A Unimontes perdeu o bonde da História?

Em 2026, completam-se cem anos da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais. Entre 19 e 29 de abril de 1926, os revoltosos atravessaram o Alto Rio Pardo, percorrendo áreas dos municípios de Rio Pardo de Minas, Salinas e São João do Paraíso e passando por localidades como Taiobeiras e Serra Nova. Foi nessa região que realizaram a célebre manobra do Laço Húngaro. Não se trata de um episódio periférico. A marcha revelou as contradições entre o Brasil oficial e o sertão, enfrentou a ordem oligárquica da Primeira República e inscreveu o Norte de Minas em um dos acontecimentos políticos e militares mais importantes do século XX brasileiro.
As celebrações mineiras demonstraram a vitalidade dessa memória. O livro A Coluna Prestes nos Gerais de Minas, publicado pela Paco Editorial e organizado por mim, reuniu pesquisadores, professores e escritores, entre eles pelo menos três autores de Montes Claros. Por iniciativa do deputado estadual Leleco Pimentel, do PT, a Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou uma audiência pública sobre a relevância histórica, política e cultural da Coluna, juntamente com o lançamento institucional da obra. A atividade produziu homenagens legislativas, reportagens da TV Assembleia e repercussão na imprensa estadual. Luiz Carlos Prestes Filho participou da audiência na ALMG, do lançamento regional e das atividades educativas em Taiobeiras e, posteriormente, refez parte do percurso histórico em Serra Nova, no município de Rio Pardo de Minas.
A mobilização não terminou nos atos da Assembleia. Em Taiobeiras, houve lançamento regional, encontro com estudantes, entrega da Medalha Luiz Carlos Prestes e apresentação do projeto de construção de um monumento dedicado à Coluna. Em Salinas, realizou-se outra cerimônia de reconhecimento da memória regional. Em Rio Pardo de Minas e no Parque Estadual de Serra Nova e Talhado, discutiu-se a criação de uma trilha histórica relacionada ao percurso dos revoltosos e à manobra do Laço Húngaro. Livros, solenidades, atividades escolares, projetos turísticos, homenagens públicas, reportagens e visitas aos lugares de memória fizeram do centenário uma experiência regional concreta.
Diante de tudo isso, causa perplexidade o silêncio da Universidade Estadual de Montes Claros. O projeto do livro foi divulgado durante mais de um ano, a obra contou com autores montes-clarenses e seu organizador é egresso da própria Unimontes, onde se graduou em Ciências Sociais. Ainda assim, até o início de setembro, não houve convite para uma roda de conversa, apresentação da obra em Montes Claros, seminário, mesa acadêmica ou manifestação institucional conhecida sobre o centenário. Não faltaram tema, pesquisa, protagonistas ou tempo para planejamento. Faltou interesse. E o silêncio não foi apenas da Universidade: as forças progressistas, intelectuais e culturais de Montes Claros, que deveriam estar especialmente atentas à preservação da memória democrática e popular, também ignoraram solenemente a efeméride e as iniciativas desenvolvidas no Alto Rio Pardo.
A omissão provoca uma pergunta inevitável: qual é o papel efetivo da Unimontes na pesquisa, na preservação e na divulgação da História do Norte de Minas? Uma universidade regional não se define apenas pelo lugar onde está instalada, mas pela capacidade de enxergar, pesquisar e interpretar o território que justifica sua existência. O Alto Rio Pardo integra sua área de abrangência e corresponde, historicamente, a grande parte do antigo município de Rio Pardo, uma das primeiras áreas de ocupação colonial do Norte de Minas, cuja formação remonta ao final do século XVII. Foi justamente nesse território antigo, vasto e historicamente decisivo, incluindo áreas de Salinas e São João do Paraíso, que a Coluna Prestes atravessou o estado.
A impressão deixada é a de que o Alto Rio Pardo continua sendo percebido a partir de Montes Claros como uma margem distante, lembrada eventualmente nos mapas de abrangência, mas pouco reconhecida como espaço produtor de história, memória e conhecimento. O contraste com a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia é constrangedor. Em Vitória da Conquista, cidade que desempenha papel regional semelhante ao de Montes Claros, a UESB organizou uma roda de conversa sobre “A Coluna Prestes nos Sertões Baianos”, envolvendo o Curso e o Departamento de História, o ProfHistória e grupos de pesquisa, com a presença de Luiz Carlos Prestes Filho. Em Condeúba, território baiano imediatamente ligado ao percurso que alcançaria o Norte de Minas, foram programadas atividades escolares, rodas de conversa, feira de economia criativa, apresentações artísticas e uma mesa específica sobre a passagem da Coluna por Condeúba e pelo Norte de Minas.
Parece, infelizmente, que a Unimontes não se interessou em tomar o bonde da História do Norte de Minas. E as forças críticas, progressistas e culturais de Montes Claros também não perceberam que o trem estava passando, talvez porque continuem olhando o Norte de Minas apenas a partir do centro urbano montes-clarense. Ainda há tempo para romper esse silêncio, abrir as portas, dialogar com pesquisadores e comunidades e reconhecer o Alto Rio Pardo como parte viva da história regional. Mas isso exigirá mais que uma homenagem tardia. Exigirá que a Unimontes e os setores que se apresentam como defensores da cultura e da memória popular se perguntem se pretendem apenas falar em nome do Norte de Minas ou assumir, de fato, a responsabilidade de conhecer, interpretar e valorizar todos os seus territórios.










O cantor Natanael Souza Santanaoto – Foto: Arquivo Pessoal

