Categoria: Artes

Filme sobre a ditadura paraguaia vence festival Bonito CineSur

Cerimônia de encerramento foi realizada na noite de sábado (1º)

Agência Brasil02/08/2026 - Filme sobre a ditadura paraguaia vence Festival Bonito CineSurFoto: Elaine Patricia Cruz/Agência BrasilFoto: Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil

O filme paraguaio ¿Quién Mató a Narciso? foi escolhido pelo júri oficial como o grande vencedor da categoria de melhor longa sul-americano do festival de cinema Bonito CineSur. A cerimônia de encerramento do festival foi realizada na noite de sábado (1º) no Centro de Convenções, na cidade de Bonito (MS).

¿Quién Mató a Narciso? é um filme dirigido por Marcelo Martinessi e baseado no livro Narciso, escrito pelo jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá.

Narciso é inspirado no assassinato do jovem Bernardo Aranda, em 1959, um locutor de rádio homossexual que amava o rock and roll e que foi queimado enquanto dormia. O crime jamais foi solucionado, mas, para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o assassinato pode ter sido tramado pelo governo militar.

Considerado a ditadura mais longa da América do Sul, o governo militar comandado pelo general Alfredo Stroessner promoveu quase 20 mil prisões arbitrárias ou ilegais, 59 execuções, 336 desaparecimentos e torturou quase 19 mil pessoas durante os 35 anos em que ele permaneceu no poder. Além disso, 3.470 pessoas precisaram ser exiladas, segundo dados divulgados em 2003 pela comissão. Entre os grupos que mais sofreram violações nesse período estavam os formados por pessoas LGBT+, como Aranda.

“De verdade, este prêmio proporciona um desfecho mais do que lindo”, disse o ator Diro Romero, que interpreta Narciso no cinema. “Todos queremos colaborar e continuar contando histórias. Valorizamos nossas narrativas e acreditamos que é preciso contá-las e mostrá-las ao mundo. Temos muito a contar, muitas mensagens a transmitir.”

Em entrevista à Agência Brasil logo após a premiação, o ator reforçou que é preciso contar a história sobre as ditaduras sul-americanas para que elas jamais voltem a se repetir.

“Dizemos que a ditadura terminou há vários anos, mas não somente sentimos que há indícios de que ela segue entre nós, como também estamos começando a ter certos sinais no mundo para os quais temos que estar alertas. Então, este é o momento de abrir os olhos e nós, através do cinema, vamos fazer com que isso não chegue novamente no futuro”, destacou.

Três estatuetas

Outro grande premiado da noite pelo Bonito Cinesur foi o diretor colombiano Alejandro Calderón, que levou três estatuetas para casa. O primeiro troféu conquistado por ele foi por Hipopótamos, el Arca de Escobar, selecionado como melhor curta-metragem de cinema ambiental escolhido pelo júri.

Além disso, ele conquistou mais duas estatuetas pelo longa-metragem Páramos II: El Origen, escolhido tanto pelo público quanto pelo júri oficial como o melhor filme de cinema ambiental. No documentário, Alejandro Calderón reúne um grupo de especialistas para explicar a formação desses ecossistemas e sua importância para o ciclo hídrico, citando os riscos que esse bioma corre por causa da exploração de seus recursos para a mineração, a monocultura e a pecuária.

“Isso é incrível [ser premiado]. Sinceramente, nunca imaginei que isso aconteceria. Estou muito empolgado e isso é também uma recompensa pelos anos de esforço da equipe viajando pela Colômbia, atravessando montanhas, páramos e rios, enfrentando muitas dificuldades e perigos, pois esse é um trabalho de alto risco”, disse ele à reportagem.

Ao receber os prêmios, Calderón prestou uma homenagem especial a 150 ativistas ambientais colombianos que foram assassinados nos últimos três anos. “A Colômbia é o país com o maior número de assassinatos de líderes ambientais – pessoas que dependem do meio ambiente”, citou ele, ao discursar.

“Muitos dos diversos líderes ambientais retratados em nossos filmes sofreram ameaças e alguns deles nos pediram para que déssemos mais visibilidade ao seu trabalho. Eles encaram a visibilidade como uma forma de proteção: em vez de permanecerem ocultos, querem que o mundo saiba quem são e o que fazem, para que todos possamos trabalhar juntos em sua proteção”, disse o diretor à reportagem.

O festival

Na quarta edição, o Bonito CineSur apresentou 32 filmes de dez países sul-americanos entre curtas e longas. Além disso, o festival promoveu aulas, debates, atividades de formação, encontros com realizadores e sessões especiais em homenagens à atriz Paulina Garcia e aos cineastas Vincent Carelli e Luiz Puenzo.

Já para as próximas edições, destacou o diretor do festival Nilson Rodrigues, a expectativa é conseguir reunir ainda mais países sul-americanos, de modo que se forme um bloco para produção e divulgação audiovisual.

“Nós precisamos ser um bloco, precisamos criar condições para circular os nossos produtos entre nossos vizinhos. Se a Europa se transformou em um bloco, quando circulam produtos, pessoas e a economia se desenvolve, nós também haveremos de ser um bloco, na América do Sul. Mas cedo ou mais tarde nós seremos”, disse ele, durante a cerimônia de premiação.

“O festival é um espaço onde a gente pode ver os filmes, pode celebrar, pode trocar ideias, pode criar conexões, mas ele não resolve as coisas. Nós queremos mais coproduções, nós queremos codireção. Para isso, é preciso que as instituições se envolvam. No ano que vem nós queremos trazer aqui para o festival os ministérios da Cultura desses países e suas organizações para criar programas bilaterais ou multilaterais para que a gente possa se conhecer mais e para que a gente possa ter o direito de se ver nas telas de cinema”, acrescentou Rodrigues.

Confira a lista com todos os filmes premiados pelo festival Bonito CineSur:

Melhor filme sul-mato-grossense

  • Higa Ke – Olho por Olho (escolhido pelo júri popular)
  • Natasha (escolhido pelo júri oficial)

Melhor curta de cinema ambiental

  • Buen Vivir – Ñutse Canseye, do Equador (escolhido pelo júri popular)
  • Hipopótamos, el Arca de Escobar, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)

Melhor longa de cinema ambiental

  • Páramos II: El Origen, da Colômbia (escolhido pelo júri popular)
  • Páramos II: El Origen, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)

Melhor curta sul-americano

  • A Vida de Jerônimo Dentro e Fora da Casca, do Brasil (escolhido pelo júri popular)
  • Sukua, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)

Melhor longa sul-americano

  • Naira, do Peru (escolhido pelo júri popular)
  • ¿Quién Mató a Narciso?, do Paraguai (escolhido pelo júri oficial).

Participação feminina na direção de filmes permanece abaixo de 20%

Minom Pinho defende políticas públicas para mudar o cenário

Agência BrasilBonito - 01/08/2026 - Festival de cinema Sul-americano de Bonito. Foto: DivulgaçãoDivulgação

Embora ainda sejam a maioria entre os que se formam em cursos audiovisuais, as mulheres não encontram representação em cargos de liderança das obras cinematográficas produzidas no Brasil. E esse cenário só será alterado por meio de políticas públicas, defende Minom Pinho, produtora de cinema e audiovisual, diretora da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e coordenadora e idealizadora do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIM Cine).

“As grandes mudanças se fazem com política pública”, ressalta. “E para você alcançar a política pública, você tem que ter indicador e indutor. O que significa isso? Por exemplo, estipular que o número de mulheres em roteiro e direção em longas-metragens deve bater 30% até 2030. A gente vai ter que entender que é preciso estabelecer metas mais claras porque o cinema é uma zona de resistência muito grande”.

Em entrevista à Agência Brasil durante a realização do festival de cinema Bonito CineSur, Minom destacou que há anos a participação de mulheres em cargos de liderança no cinema e no audiovisual brasileiro não chega a ultrapassar 20%, mesmo as mulheres tendo maior formação que os homens e conseguindo atrair grandes públicos aos cinemas brasileiros.

Bonito - 01/08/2026 - Minon Pinho no Festival de cinema Sul-americano de Bonito. Foto: Divulgação
Minon Pinho defende políticas públicas para ampliar participação feminina nas lideranças do setor cinematográfico – Divulgação
A produtora assegura que não há número que justifique o não crescimento da participação feminina em cargos de liderança.

“Ninguém pode alegar que as mulheres não têm competência. Elas estão fazendo um milagre. Foi dado a elas 20% [de cargos de liderança] nos filmes, mas elas estão pegando 44% do mercado. Isso quer dizer que elas estão fazendo muito com a pior situação possível”, enfatiza.

Por isso, defende, é importante estabelecer políticas públicas que estipulem metas para o aumento dessa participação. “Meu sonho é a gente chegar em equidade nos próximos 10 anos. Meu sonho é que a gente saia desse atual patamar”.

Dados apresentados pelo Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) – e publicado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), mostram que apesar de as mulheres serem maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%), elas representam apenas 17% da direção de séries e filmes brasileiros.

O anuário também aponta que, enquanto 231 longas-metragens brasileiros produzidos em 2023 foram dirigidos exclusivamente por homens, apenas 52 foram feitos por mulheres. No caso dos roteiros, o domínio também era dos homens: 165 contra 41.

Enquanto isso, as mulheres eram maioria na direção de arte (99 contra 57) e na produção-executiva (110 contra 66).

“Esse é o lugar que a sociedade convencionou que é o nosso lugar, o lugar das mulheres. Temos aí a direção de arte ou figurino, por exemplo, porque ‘arte é coisa de mulher’. Isso é um estereótipo absurdo. Temos sim excelentes diretoras de arte. Mas o número de diretoras de filmes precisa crescer”, aponta Minom.

A produtora destaca que o cinema precisa de mais mulheres na condução das narrativas. “A gente quer estar em todos os lugares. Mas quando você tem uma ideia, escreve essa história e tem uma mulher dirigindo essas histórias e escolhendo as imagens que vão configurar naquela peça ou naquela obra audiovisual, isso faz muita diferença”.

Mesa de debates

No domingo passado, o festival de cinema Bonito CineSur promoveu uma mesa para debater o protagonismo feminino no cinema sul-americano.

Além de Minom Pinho, a mesa também contou com a presença da atriz chilena Paulina Garcia. Em sua fala, Paulina destacou que é preciso haver mais histórias contadas por mulheres e interpretadas por mulheres.

Bonito - 01/08/2026 - Paulina Garcia no Festival de cinema Sul-americano de Bonito. Foto: Divulgação
Para Paulina Garcia,  é preciso haver mais histórias contadas por mulheres e interpretadas por mulheres. – Divulgação
“Para as mulheres, existem mais coisas do que desempenhar papéis de pessoas doentes ou que morrem a certa idade. Também há mais coisas do que se apaixonar por um homem mau ou um homem perdido ou ser filha de alguém. Precisamos contar com histórias mais complexas sobre quem somos ou sobre o que queremos fazer”, defende.

Também presente ao debate, Gabriela Sandoval, diretora e produtora de indústria do Festival Internacional de Cinema de Santiago (Sanfic), destacou que é preciso uma união das mulheres do continente para reforçar suas participações nas produções cinematográficas sul-americanas.

“Creio que essa construção de uma rede é importantíssima”, diz. “Quando se fala em mulheres em espaços de poder, sempre se vê como algo negativo. Mas o espaço de decisão é uma responsabilidade e abre caminhos para que se contem outras histórias”.

Nascido há 100 anos, Moacir Santos fundiu ancestralidade e erudição

Obra extensa costurou ritmos afro-brasileiros e jazz

Rádio NacionalMoacir Santos na época do projeto “Ouro negro”: músicas para trilhas de quatro filmes agora têm partituras Foto: Fábio Seixo/ DivulgaçãoFábio Seixo/Divulgação

Compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro, Moacir Santos completaria 100 anos neste dia 26 de julho. Com uma extensa obra que se destaca pela fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz, o músico ainda carece de maior reconhecimento no Brasil. 

Sua canção mais conhecida é Nanã, que homenageia a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras. A reza de pessoas numa procissão foi o ponto de partida para a melodia. Trilha de abertura do filme Ganga Zumba, ganhou letra de Mário Telles e foi gravada por uma centena de artistas, como Nara Leão, Sergio Mendes, Tim Maia e nomes do jazz, como Kenny Burrell e Gil Evans.  

Nascido no Sertão Pernambucano, na região de Serra Talhada, o maestro aprendeu a tocar os instrumentos de banda marcial ainda criança. O músico morreu em Los Angeles, onde morava, em 2006, aos 80 anos, em decorrência de um derrame.

Em depoimento recuperado de um especial da Rádio MEC, em 2016, Moacir Santos relembra os primeiros contatos com a música. 

“Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo. A gente brincava de banda de música da cidade. Lá em Flores, era muito natural os meninos andarem nus, sem roupinha, até lá pelos 9, 10 anos de idade. Então, eu, com 10 anos, tinha minha banda de meninos nus no meio da rua, tocando a marchinha. Então, esse foi meu contato com música”. 

Na adolescência, o músico fugiu de casa e rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, explica que as bandas de música têm uma importância na formação do país e que Moacir Santos veio dessa tradição. 

“No Brasil Império, a gente tinha quase que a totalidade de músicos no país, pessoas negras. Então, as bandas eram o rádio da cidade, dos eventos de domingo. O Moacir vem dessa tradição. Ao chegar aos grandes centros, ele já veio com essa tradição, e ele acrescentou a isso, os estudos mais aprofundados”. 

Moacir Santos foi um arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista brasileiro. Foto Wikipedia/ Divulgação
Moacir Santos foi um arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista brasileiro. Foto Wikipedia/ Divulgação

Professor de grandes nomes

Em João Pessoa, Moacir foi regente da banda da Rádio Tabajara e, depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional como saxofonista a partir de 1948. Três anos depois, já era arranjador da orquestra da emissora.

Foi aluno do maestro César Guerra-Peixe, e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros.

Andrea Ernest Dias, flautista e autora do livro Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro, conta que o artista construiu uma identidade sonora a partir de pesquisas aprofundadas em teoria musical ─ o que fez com que músicos mais jovens quisessem aprender com o mestre. 

“Para quem queria se aprofundar um pouco, sair do campo da intuição musical e saber, o Moacir se tornou essa pessoa que fazia essa ponte, entre a erudição e o popular. Então, se tornou o professor de muita gente”.

Ainda na década de 1960, Moacir arranjou álbuns de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes ─ parte delas lançadas no álbum Coisas, de 1965. Considerado sua obra-prima, o trabalho reúne 10 composições, todas com o título coisa seguido de uma numeração. Andrea Ernest Dias comenta a genialidade do músico na fusão de ritmos afro-brasileiros com os sopros das bandas de jazz. 

“O disco Coisas é uma uma síntese dessa trajetória dele. Ele tem referências das bandas filarmónicas, tanto na instrumentação das bandas filarmônicas quanto nas jazz bands, que é uma tradição forte pelo país desde os anos 40. A pesquisa na Orquestra Afro-brasileira trazendo essa identidade, digamos, afro-brasileira, é uma marca mais forte nessa instrumentação e principalmente nessa estruturação musical perfeita”.

Mudança para o exterior

Em 1967, Moacir Santos deixou a Rádio Nacional e se mudou para os Estados Unidos, onde seguiu dando aulas e compondo trilhas de cinema, nas equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin.

Na década de 70, lançou álbuns pela renomada gravadora de jazz Blue Note, entre eles, Maestro, indicado ao Grammy. Andrea Ernest Dias fala sobre o “mojo”, inovação trazida por Moacir neste trabalho.  

“O mojo é uma espécie de síntese, um sistema que ele criou, muito swingado, uma coisa que a gente ouve e imediatamente fala: ‘Isso aí é ritmo do Moacir’. Então, ele sistematizava as próprias células rítmicas e transformou esse ritmo numa marca pessoal mesmo. O disco Maestro marca uma nova etapa na vida do maestro Moacir Santos. Um disco realizado nos Estados Unidos e que traz ritmos intrigantes, digamos assim”.

Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival e tocou na abertura do evento, ao lado de Radamés Gnatalli. A obra do maestro foi revisitada pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet, no projeto Ouro Negro, com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos. O álbum Ouro Negro foi a porta de entrada para a obra do músico para ouvintes como o Allan Abbadia.

“Ele é fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos também da nossa oralidade, estudos da cultura afro-brasileira. Uma das características mais marcantes dele é o diálogo entre diferentes expressões artísticas da diáspora. Então, ele vem juntando várias dessas expressões com a música erudita. E ele conseguiu trazer essa essência da música afro-brasileira, afro-diaspórica, sem se tornar folclórico”.

Neste ano, já aconteceram alguns eventos em comemoração ao centenário de Moacir Santos e, no mês de agosto, Allan Abbadia vai dar aulas sobre a obra de Moacir Santos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo. 

“É muito importante reverenciar a obra do Moacir Santos. Não somente o nome, mas a estética. O público entender essa estética, entender o que ele quis dizer, é muito importante. Isso humaniza o artista”.

“Ele faz uma obra que está à frente do seu tempo, mas uma obra que abre um campo de possibilidades para quem vier no futuro conseguir reler aquilo e se debruçar sobre aquilo. Quando eu era garoto, eu fiz workshop com ele e ele falava: ‘ser reconhecido no meu país é a minha maior alegria’”.

Vinícius de Moraes, parceiro das composições Menino travesso e Se você disser que sim, homenageou Moacir Santos nos versos do Samba da benção.

Moacir Santos Jr.Foto Lídio Parente/divulgação
Moacir Santos, por Lídio Parente/divulgação

Luto no cinema brasileiro: morre Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos

Diretor, produtor e jornalista estava internado no Copa Star, no Rio

Agência BrasilRio de Janeiro (RJ), 26/09/2023 - Gravação do programa Cine Resenha, da TV Brasil, com o cineasta Luiz Carlos Barreto e a produtora Lucy Barreto, sua esposa, apresentado por Priscila Rangel. Foto: Fernando Frazão/Agência BrasilO cineasta, fotógrafo, jornalista e produtor Luiz Carlos Barreto e sua esposa Lucy Barreto – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O cinema brasileiro perdeu nesta quarta-feira (22) um de seus maiores protagonistas. Morreu, aos 98 anos, o cineasta, fotógrafo, jornalista e produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, responsável por uma das trajetórias mais importantes da história do audiovisual nacional.

Ao longo de mais de seis décadas, participou diretamente da construção do Cinema Novo e da consolidação da indústria cinematográfica brasileira, assinando mais de uma centena de produções que marcaram gerações.

Barreto estava internado desde segunda-feira (20), no Hospital Copa Star, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, para tratar uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia. O velório será nesta quinta-feira (23), no Palácio da Cidade, em Botafogo, e a cremação ocorrerá no Memorial do Caju.

Rio de Janeiro (RJ), 26/09/2023 - Gravação do programa Cine Resenha, da TV Brasil, com o cineasta Luiz Carlos Barreto e a produtora Lucy Barreto, sua esposa, apresentado por Priscila Rangel. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto formaram o casal mais influente da produção cinematográfica brasileira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 
Ao lado da esposa, Lucy Barreto, com quem estava casado desde 1954, formou o casal mais longevo e influente da produção cinematográfica brasileira. Juntos, fundaram a LC Barreto, produtora que completa 63 anos de existência e que se tornou referência na realização de filmes responsáveis por projetar o cinema nacional dentro e fora do país.

A empresa produziu clássicos como Dona Flor e Seus Dois MaridosBye Bye BrasilMemórias do CárcereO Quatrilho e O Que É Isso, Companheiro?, os dois últimos indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

A história da família Barreto se confunde com a própria história do cinema brasileiro. Os três filhos do casal, Bruno Barreto, Fábio Barreto e Paula Barreto, seguiram carreira no audiovisual e assumiram papéis importantes na produtora. A paixão pelo cinema nasceu ainda dentro da casa da família, onde foi instalada uma das primeiras moviolas do país.

Ali foram montados filmes fundamentais do Cinema Novo, entre eles Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis, de Ruy Guerra. A trajetória familiar também foi marcada pela tragédia: em 2009, o diretor Fábio Barreto sofreu um grave acidente de carro que o deixou em coma por dez anos, até sua morte, em 2019.

Muito antes de se tornar um dos maiores produtores do Brasil, Luiz Carlos Barreto construiu carreira como fotojornalista da revista O Cruzeiro, onde trabalhou como repórter fotográfico e correspondente na Europa. Cobriu acontecimentos históricos e fotografou personalidades como Frank Sinatra, Fidel Castro e Marilyn Monroe.

O primeiro contato com uma produção cinematográfica ocorreu ainda na infância, quando acompanhou a passagem de Orson Welles pelo Ceará, durante as filmagens de um documentário sobre os jangadeiros. Mais tarde, um encontro com Glauber Rocha, durante as filmagens de Barravento, mudaria definitivamente seu destino, aproximando-o do Cinema Novo.

Como diretor de fotografia, Barretão ajudou a construir a identidade visual de duas obras-primas do cinema brasileiro: Vidas Secas (1963) e Terra em Transe (1967). Depois, como produtor, tornou-se um dos principais articuladores do audiovisual brasileiro, ampliando a capacidade de produção nacional e levando filmes brasileiros aos maiores festivais do mundo.

Em outubro de 2023, aos 95 anos, Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto participaram do programa Cine Resenha, da TV Brasil, em uma edição especial dedicada à trajetória da LC Barreto. Durante a entrevista, o casal relembrou o início da carreira, o período em que o jornalismo antecedeu o cinema, as histórias da família e a construção da produtora que se transformou em uma das mais importantes da América Latina. O especial também homenageou a filmografia da empresa e destacou a contribuição do casal para o desenvolvimento do cinema nacional.

Rio de Janeiro (RJ), 26/09/2023 - Gravação do programa Cine Resenha, da TV Brasil, com o cineasta Luiz Carlos Barreto e a produtora Lucy Barreto, sua esposa, apresentado por Priscila Rangel. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 26/09/2023 – Gravação do programa Cine Resenha, da TV Brasil, com o cineasta Luiz Carlos Barreto e a produtora Lucy Barreto, sua esposa, apresentado por Priscila Rangel. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A morte de Barretão provocou manifestações de pesar entre produtores, diretores e representantes do setor audiovisual, em entrevista para à Agência Brasil, amigos do cinema se pronunciaram: como o diretor Cavi Borges, fundador da Cavideo, destacou a importância do cineasta para diferentes gerações.

“O Barretão era uma grande inspiração. Não era apenas o produtor que conseguia viabilizar financeiramente os filmes; ele também pensava o cinema. Como fotógrafo, participou de obras-primas como Vidas Secas e Terra em Transe. Depois, como produtor da LC Barreto, ajudou a construir o Cinema Novo. Era um homem humilde, divertido, com uma memória impressionante.  Sempre contava histórias do cinema brasileiro. Se não tivesse existido o Barretão, talvez não existissem a Cavídeo, o Estação e tantos projetos ligados ao cinema brasileiro. É uma perda enorme para o Brasil.”

A produtora de cinema, amiga e presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual do Rio de Janeiro, Glaucia Camargos, afirmou que Barreto foi um dos maiores defensores da cultura nacional: “Luiz Carlos faz parte daquele grupo de brasileiros que pensava o país acima de tudo. Nacionalista convicto, foi um homem único. O cinema perde seu Apóstolo-Mor. Fotógrafo de Vidas Secas, produtor de mais de cem filmes, amigo querido de toda uma vida de luta pelo cinema brasileiro.”

O produtor Nilson Rodrigues, amigo de longa data do cineasta, também lamentou a perda.

“O Brasil e o cinema brasileiro devem muito ao Luiz Carlos Barreto. Eu perdi um amigo, um mestre. Ele dizia que um país sem cinema é como uma casa sem espelho. Nunca me esqueci disso. Aprendi muito com ele. Sem Luiz Carlos Barreto, o cinema brasileiro seria apenas metade do que é hoje. Já estou com saudades. Foi-se um gigante.”

Para a cineasta Carla Camurati disse Barreto foi o “grande guerreiro, o melhor, o grande soldade do cinema brasileiro”.

“Perdemos um grande produtor, que nos deixou aos 98 anos e nos deixa um legado de 80 anos dedicados ao cinema brasileiro, em muitas frentes. Defendeu o cinema politicamente, brigou quando fez Deus e o Diabo na Terra do Sol com Glauber. É uma figura muito importante para o cinema brasileiro. Essa é a verdade.”

Em nota oficial, o Ministério da Cultura destacou que Luiz Carlos Barreto foi “um dos mais importantes nomes da história do cinema brasileiro”, ressaltando sua atuação como fotógrafo, jornalista, produtor e um dos protagonistas do Cinema Novo. A pasta também lembrou que, ao lado de Lucy Barreto, ajudou a projetar internacionalmente o cinema brasileiro e consolidou uma indústria cultural reconhecida mundialmente.

A morte de Luiz Carlos Barreto encerra uma das mais importantes trajetórias da cultura brasileira, mas deixa um legado permanente. Ao lado de Lucy, transformou a produção cinematográfica nacional, revelou talentos, fortaleceu a indústria audiovisual e ajudou a contar, por meio do cinema, a história do Brasil para o mundo.

Três dias de luto

Tanto o governo federal quanto a prefeitura do Rio de Janeiro decretaram três dias de luto pela morte do cineasta. “Seu amor pelo Brasil, seu talento e, sobretudo, seu espírito inquieto o transformaram no mais importante produtor do cinema nacional nos últimos cinquenta anos. Em reconhecimento à sua obra e à sua contribuição para a cultura brasileira, decreto luto oficial de três dias”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Em nota, a prefeitura destacou: “Barretão, como ficou conhecido no meio cultural, foi um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro. Além de diretor, foi um dos mais influentes produtores cinematográficos do país”.  

Rio de Janeiro (RJ), 26/09/2023 - Gravação do programa Cine Resenha, da TV Brasil, com o cineasta Luiz Carlos Barreto e a produtora Lucy Barreto, sua esposa, apresentado por Priscila Rangel. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Gravação do programa Cine Resenha com Luiz Carlos Barreto e Lu, por Fernando Frazão/Agência Brasil
Saiba mais sobre a vida e obra de Barretão no Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil

Matéria 

Morre aos 86 anos o cineasta Orlando Senna, referência do audiovisual

Escritor, jornalista e gestor cultural, ele foi diretor-geral da EBC

Agência BrasilRio de Janeiro (RJ), 09/06/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cineasta Orlando Senna. Foto: Evaldo Macedo/DivulgaçãoO cineasta, roteirista, escritor, jornalista e gestor cultural Orlando Senna – Foto: Evaldo Macedo/Divulgação

Morreu na tarde desta terça-feira (9), aos 86 anos, o cineasta, roteirista, escritor, jornalista e gestor cultural Orlando Senna, um dos mais importantes nomes do cinema brasileiro e latino-americano. Segundo informações de familiares e outras pessoas próximas, Senna passou mal na noite de domingo (7), após desenvolver um quadro de broncopneumonia que provocou uma inflamação pulmonar.

Na manhã desta terça, ele foi levado para uma unidade de pronto atendimento (UPA) em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, onde precisou ser intubado. Apesar dos esforços da equipe médica para reanimá-lo, o cineasta não resistiu.

Orlando Senna enfrentava problemas de saúde que se agravaram nos últimos anos. A morte dele provocou grande comoção entre cineastas, artistas, gestores culturais e admiradores de sua trajetória.

Biografia

Nascido em Lençóis, na Bahia, em 25 de abril de 1940, Orlando Senna construiu uma trajetória decisiva para o cinema brasileiro. Dirigiu, escreveu e produziu obras que marcaram a cinematografia nacional, entre elas o clássico Iracema, Uma Transa Amazônica, codirigido com Jorge Bodanzky e reconhecido internacionalmente por sua crítica aos impactos sociais da ocupação da Amazônia durante a ditadura militar.

Além da produção artística, teve papel fundamental na formulação de políticas públicas para o audiovisual. Foi secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura entre os anos de 2003 e 2007, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, liderando iniciativas voltadas à democratização do acesso aos recursos públicos para o setor.

Também foi diretor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e participou da implantação da TV Brasil. A atuação dele foi reconhecida por instituições culturais e profissionais do audiovisual em todo o país.

Ao longo da carreira, Orlando Senna também foi um dos fundadores da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba, ao lado de Fernando Birri e do escritor Gabriel García Márquez, tornando-se referência na formação de novas gerações de cineastas latino-americanos.

Nas redes sociais, amigos, críticos e profissionais do cinema manifestaram pesar pela morte do cineasta. A jornalista e crítica de cinema Maria do Rosário Caetano escreveu: “Adeus, amigo querido. Baiano, carioca, cubano. Orlando Senna (1940-2026): cineasta, escritor, roteirista e gestor cultural. Partiu para encontrar sua amada Conceição Senna. Guardaremos sua figura ímpar em nossos corações e em nossas retinas.”

Homenagem em vida

Há pouco mais de um mês, Orlando Senna recebeu uma homenagem em vida durante a mostra retrospectiva Orlando Senna / Cinema, Brasil e América Latina, realizada na Caixa Cultural Rio de Janeiro, entre 21 de abril e 10 de maio. A iniciativa foi organizada pelas curadoras Diana Iliescu e Sol Moraes e reuniu exibições de filmes, debates, exposição e encontros com o público.

Rio de Janeiro (RJ), 09/06/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cineasta Orlando Senna. Foto: Evaldo Macedo/Divulgação
Cineasta Orlando Senna – Foto: Evaldo Macedo/Arquivo/Divulgação
Segundo Diana Iliescu, a homenagem teve um significado ainda mais especial por contar com a participação ativa do cineasta. “Recebemos a notícia do falecimento do Orlando com muita tristeza. Ele já vinha enfrentando problemas de saúde, mas ficamos muito felizes por termos conseguido realizar essa homenagem em vida. A mostra terminou há apenas um mês e ele participou de todos os debates, recebeu inúmeras homenagens e reencontrou muitos amigos. Foi um momento muito bonito e emocionante”, afirmou.

Diana recorda que a abertura da mostra contou com a presença do ator Antônio Pitanga, que emocionou o homenageado. “Eu vi o Orlando chorar durante a fala do Antônio Pitanga. Foi um encontro muito marcante. E agora, recentemente, o Orlando também prestigiou a mostra dedicada ao Pitanga no CCBB do Rio. Houve uma troca de afeto e reconhecimento entre dois grandes nomes da cultura brasileira”, destacou.

A curadora definiu Orlando Senna como um homem de múltiplos talentos e de enorme generosidade intelectual. “Orlando Senna foi um mestre de muitos ofícios: jornalista, diretor de teatro, escritor, roteirista, cineasta, educador e gestor público. Foi pai de muitos ‘filhos cinematográficos’, agregador de amigos e intelectuais, incentivador de novas lideranças, sempre exercendo com excelência cada um dos seus talentos”, afirmou Diana Iliescu.