reis magos: visitar as lapinhas cantando reis! De 1961, data do início da vida reiseira, até hoje, Osvaldo cantou por 58 anos, deixando de cantar apenas seis anos, por motivos de força maior, alheios à sua vontade.
Viva Santo Reis! Viva Osvaldo Soares da Silva!
Irundiara, 02 de fevereiro de 2025.
Autor: Elton Soares de Oliveira, Historiador e Contista.
Fonte: Entrevista presencial (oralidade histórica) com Osvaldo Soares da Silva.
Revisora: Fátima Gilioli


