Categoria: História

Palmira Maria da Silveira: “Dona Palmira”, uma mulher à frente do seu tempo

Antiga sede da Fazenda Condeúba, conhecida por Casa Grande, onde Dona Palmira morou por vários anos
Casa Grande viste de frente, ao lado direito dá pra ver uma das duas senzalas antes de demolir

Palmira Maria da Silveira, chamada carinhosamente por “dona Palmira”

Palmira Maria da Silveira nasceu em Condeúba no dia 10 de setembro de 1913. Se estivesse viva, estaria completando hoje 113 anos. Dona Palmira, como era carinhosamente conhecida, faleceu em 11 de novembro de 1985 e deixou uma trajetória que ultrapassa os limites de uma história familiar e se confunde com parte importante da própria história social de Condeúba.
Ainda muito jovem, aos 14 anos de idade, contraiu seu primeiro casamento com o senhor Joaquim Alves da Costa, homem já idoso e conhecido como ex-senhor de engenho. A partir desse casamento, Dona Palmira passou a assumir grandes responsabilidades na condução da Fazenda Condeúba, propriedade de seu esposo, participando ativamente da organização dos trabalhos e da vida cotidiana daquela extensa propriedade rural.
Mas foi muito além da administração da fazenda que Palmira Maria da Silveira construiu sua marca. Ela se tornou uma verdadeira liderança social, especialmente pela maneira humana, generosa e responsável com que tratava os ex-escravos da Fazenda Condeúba e seus descendentes que viviam e trabalhavam naquela região.
Para aqueles que tinham condições de trabalhar, Dona Palmira oferecia serviço remunerado, garantindo-lhes uma oportunidade digna de sobrevivência. Para aqueles que, por idade, limitações ou outras circunstâncias, já não tinham condições de trabalhar, ela mantinha um compromisso que hoje impressiona pela dimensão humana: garantia-lhes alimentação gratuita.
Esse gesto não era apenas uma demonstração de generosidade. Representava uma postura permanente de solidariedade e responsabilidade social, numa época em que as condições de vida eram extremamente difíceis e em que poucas pessoas assumiam para si a responsabilidade de cuidar daqueles que mais necessitavam.
Dona Palmira foi, portanto, uma mulher de liderança, força e profundo compromisso com as pessoas. Sua história atravessou gerações e permaneceu viva na memória daqueles que conviveram com ela — sobretudo de seus 4 filhos, familiares e de tantas pessoas que conheceram de perto sua maneira firme, trabalhadora e, ao mesmo tempo, acolhedora de conduzir a vida. Dona Palmira após ficar viúva, contraiu seu segundo matrimônio com José Antônio Ribeiro, com quem teve 4 filhos: Olinto, Odílio, Oclides e Aulita (Ita).

A seguir, depoimentos de seus 4 filhos e de outras pessoas que conviveram com Dona Palmira ajudam a revelar, por diferentes olhares, a grandeza dessa mulher e o legado que ela deixou para Condeúba.

Olinto Ribeiro da Silveira, ele é o 1° filho de dona Palmira

Dona Palmira: uma mulher que transformou acolhimento em legado e fez da Fazenda Condeúba um lugar de amparo aos descendentes de ex-escravizados

Há histórias que pertencem às famílias, mas que, pelo significado de seus personagens e pelos efeitos de suas atitudes sobre uma comunidade inteira, acabam pertencendo também à própria história de um povo. A trajetória de Dona Palmira é uma dessas histórias.
Seu filho mais velho, Olinto, é uma das testemunhas mais importantes dessa trajetória. Primeiro filho do casal José e Palmira, ele afirma ter tido o privilégio de conviver com a mãe por mais tempo que os demais irmãos e, por isso, guarda na memória não apenas a figura materna, mas os valores, as decisões e as atitudes de uma mulher que deixou marcas profundas por onde passou.
Segundo seu depoimento, Dona Palmira era uma pessoa criteriosa, firme e extremamente dedicada. Honestidade, lealdade e compromisso eram, para ela, princípios inegociáveis. Não admitia atitudes erradas de ninguém e, muito menos, dos próprios filhos. Essa postura, segundo Olinto, ajudou a construir um legado de enorme riqueza moral e humana.
Mas é justamente quando sua história se encontra com a história social da região que a figura de Dona Palmira ganha uma dimensão ainda maior.
Muito jovem, aos 14 anos, Dona Palmira teria se casado pela primeira vez com Joaquim Alves da Costa, personagem apresentado no depoimento como um dos grandes proprietários escravistas da época anterior à promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.
Décadas mais tarde, em 1927, a chegada de Dona Palmira à Casa Grande, sede da Fazenda Condeúba, representaria um novo capítulo dessa história. Ali, conforme o testemunho de pessoas da época, ela assumiu o comando da fazenda e passou a desempenhar também uma importante função de acolhimento social junto aos ex-escravizados e, principalmente, aos seus numerosos descendentes que eram ligados à Fazenda Condeúba.
É nesse ponto que o depoimento de Olinto revela uma dimensão histórica particularmente significativa.
A Lei Áurea havia abolido oficialmente a escravidão no Brasil, mas a liberdade jurídica não significou, automaticamente, dignidade, trabalho, alimentação, moradia ou oportunidades para os negros libertos e suas famílias. A abolição não veio acompanhada de uma política ampla de inclusão social. Muitos ex-escravizados foram deixados à própria sorte, enfrentando pobreza, abandono e enormes dificuldades para reconstruir suas vidas.
É dentro desse contexto que, segundo o relato familiar, Dona Palmira teria exercido um papel de amparo junto às famílias negras que foram vinculadas à Fazenda Condeúba.
Ela acolhia. Para os mais jovens, oferecia oportunidades de trabalho remunerado. Para os idosos, garantia alimentação. Mais do que uma relação de trabalho, o depoimento descreve uma atitude de assistência e solidariedade que fez com que Dona Palmira conquistasse o respeito e o carinho daqueles que encontravam nela uma referência de proteção.
Assim, sua história pode ser compreendida como parte de um capítulo ainda pouco conhecido da história social da região: o período posterior à escravidão, quando os descendentes daqueles que haviam vivido sob o regime escravista precisavam encontrar meios para sobreviver e reconstruir suas famílias.
Nesse cenário, a Fazenda Condeúba, sob a liderança de Dona Palmira a partir de 1927, teria se tornado, para muitas dessas pessoas, um espaço de oportunidade e acolhimento.
O testemunho de Olinto é, portanto, mais do que uma lembrança de filho para mãe. É um documento de memória familiar que ajuda a iluminar uma parte da história daqueles que vieram depois da escravidão. Ao recordar a mãe, ele não fala apenas de suas qualidades pessoais, mas de uma mulher que, segundo sua memória e seu relato, estendeu a mão justamente a uma população que carregava as feridas sociais deixadas por séculos de escravidão.
Dona Palmira passou a ser conhecida e respeitada entre os negros que tinham vínculo com a Fazenda Condeúba. Sua presença, conforme o depoimento, ultrapassava os limites da administração da propriedade. Ela se tornou uma referência para aqueles que precisavam de trabalho, alimento, proteção e, sobretudo, de alguém disposto a olhar para suas necessidades.

Por isso, a história de Dona Palmira merece ser preservada e contada.
Não apenas como a história de uma mãe lembrada com amor por seu filho mais velho, mas como a trajetória de uma mulher cuja atuação, segundo esse testemunho, se entrelaçou com a vida de inúmeras famílias negras no período posterior à abolição.
Olinto e seus irmãos herdaram da mãe muito mais do que lembranças. Herdaram valores. E, ao contar sua história, ajuda a impedir que também se perca a memória daqueles que foram acolhidos por ela.
Dona Palmira permanece, assim, na memória de sua família e daqueles que conheceram sua atuação como uma mulher de firmeza, honestidade e solidariedade — uma mulher que, diante das dificuldades enfrentadas pelos descendentes de ex-escravizados, escolheu o caminho do amparo.
Sua história é, acima de tudo, uma história de memória, humanidade e legado.

Odílio Ribeiro da Silveira, ex-prefeito de Condeúba, ele é o 2° filho de dona Palmira

Dona Palmira: o legado de uma mulher privilegiada pelo saber
Odílio Ribeiro da Silveira, foi o segundo filho do casal Palmira e José, ele guarda na memória não apenas as lembranças de sua mãe, mas, sobretudo, a dimensão de uma mulher cuja inteligência, experiência e capacidade de compreender a vida fizeram dela uma verdadeira referência para toda a família.
Ao falar sobre Dona Palmira, ele começa justamente por uma das maiores limitações impostas às mulheres de sua geração: o acesso à educação formal.

“A mamãe foi uma pessoa que não teve oportunidade de ingressar numa escola, mesmo porque, na sua época de jovem, não havia aqui neste sertão o uso e o costume das meninas frequentarem escolas.”

Mas a ausência dos bancos escolares jamais significou ausência de conhecimento. Pelo contrário. Dona Palmira construiu sua formação na própria escola da vida. Aprendeu observando, convivendo com as pessoas, enfrentando as dificuldades de seu tempo e desenvolvendo uma capacidade rara de compreender as circunstâncias e encontrar caminhos para superá-las.
Conhecida por todos simplesmente como Dona Palmira, ela se tornou, dentro de sua família, um verdadeiro ponto de apoio e uma referência permanente. Era dela que partia grande parte do planejamento da casa e das decisões familiares. Tinha, segundo o filho, uma percepção extraordinária sobre aquilo que era possível realizar e aquilo que não passava de uma expectativa distante da realidade.
Dona Palmira possuía uma inteligência que não estava registrada em diplomas, mas que se revelava na prática, nas palavras, nas atitudes e na maneira como interpretava o mundo ao seu redor.
Sua experiência de vida e seu relacionamento com as pessoas lhe deram uma compreensão muito particular da realidade. Era observadora, crítica e, sobretudo, propositiva. Quando percebia que alguma coisa não estava funcionando corretamente, não se limitava a apontar o problema. Tinha a preocupação de apresentar também uma solução.
Essa característica se manifestava, inclusive, quando analisava questões relacionadas à administração pública. Dona Palmira tinha o hábito de criticar aquilo que, em sua visão, não estava caminhando bem nas administrações das cidades por onde passou. Mas suas críticas não eram vazias. Depois de identificar o problema, procurava mostrar qual seria, em seu entendimento, o caminho mais correto para solucioná-lo.

Era uma mulher que sabia enxergar além das aparências.
Nascida e criada em Condeúba, na Bahia, Dona Palmira posteriormente acompanhou a família em mudanças que a levaram para Santa Fé do Sul, no estado de São Paulo, e, mais tarde, para a capital paulista. Foram experiências diferentes, em lugares diferentes, que contribuíram ainda mais para ampliar sua visão de mundo e sua bagagem de vida.

E essa influência jamais se perdeu.
Quando Odílio assumiu a Prefeitura de Condeúba e exerceu dois mandatos de prefeito consecutivos, entre 2005 e 2012, os ensinamentos de sua mãe continuaram presentes. Diante dos desafios administrativos, das dificuldades e das decisões que precisavam ser tomadas, ele recorria muitas vezes àquilo que havia aprendido ao longo da convivência com Dona Palmira.
A mulher que não teve a oportunidade de frequentar uma escola acabou se tornando, para o filho que chegou a administrar o próprio município, uma de suas grandes referências de conhecimento.

É justamente aí que reside a grandeza de sua história.
Dona Palmira representa tantas mulheres sertanejas de sua geração que, privadas da educação formal, encontraram na própria existência os caminhos para construir uma sabedoria profunda. Mulheres que aprenderam com a família, com o trabalho, com a observação, com as dificuldades e, principalmente, com a vida.
Por isso, ao recordar sua mãe, Odílio não fala apenas de uma mulher que foi importante para sua família. Fala de uma mulher que deixou ensinamentos capazes de atravessar gerações.
E conclui com uma frase que talvez seja a melhor síntese de todo esse legado:
“Sinto até hoje a minha mãe como uma mulher que foi privilegiada pelo saber.”
Um saber que não veio dos livros, mas que nasceu da experiência. Um saber que não precisou de diplomas para se fazer respeitar. Um saber construído no sertão, na família, na convivência com o povo e na capacidade extraordinária de compreender a realidade.
Dona Palmira não frequentou uma escola, mas foi, para os seus filhos, uma verdadeira escola de vida.

Oclides Ribeiro da Silveira, Jornalista ele é o 3° filho de dona Palmira

Dona Palmira: uma jovem diante da história e do destino de uma grande fazenda.
Falar de Dona Palmira é fácil demais. A mamãe foi uma pessoa privilegiada no saber, dotada de uma larga experiência de vida adquirida desde muito cedo. Sua trajetória, entretanto, não pode ser compreendida apenas como a história de uma mulher dedicada à família. Sua vida esteve entrelaçada a um dos períodos mais marcantes da história social e rural de Condeúba, quando antigas estruturas ainda permaneciam vivas e a sociedade começava a atravessar profundas transformações.
Dona Palmira iniciou muito cedo sua vida de dona de casa. Aos 14 anos de idade, ainda uma menina, contraiu seu primeiro casamento com Joaquim Alves da Costa, então um senhor de aproximadamente 80 anos, antigo senhor de engenho e integrante de uma das famílias de maior influência econômica e social da região.
A união, segundo o depoimento familiar, não teria sido propriamente fruto de uma história de amor, mas resultado de um casamento arranjado, marcado pelas circunstâncias e pelas necessidades daquele tempo. Havia, naquele momento, uma razão de ordem familiar e social que ajudava a explicar a presença de Dona Palmira naquela casa: a casa-grande, sede da Fazenda Condeúba, encontrava-se sem uma referência feminina depois da morte da primeira esposa de Joaquim Alves da Costa.
Foi então que uma adolescente de apenas 14 anos, pertencente à tradicional família Silveira, passou a ocupar um espaço de enorme responsabilidade dentro daquela estrutura familiar e rural. Dona Palmira, ainda tão jovem, assumia o papel de esposa de um homem que, pela posição econômica e influência que exercia, poderia ser considerado, à luz daquele contexto histórico, uma espécie de “lorde” da sociedade rural condeubense.
Joaquim Alves da Costa era herdeiro de uma grande fortuna e carregava consigo um peso histórico ainda maior: era filho do capitão Francisco Xavier da Costa, personagem associado à fundação do município de Condeúba. Assim, ao ingressar naquela família, Dona Palmira não estava simplesmente entrando em um novo lar. Ela estava adentrando um dos núcleos familiares que ajudaram a construir parte da própria história econômica, política e social do município.

E essa entrada, naturalmente, não teria sido recebida por unanimidade.
Dona Palmira, uma jovem de origem tradicional, passou a ocupar um lugar que certamente despertava olhares, expectativas, resistências e até desconfianças dentro da família de Joaquim. Mas foi justamente nesse ambiente, cercado por diferenças, responsabilidades e por uma realidade social ainda marcada pelas heranças do período escravocrata, que ela começou a revelar uma característica que acompanharia toda a sua vida: a capacidade de compreender as pessoas e exercer liderança mesmo diante das circunstâncias mais difíceis.

Uma jovem diante de uma sociedade em transformação
Um dos episódios mais importantes dessa primeira fase da vida de Dona Palmira está relacionado aos trabalhadores que permaneciam na Fazenda Condeúba.
Mesmo após o fim da escravidão, antigos escravizados continuavam ligados à terra e à atividade agrícola, agora trabalhando como meeiros, dentro de uma nova relação de trabalho que ainda carregava muitas marcas das estruturas sociais do passado.
Foi nesse cenário delicado que Dona Palmira desempenhou um papel que merece ser registrado pela história.
Ainda muito jovem, ela assumiu a administração da enorme Fazenda Condeúba por aproximadamente cinco anos, exercendo uma função que exigia não apenas capacidade de organização, mas sobretudo habilidade para lidar com pessoas, conflitos, interesses e com uma realidade social extremamente complexa. Seu papel foi fundamental na pacificação e na manutenção das relações com os antigos escravizados que continuavam trabalhando nas terras da fazenda. Em uma época em que as relações entre proprietários e trabalhadores rurais eram marcadas por profundas desigualdades, Dona Palmira conseguiu construir uma posição de respeito e autoridade.
A menina que havia chegado à casa-grande aos 14 anos começava, assim, a se transformar em uma mulher de referência.

A sua história revela uma contradição própria daquele período  Uma adolescente lançada precocemente às responsabilidades da vida adulta, mas que, ao mesmo tempo, encontrou naquele ambiente a oportunidade de demonstrar uma inteligência prática, uma capacidade de liderança e um senso de responsabilidade muito acima do que sua pouca idade poderia sugerir.
Durante cerca de cinco anos à frente da administração da Fazenda Condeúba, Dona Palmira não foi apenas uma presença feminina dentro da casa-grande. Ela participou diretamente de um capítulo da história social e econômica de Condeúba.
Sua atuação ocorreu em um momento em que o município ainda carregava as marcas de seu passado rural e escravocrata, e em que as relações de trabalho começavam a assumir novas formas. Por isso, sua trajetória precisa ser compreendida não somente no âmbito familiar, mas também como parte da memória histórica de uma sociedade que estava mudando.
Dona Palmira, portanto, não foi apenas uma mulher de seu tempo. Foi uma mulher que, ainda muito jovem, foi colocada diante das circunstâncias de seu tempo e soube enfrentá-las com coragem, inteligência e capacidade de liderança.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas de sua história: quando a vida lhe impôs responsabilidades que pareciam grandes demais para uma menina de 14 anos, Dona Palmira respondeu com a grandeza de uma mulher que já começava a escrever seu próprio capítulo na história de Condeúba.

Aulita Maria da Costa (Ita), ela é o 4° filho de dona Palmira

“Minha mãe foi uma mãe maravilhosa”: o retrato de Palmira Maria da Silveira pelas palavras de sua filha Ita.

“Minha mãe foi uma mãe maravilhosa.” É assim que a filha Ita de Palmira Maria da Silveira começa a recordar a mulher que marcou profundamente a história de sua família e deixou, através de seus exemplos, uma herança de valores que atravessou gerações.
Segundo a filha, Palmira foi uma mãe extremamente cuidadosa, carinhosa e dedicada à educação dos filhos. Tinha um jeito próprio de proteger aqueles que amava. “Sempre cuidou muito de mim, me educou com muito carinho. Eu sempre fui meio poupada”, recorda. Ela conta que a mãe não permitia que trabalhasse na roça e procurava poupá-la também dos serviços mais pesados dentro de casa. Em contrapartida, aconselhava muito e esperava dos filhos respeito e obediência — valores que fazia questão de ensinar pelo exemplo.
Palmira era descrita como uma mulher trabalhadora, responsável, correta e verdadeira. Não gostava de meias palavras nem de situações mal resolvidas. Tinha o chamado “pavio curto” e não costumava mandar recados: quando precisava dizer alguma coisa, dizia diretamente à pessoa. E, com seu jeito franco e bem-humorado, costumava encerrar as discussões com um antigo ditado: “Se gostou, bem; se não gostou, come mais pouco.”
Dona Palmira era uma mulher sem “papas na língua”, como define a própria filha. Até mesmo ao reencontrar alguém depois de muito tempo, fazia questão de deixar registrada sua opinião de maneira espontânea e divertida. Se achasse que a pessoa havia envelhecido bastante, não hesitava em dizer: “Ê, fulano, mas você está um bagaço velho!” Era o jeito de Palmira: sincera, direta e absolutamente autêntica.
Mas por trás dessa personalidade forte havia uma mulher de princípios muito firmes. Palmira não gostava de dever dinheiro a ninguém. Não comprava fiado, não fazia questão de luxo e levava uma vida simples, organizada e responsável. E, acima de tudo, tinha um coração profundamente caridoso.
Sua visão sobre a caridade, entretanto, também carregava a firmeza de seus princípios. Costumava dizer que a ajuda deveria ser destinada principalmente àqueles que realmente não tinham condições de trabalhar. “Para dar esmola tem que ser para um cego, um aleijado ou uma pessoa idosa que não aguenta trabalhar”, ensinava. Para ela, ajudar alguém jovem e saudável que tivesse condições de trabalhar, mas escolhesse não fazê-lo, era incentivar a preguiça — algo que considerava inadmissível.
Palmira era inimiga da preguiça, mas amiga da necessidade. E essa diferença aparece com enorme força em uma das passagens mais marcantes de sua vida.

Uma jovem que entrou para uma nova história
Ainda muito jovem, aos 14 anos, Palmira viveu uma experiência que mudaria completamente os rumos de sua vida. Já órfã de pai, era uma moça descrita pela família como muito bela e formosa. Naquele período, um homem viúvo, o senhor Joaquim Alves da Costa, conhecido por possuir boas condições financeiras, procurava uma jovem para se casar.
Joaquim procurou João Silveira, tio de Palmira, e pediu que ele lhe apresentasse uma de suas sobrinhas. Foi então que João falou de Palmira e marcou um encontro para que os dois se conhecessem.

O encontro aconteceu e, pouco depois, o casamento foi marcado.
Entretanto, a vida reservou uma circunstância inesperada. No dia marcado para o casamento, Palmira ficou gravemente doente e não tinha sequer condições de se levantar da cama. Mas a cerimônia não foi cancelada. Diante da situação, o padre foi até a casa onde ela estava e ali mesmo realizou o casamento.
Depois de alguns dias, recuperando-se da enfermidade, Palmira seguiu para a residência de seu esposo, a sede da Fazenda Condeúba, onde iniciaria uma nova etapa de sua vida.
Na casa de Joaquim Alves, encontrou uma realidade muito diferente daquela que conhecera. Era uma residência grande, com muitos criados responsáveis pelos serviços da casa. Durante aquele período, Palmira viveu com conforto e, segundo o relato da filha, teve uma convivência muito boa com o marido e também com as pessoas que trabalhavam na residência.
Ela sabia ser amiga, mas também sabia ser justa. Tratava bem quem a tratava bem e não fazia distinção quando precisava reconhecer o que era certo.

A fome e a grandeza de um coração
Foi, porém, durante um dos períodos de maior dificuldade enfrentados pela região que o lado solidário de Palmira ganhou uma dimensão ainda maior.
A família recorda de uma época de grande fome, no início da década de 1920, quando muitas pessoas percorriam as casas em busca de alimento. Na propriedade de Joaquim Alves havia grande quantidade de mantimentos armazenados em alforges.
Diante da situação de miséria que chegava à porta de sua casa, Joaquim determinava que fosse preparada muita comida para alimentar aqueles que passavam. Dona Palmira estava ao seu lado nessa tarefa de solidariedade e ela mesma fazia a distribução dos alimentos.
As pessoas chegavam, muitas vezes, extremamente debilitadas. Algumas estavam havia dias sem comer. Primeiro recebiam comida e água. Eram acolhidas, colocadas para sentar ou descansar. Depois de recuperarem um pouco as forças, recebiam ainda uma sacolinha com mantimentos crus para levar para casa e ter o que comer no dia seguinte.

Não era simplesmente dar uma esmola.
Era acolher, alimentar, cuidar e devolver dignidade a quem estava sofrendo. Essa lembrança, transmitida pela filha, ajuda a compreender uma das características mais profundas de dona Palmira: ela nunca viveu pensando somente em si. Mesmo tendo conhecido momentos de conforto, não perdeu a sensibilidade diante da necessidade alheia.

Pensava no próximo.
E essa talvez seja uma das maiores marcas deixadas por sua passagem pela vida. Uma mulher de fé, sem precisar de muitas palavras. Na dimensão espiritual, Palmira permaneceu durante toda a vida ligada à fé católica. Não era uma mulher que estivesse constantemente frequentando a igreja, mas isso não significava ausência de religiosidade. Ao contrário: segundo a filha, era uma pessoa profundamente temente a Deus.
Sua fé não estava apenas nos gestos religiosos, mas na maneira como compreendia a vida, o próximo e a própria existência.
Palmira costumava dizer que a verdadeira religião era aquela em que a pessoa acreditava em Deus e reconhecia Jesus Cristo como Senhor. Para ela, mais importante do que discutir denominações era ter fé verdadeira.
“Se você acreditar em Deus, acreditar que Jesus Cristo é o nosso Senhor, então essa é a religião certa.”
Era assim que enxergava sua relação com Deus: de maneira simples, direta e sincera. E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas de sua história. Palmira Maria da Silveira foi uma mulher de personalidade forte, de palavras francas, de princípios inegociáveis e de uma fé silenciosa, mas profunda. Foi mãe protetora, esposa, mulher trabalhadora e, sobretudo, alguém que aprendeu muito cedo que a vida só ganha verdadeiro sentido quando também se olha para a necessidade do outro.
As lembranças da filha revelam não apenas uma mãe, mas uma mulher de seu tempo que, mesmo vivendo em uma época de muitas limitações, soube construir uma trajetória marcada por responsabilidade, honestidade, coragem, fé, justiça e solidariedade.

Um legado que não ficou apenas nas paredes de sua antiga casa.
Ficou na memória dos filhos, na história da família e nas pessoas que, em algum momento de necessidade, encontraram em dona Palmira e em sua família não apenas alimento, mas acolhimento e humanidade.

Deraldino Benigno da Silveira e sua esposa Marcia Ferraz Silveira

TIA PALMIRA, PEQUENA, GRANDE MULHER!

Pensamos em chamá-la a “Pequena Notável”, mas nos lembramos que, já, uma grande Atriz do Cinema é chamada , dessa forma.
Apesar de que a Vida da Pequena Palmira seria digna de ser retratada, num bom, belo Filme.
O Deraldino que teve uma convivência maior, com ela, pois era seu Sobrinho direto .
Eu, Márcia, sua Esposa, conheci Tia Palmira, qando ela já morava, em São Paulo, com a Família, no Jardim Ângela, Bairro de Santo Amaro.
Muito da História de Vida de Tia Palmira tomamos conhecimento, através de seu Irmão, Augusto Benigno da Silveira, meu Sogro, pai do Deraldino.
Sr. Augusto se lembrava, com saudades, de seu tempo de Garoto. Mais precisamente, quando foi morar com a Irmã, Palmira, e seu Marido, o Coronel Joaquim Alves da Costa.
Ele adorava ir à feira, com eles, degustar as gostosuras, que lhe compravam.
Mas, voltando a São Paulo, graças à Força, Resiliência, Perseverança de Tia Palmira, a família pode conquistar melhores condições de vida, de estudos, trabalho, na Capital.
Como era bom, quando íamos visitá-los, e lá vinha ela, contando saudosas Histórias!
Servia-nos um Café ralinho, tipo “água de batata”, pois era assim que os filhos gostavam!
Uma palavra de seu Vocabulário que, jamais, esqueceremos é a tal “Livusia”!
Toda vez, que nos referimos à querida Tia, lembramo-nos, com saudades profundas, de quando ela a proferia.
Que lá do Céu, onde com certeza, ela está, olhe por nós!
Que tenha o merecido Repouso Eterno!
🙏😘🩷🌷

Erenita dos Santos Ribeiro, ex-nora de dona Palmira

Dona Palmira: uma mulher guerreira, acolhedora e pilar de sua comunidade

O depoimento revela a grandeza humana de Dona Palmira, lembrada com profundo carinho, respeito e gratidão por quem conviveu de perto com ela. Mais do que sogra, amiga e companheira de caminhada, Palmira foi considerada uma verdadeira mãe, uma mulher simples, batalhadora, cuidadosa e sempre disposta a amparar aqueles que estavam ao seu redor.
Sua trajetória ganha ainda maior significado quando compreendida no contexto de sua comunidade negra. Dona Palmira foi uma mulher de fibra, um verdadeiro pilar e um divisor de águas no acolhimento e no amparo às pessoas negras, especialmente no período posterior à Lei Áurea, quando a liberdade jurídica não significou, necessariamente, condições dignas de vida. Com sua força, solidariedade e capacidade de cuidar, ela ajudou a construir caminhos de dignidade, proteção e pertencimento para aqueles que mais precisavam.
Na vida familiar, seu cuidado também era uma marca incontestável: preocupava-se com os filhos, com a alimentação, as roupas e, sobretudo, com o bem-estar de todos. Mesmo depois de os filhos seguirem seus próprios caminhos, continuava exercendo seu papel de mãe cuidadosa e amorosa.
O testemunho é, portanto, uma declaração de amor e reconhecimento a uma mulher que deixou marcas profundas por onde passou. Palmira foi guerreira, trabalhadora, generosa e acolhedora; uma mulher que fez do cuidado uma forma de resistência e da solidariedade uma missão de vida. Ao retornar à sua terra natal para viver seus últimos dias ao lado do filho Odílio, encerrou seu ciclo deixando como legado não apenas lembranças familiares, mas a história de uma mulher que ajudou, amparou e abriu caminhos para os seus.

Fotos: Arquivo Folha de Condeúba

A Unimontes perdeu o bonde da História?

 

Professor Levon Nascimento

Em 2026, completam-se cem anos da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais. Entre 19 e 29 de abril de 1926, os revoltosos atravessaram o Alto Rio Pardo, percorrendo áreas dos municípios de Rio Pardo de Minas, Salinas e São João do Paraíso e passando por localidades como Taiobeiras e Serra Nova. Foi nessa região que realizaram a célebre manobra do Laço Húngaro. Não se trata de um episódio periférico. A marcha revelou as contradições entre o Brasil oficial e o sertão, enfrentou a ordem oligárquica da Primeira República e inscreveu o Norte de Minas em um dos acontecimentos políticos e militares mais importantes do século XX brasileiro.

As celebrações mineiras demonstraram a vitalidade dessa memória. O livro A Coluna Prestes nos Gerais de Minas, publicado pela Paco Editorial e organizado por mim, reuniu pesquisadores, professores e escritores, entre eles pelo menos três autores de Montes Claros. Por iniciativa do deputado estadual Leleco Pimentel, do PT, a Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou uma audiência pública sobre a relevância histórica, política e cultural da Coluna, juntamente com o lançamento institucional da obra. A atividade produziu homenagens legislativas, reportagens da TV Assembleia e repercussão na imprensa estadual. Luiz Carlos Prestes Filho participou da audiência na ALMG, do lançamento regional e das atividades educativas em Taiobeiras e, posteriormente, refez parte do percurso histórico em Serra Nova, no município de Rio Pardo de Minas.

A mobilização não terminou nos atos da Assembleia. Em Taiobeiras, houve lançamento regional, encontro com estudantes, entrega da Medalha Luiz Carlos Prestes e apresentação do projeto de construção de um monumento dedicado à Coluna. Em Salinas, realizou-se outra cerimônia de reconhecimento da memória regional. Em Rio Pardo de Minas e no Parque Estadual de Serra Nova e Talhado, discutiu-se a criação de uma trilha histórica relacionada ao percurso dos revoltosos e à manobra do Laço Húngaro. Livros, solenidades, atividades escolares, projetos turísticos, homenagens públicas, reportagens e visitas aos lugares de memória fizeram do centenário uma experiência regional concreta.

Diante de tudo isso, causa perplexidade o silêncio da Universidade Estadual de Montes Claros. O projeto do livro foi divulgado durante mais de um ano, a obra contou com autores montes-clarenses e seu organizador é egresso da própria Unimontes, onde se graduou em Ciências Sociais. Ainda assim, até o início de setembro, não houve convite para uma roda de conversa, apresentação da obra em Montes Claros, seminário, mesa acadêmica ou manifestação institucional conhecida sobre o centenário. Não faltaram tema, pesquisa, protagonistas ou tempo para planejamento. Faltou interesse. E o silêncio não foi apenas da Universidade: as forças progressistas, intelectuais e culturais de Montes Claros, que deveriam estar especialmente atentas à preservação da memória democrática e popular, também ignoraram solenemente a efeméride e as iniciativas desenvolvidas no Alto Rio Pardo.

A omissão provoca uma pergunta inevitável: qual é o papel efetivo da Unimontes na pesquisa, na preservação e na divulgação da História do Norte de Minas? Uma universidade regional não se define apenas pelo lugar onde está instalada, mas pela capacidade de enxergar, pesquisar e interpretar o território que justifica sua existência. O Alto Rio Pardo integra sua área de abrangência e corresponde, historicamente, a grande parte do antigo município de Rio Pardo, uma das primeiras áreas de ocupação colonial do Norte de Minas, cuja formação remonta ao final do século XVII. Foi justamente nesse território antigo, vasto e historicamente decisivo, incluindo áreas de Salinas e São João do Paraíso, que a Coluna Prestes atravessou o estado.

A impressão deixada é a de que o Alto Rio Pardo continua sendo percebido a partir de Montes Claros como uma margem distante, lembrada eventualmente nos mapas de abrangência, mas pouco reconhecida como espaço produtor de história, memória e conhecimento. O contraste com a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia é constrangedor. Em Vitória da Conquista, cidade que desempenha papel regional semelhante ao de Montes Claros, a UESB organizou uma roda de conversa sobre “A Coluna Prestes nos Sertões Baianos”, envolvendo o Curso e o Departamento de História, o ProfHistória e grupos de pesquisa, com a presença de Luiz Carlos Prestes Filho. Em Condeúba, território baiano imediatamente ligado ao percurso que alcançaria o Norte de Minas, foram programadas atividades escolares, rodas de conversa, feira de economia criativa, apresentações artísticas e uma mesa específica sobre a passagem da Coluna por Condeúba e pelo Norte de Minas.

Parece, infelizmente, que a Unimontes não se interessou em tomar o bonde da História do Norte de Minas. E as forças críticas, progressistas e culturais de Montes Claros também não perceberam que o trem estava passando, talvez porque continuem olhando o Norte de Minas apenas a partir do centro urbano montes-clarense. Ainda há tempo para romper esse silêncio, abrir as portas, dialogar com pesquisadores e comunidades e reconhecer o Alto Rio Pardo como parte viva da história regional. Mas isso exigirá mais que uma homenagem tardia. Exigirá que a Unimontes e os setores que se apresentam como defensores da cultura e da memória popular se perguntem se pretendem apenas falar em nome do Norte de Minas ou assumir, de fato, a responsabilidade de conhecer, interpretar e valorizar todos os seus territórios.

Publicação lembra 50 anos do atentado à sede da ABI na ditadura

Documento destaca importância da imprensa livre no combate à censura
Agência Brasil

Cinquenta anos do atentado a bomba na ABI. Foto:Divulgação/ ABI
Divulgação/ ABI
Na próxima quarta-feira (19), um dos atentados que tentaram calar vozes democráticas que lutavam contra a ditadura militar (1964-1985) completa 50 anos: a explosão da bomba no prédio-sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro. Para marcar a data, a instituição lançou neste sábado uma edição especial do Boletim da ABI. 

A explosão ocorreu no sétimo andar do edifício número 71 da Rua Araújo Porto Alegre. O atentado de 19 de agosto de 1976 destruiu dois banheiros próximo à sala da presidência da entidade. Houve estragos em salas vizinhas, no elevador e em outros dois andares. Ninguém se feriu.

A publicação especial é fundamentada em documentos históricos e relatórios confidenciais que, além de relembrarem o atentado, a repercussão e a reação da sociedade civil, destaca a importância da imprensa livre para resistência em períodos autoritários e vigilância contra a censura e a violência política.

Documentos históricos

Uma das principais fontes de pesquisa para a publicação foi a edição de julho-agosto de 1976 do Boletim ABI, publicada logo após o atentado terrorista. A ABI traz detalhes também de documentos produzidos pelos órgãos de informação da ditadura militar. 

Entre eles, um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.

De acordo com a ABI, o registro do SNI impressiona pelo grau de informação de que dispunham os órgãos de segurança sobre acontecimentos, reuniões e movimentações da entidade.

“Esse registro ajuda, assim, a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período”, afirma a associação.

A publicação, editada pelo conselheiro da associação Geraldo Cantarino, traz fotografias de como ficaram as áreas atingidas do prédio de 13 andares, inaugurado em 1938, considerado referência da arquitetura moderna brasileira. Até hoje o endereço é sede da ABI.

Cinquenta anos do atentado a bomba na ABI. Foto:Divulgação/ ABI
A bomba destruiu dois banheiros próximo à sala da presidência da entidade. Foto: Divulgação/ ABI
Contexto político

O grupo paramilitar de extrema-direita Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assumiu a autoria do atentado em um panfleto deixado no prédio após a explosão.

A organização acusava a ABI de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e afirmava que a entidade havia sido escolhida para receber a “primeira advertência”.

“Ao defender a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a livre manifestação do pensamento, tornou-se também alvo da intolerância de grupos radicais de extrema-direita, contrários aos incipientes movimentos de abertura política – a chamada ‘distensão’ do regime ditatorial”, explica o atual presidente da ABI, Octávio Costa.

À época, a ABI era presidida pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho. No corpo da instituição havia nomes como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho.

Outros atentados

Para a ABI, o atentado de 50 anos atrás não deve ser visto isoladamente. Fazia parte de um cenário de violência e intimidação política “que buscava conter qualquer possibilidade de avanço das liberdades democráticas”.

Naquele mesmo dia, uma bomba atribuída à mesma organização clandestina foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio de Janeiro. O artefato não explodiu por causa de uma falha no mecanismo de detonação.

 A publicação lançada neste sábado contextualiza que o país sofreu outros atentados que tinham o objetivo de impedir a distensão da ditadura militar. O general Ernesto Geisel, que tinha assumido a Presidência em 1974, defendia uma abertura “lenta, gradual e segura”.

No dia seguinte, 20 de agosto, duas bombas do tipo coquetel molotov foram jogadas de madrugada na 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar de Porto Alegre, provocando princípio de incêndio.

Cerca de duas semanas depois, em 4 de setembro de 1976, uma bomba de fabricação caseira explodiu de madrugada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo.

O Jornal do Brasil, um dos periódicos mais importantes da época, informou que, entre agosto e novembro de 1976, aconteceram nove atentados terroristas no Rio de Janeiro, oito deles assumidos pela AAB. “Apesar disso, o aparato de inteligência e repressão nunca chegou aos autores dos atentados”, acrescenta a ABI.

Ato em homenagem

No dia 19, às 17h, a ABI fará um ato no sétimo andar o prédio-sede para lembrar os 50 anos do atentado. Também será colocada uma placa com frase de repúdio ao terrorismo e de valorização da democracia.

“A Casa do Jornalista permanecerá vigilante diante de qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito”, conclui Octávio Costa.

Nascido há 100 anos, Moacir Santos fundiu ancestralidade e erudição

Obra extensa costurou ritmos afro-brasileiros e jazz

Rádio NacionalMoacir Santos na época do projeto “Ouro negro”: músicas para trilhas de quatro filmes agora têm partituras Foto: Fábio Seixo/ DivulgaçãoFábio Seixo/Divulgação

Compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro, Moacir Santos completaria 100 anos neste dia 26 de julho. Com uma extensa obra que se destaca pela fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz, o músico ainda carece de maior reconhecimento no Brasil. 

Sua canção mais conhecida é Nanã, que homenageia a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras. A reza de pessoas numa procissão foi o ponto de partida para a melodia. Trilha de abertura do filme Ganga Zumba, ganhou letra de Mário Telles e foi gravada por uma centena de artistas, como Nara Leão, Sergio Mendes, Tim Maia e nomes do jazz, como Kenny Burrell e Gil Evans.  

Nascido no Sertão Pernambucano, na região de Serra Talhada, o maestro aprendeu a tocar os instrumentos de banda marcial ainda criança. O músico morreu em Los Angeles, onde morava, em 2006, aos 80 anos, em decorrência de um derrame.

Em depoimento recuperado de um especial da Rádio MEC, em 2016, Moacir Santos relembra os primeiros contatos com a música. 

“Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo. A gente brincava de banda de música da cidade. Lá em Flores, era muito natural os meninos andarem nus, sem roupinha, até lá pelos 9, 10 anos de idade. Então, eu, com 10 anos, tinha minha banda de meninos nus no meio da rua, tocando a marchinha. Então, esse foi meu contato com música”. 

Na adolescência, o músico fugiu de casa e rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, explica que as bandas de música têm uma importância na formação do país e que Moacir Santos veio dessa tradição. 

“No Brasil Império, a gente tinha quase que a totalidade de músicos no país, pessoas negras. Então, as bandas eram o rádio da cidade, dos eventos de domingo. O Moacir vem dessa tradição. Ao chegar aos grandes centros, ele já veio com essa tradição, e ele acrescentou a isso, os estudos mais aprofundados”. 

Moacir Santos foi um arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista brasileiro. Foto Wikipedia/ Divulgação
Moacir Santos foi um arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista brasileiro. Foto Wikipedia/ Divulgação

Professor de grandes nomes

Em João Pessoa, Moacir foi regente da banda da Rádio Tabajara e, depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional como saxofonista a partir de 1948. Três anos depois, já era arranjador da orquestra da emissora.

Foi aluno do maestro César Guerra-Peixe, e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros.

Andrea Ernest Dias, flautista e autora do livro Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro, conta que o artista construiu uma identidade sonora a partir de pesquisas aprofundadas em teoria musical ─ o que fez com que músicos mais jovens quisessem aprender com o mestre. 

“Para quem queria se aprofundar um pouco, sair do campo da intuição musical e saber, o Moacir se tornou essa pessoa que fazia essa ponte, entre a erudição e o popular. Então, se tornou o professor de muita gente”.

Ainda na década de 1960, Moacir arranjou álbuns de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes ─ parte delas lançadas no álbum Coisas, de 1965. Considerado sua obra-prima, o trabalho reúne 10 composições, todas com o título coisa seguido de uma numeração. Andrea Ernest Dias comenta a genialidade do músico na fusão de ritmos afro-brasileiros com os sopros das bandas de jazz. 

“O disco Coisas é uma uma síntese dessa trajetória dele. Ele tem referências das bandas filarmónicas, tanto na instrumentação das bandas filarmônicas quanto nas jazz bands, que é uma tradição forte pelo país desde os anos 40. A pesquisa na Orquestra Afro-brasileira trazendo essa identidade, digamos, afro-brasileira, é uma marca mais forte nessa instrumentação e principalmente nessa estruturação musical perfeita”.

Mudança para o exterior

Em 1967, Moacir Santos deixou a Rádio Nacional e se mudou para os Estados Unidos, onde seguiu dando aulas e compondo trilhas de cinema, nas equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin.

Na década de 70, lançou álbuns pela renomada gravadora de jazz Blue Note, entre eles, Maestro, indicado ao Grammy. Andrea Ernest Dias fala sobre o “mojo”, inovação trazida por Moacir neste trabalho.  

“O mojo é uma espécie de síntese, um sistema que ele criou, muito swingado, uma coisa que a gente ouve e imediatamente fala: ‘Isso aí é ritmo do Moacir’. Então, ele sistematizava as próprias células rítmicas e transformou esse ritmo numa marca pessoal mesmo. O disco Maestro marca uma nova etapa na vida do maestro Moacir Santos. Um disco realizado nos Estados Unidos e que traz ritmos intrigantes, digamos assim”.

Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival e tocou na abertura do evento, ao lado de Radamés Gnatalli. A obra do maestro foi revisitada pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet, no projeto Ouro Negro, com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos. O álbum Ouro Negro foi a porta de entrada para a obra do músico para ouvintes como o Allan Abbadia.

“Ele é fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos também da nossa oralidade, estudos da cultura afro-brasileira. Uma das características mais marcantes dele é o diálogo entre diferentes expressões artísticas da diáspora. Então, ele vem juntando várias dessas expressões com a música erudita. E ele conseguiu trazer essa essência da música afro-brasileira, afro-diaspórica, sem se tornar folclórico”.

Neste ano, já aconteceram alguns eventos em comemoração ao centenário de Moacir Santos e, no mês de agosto, Allan Abbadia vai dar aulas sobre a obra de Moacir Santos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo. 

“É muito importante reverenciar a obra do Moacir Santos. Não somente o nome, mas a estética. O público entender essa estética, entender o que ele quis dizer, é muito importante. Isso humaniza o artista”.

“Ele faz uma obra que está à frente do seu tempo, mas uma obra que abre um campo de possibilidades para quem vier no futuro conseguir reler aquilo e se debruçar sobre aquilo. Quando eu era garoto, eu fiz workshop com ele e ele falava: ‘ser reconhecido no meu país é a minha maior alegria’”.

Vinícius de Moraes, parceiro das composições Menino travesso e Se você disser que sim, homenageou Moacir Santos nos versos do Samba da benção.

Moacir Santos Jr.Foto Lídio Parente/divulgação
Moacir Santos, por Lídio Parente/divulgação

Justiça Federal determina indenização a filho de João Cândido

União foi condenada a pagar R$ 300 mil a Adalberto Cândido

Agência BrasilJustiça acolhe parcialmente parecer do MPF e determina indenização ao filho de João Cândido. Foto: Acervo do Arquivo Público do Estado de São PauloJoão Cândido Felisberto (O Almirante Negro) – Foto: Acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo

A Justiça Federal condenou a União a pagar R$ 300 mil de indenização por danos morais ao filho de João Cândido Felisberto, Adalberto Cândido, em razão das manifestações oficiais da Marinha consideradas ofensivas à memória do líder da Revolta da Chibata.

Na sentença, a 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro reconheceu que as expressões utilizadas pela Força em documento encaminhado à Câmara dos Deputados, em 2024, extrapolaram o direito à manifestação institucional e causaram dano moral reflexo ao descendente direto do marinheiro anistiado.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), em ofício encaminhado à Comissão de Cultura da Câmara, a Marinha teria classificado a Revolta da Chibata como “deplorável página da história nacional”, além de utilizar expressões como “abjetos” e “reprovável exemplo” para se referir aos marinheiros envolvidos no movimento.

Na decisão, a Justiça segue posição defendida pelo MPF, considera que a proteção jurídica da memória de João Cândido alcança também seus familiares e que o filho tem legitimidade para buscar reparação pelos danos sofridos em decorrência das manifestações oficiais.

Segundo a sentença, embora a Marinha tenha liberdade para apresentar interpretações históricas sobre a Revolta da Chibata, a prerrogativa não autoriza o uso de linguagem estigmatizante contra personagem posteriormente anistiado pelo próprio Estado brasileiro.

A sentença foi proferida em ação movida pelo filho de João Cândido contra a União. A Agência Brasil entrou em contato com a Marinha e aguarda retorno.

Revolta da Chibata

Em 1910, a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, mobilizou marinheiros, a maioria negros e pobres, contra açoites e condições degradantes na Marinha. O movimento emergiu após um homem receber 250 chibatadas. Em quatro dias de levante, os castigos foram abolidos.

Filho de ex-escravizados, João Cândido nasceu em 1880. Ele ingressou na Marinha aos 15 anos de idade. Por sua atuação à frente da Revolta da Chibata, foi apelidado de “Almirante Negro”.

 A revolta envolveu a tomada de embarcações atracadas na Baía de Guanabara, entre os dias 22 e 27 de novembro de 1910, em protesto contra os baixos salários, a ausência de um plano de carreira e, sobretudo, as chicotadas aplicadas como punições.

Relacionadas
João Cândido Felisberto (1880-1969) foi o principal líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910, que acabou com os castigos corporais na Marinha de Guerra. Foto: Prefeitura de São João de Meriti/ Reprodução
Justiça condena Marinha a pagar R$ 200 mil por ofensas a João Cândido
João Cândido Felisberto (1880-1969) foi o principal líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910, que acabou com os castigos corporais na Marinha de Guerra. Foto: Prefeitura de São João de Meriti/ Reprodução
Filho de João Cândido rebate Marinha: “meu pai é um herói popular”
Rio de Janeiro (RJ), 08/11/2023 - Entrevista com Adalberto Cândido, o Candinho, filho de João Cândido Felisberto, o marinheiro líder da Revolta da Chibata, conhecido como Almirante Negro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Candinho, único filho vivo de João Cândido, luta por reparação

Condeúba – 175 anos de paróquia

Professor e escritor Agnério Evangelista de Sousa

Apesar de Condeúba ter completado, neste 14 de maio pp. 165 anos de emancipação política, temos datas religiosas bem mais antigas, segundo pesquisas de Dr. Tranquilino Torres, reproduzidas no livro de minha autoria: Condeúba, sua história, seu povo.
Como exemplo, citamos: a) a primeira festa de Santo Antônio foi realizada no dia 13 de junho de 1752, portanto, há 274 anos. Provavelmente, no tempo da primeira capela. Festa esta organizada pela Irmandade de Santo Antônio existente naquela época. b) A Irmandade do Santíssimo Sacramento, fundada por Dom Romualdo Antônio de Seixas, Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil, data de 15 de fevereiro de 1845; são 181 anos de existência. c) A fundação da paróquia de Santo Antônio de Pádua se deu pela Resolução número 413, de 19 de maio de 1851, data en que a capela foi elevada à categoria de Matriz; razão pela qual estamos comemorando o jubileu de 175 anos, pela primeira vez, com grande pompa organizada pelo atual pároco Pe. Lázaro Matheus com tríduo preparatório e festa solene no dia 19 de maio. A capela em referência, a 2a portanto foi abençoada em 10 de julho de 1783 pelo padre visitador-geral José Nunes Cabral Castelo Branco. São 243 anos de história. Estávamos, certamente, nos domínios da Arquidiocese de São Salvador da Bahia.
A localidade, mesmo emancipada de Caetité em1861, continuava com o nome de Vila e Município de Santo Antônio da Barra. Enorme território, o qual abrangia os antigos distritos de Cordeiros, Piripá, Tremedal, Caraíbas, Pres Jânio Quadros, Maetinga e Guajeru. Porém, com o advento da proclamação da República, Dr. Diocleciano Pires Teixeira, de Caetité, apresentou proposta de mudança de denominação para elevar a Vila à categoria de cidade com o nome de Condeúba. De origem tupi devido a uma madeira existente na região cujo nome era pau de candeia. Isso aconteceu em 28 de junho de 1889.

Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades

Estudos do intelectual seguem atuais no Brasil e no mundo
Agência BrasilRio de Janeiro (RJ), 01/05/2026 – Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdadesFoto: Acervo Milton Santos/Divulgação© Acervo Milton Santos/Divulgação

Em meio às grandes redes de supermercados em São Luís, no Maranhão, surgem mercadinhos e feiras populares adaptados à realidade de quem tem poucos recursos. O contraste entre os tipos de estabelecimentos e os modos de consumo revelam dinâmicas de exclusão e de desigualdade na cidade.

O cenário foi objeto de estudo de Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Ela recorreu a uma teoria formulada na década de 1970 por Milton Santos.

Neste dia 3 de maio, são comemorados os 100 anos de nascimento do geógrafo. Ele faleceu em 2001, aos 75 anos, mas suas ideias continuam sendo referências para análises socioeconômicas no Brasil e no mundo.

Rio de Janeiro (RJ), 03/05/2026 – Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdadesFoto: Livia Cangiano/Arquivo pessoal
Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão. Foto: Livia Cangiano/Arquivo pessoal
A teoria de Milton divide a economia urbana em dois circuitos: superior, concentrado nas grandes empresas, com alto nível de tecnologia, capital e organização; e inferior, formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população.

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, diz Livia.

“Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”, exemplifica.

A atualidade da teoria também aparece em pesquisas fora do Brasil. O projeto de pesquisa do qual Lívia faz parte aplica as ideias de Milton às dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em Londres e Paris, na Europa.

Biografia

Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.

Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produção intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Negro, enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade. Ele se tornou inspiração e referência para outros intelectuais negros, como a também geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, diz Catia.

Rio de Janeiro (RJ), 01/05/2026 – Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades Foto: Catia Antonia da Silva/Arquivo pessoal
Rio de Janeiro (RJ), 01/05/2026 – Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades Foto: Catia Antonia da Silva/Arquivo pessoal – Catia Antonia da Silva/Arquivo pessoal
A professora explica que a obra de Milton não trouxe como tema central a negritude, nem a dimensão política da relação entre classe social e raça. Porém, ele produziu uma teoria social crítica das desigualdades que ajuda a analisar as questões raciais. E nunca ignorou o tema quando era necessário se posicionar na vida pública.

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”

“Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra crítica”, disse Santos no programa Roda Viva, em 1997. 

Teorias das desigualdades

Além da teoria dos circuitos urbanos, o geógrafo trouxe ideias que aprofundaram a compreensão sobre as desigualdades. Para Milton Santos, o espaço nunca foi apenas o cenário onde a vida acontece, mas o resultado direto de decisões políticas e econômicas.

Isso significa que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades (como saneamento, transporte ou acesso à internet) não é acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios.

Ao olhar para uma periferia sem serviços básicos ou para uma área valorizada com alta concentração de investimentos, o geógrafo propõe enxergar ali não um acaso, mas a materialização de relações de poder.

“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”, explica a geógrafa Catia

Rio de Janeiro (RJ), 01/05/2026 – Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdadesFoto: Acervo Milton Santos/Divulgação
Rio de Janeiro (RJ), 01/05/2026 – Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades Foto: Acervo Milton Santos/Divulgação – Acervo Milton Santos/Divulgação
No livro Por uma outra globalização, Milton Santos descreve um sistema vendido como promessa de integração e progresso, mas que, na prática, aprofunda desigualdades mundiais. Grandes obras de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, conectam países e mercados, mas também reorganizam territórios locais, pressionam comunidades e ampliam a concentração de riqueza.

“Nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir o mundo da dignidade humana, apenas essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso”, escreveu. 

Outro conceito bem conhecido do autor, o “meio técnico-científico-informacional”, descreve como tecnologia, ciência e infraestrutura passaram a moldar o território. Na prática, isso se traduz em regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas e logística eficiente, convivendo com áreas onde faltam serviços básicos. Enquanto alguns espaços são preparados para atender às exigências do mercado global, outros permanecem à margem desse processo.

Futuros possíveis

Apesar dos diagnósticos críticos, Milton Santos também apontou caminhos de transformação. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que ampliam desigualdades podem ser apropriadas por populações locais para criar alternativas econômicas e sociais.

Iniciativas comunitárias, uso de tecnologia em periferias e formas cooperativas de organização mostram, segundo o autor, que o território também pode ser espaço de resistência e reinvenção.

“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, diz a geógrafa Livia.

“Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”, completa.

Eventos

O centenário de nascimento de Milton Santos será celebrado com um conjunto de eventos pelo país. As programações ocorrem em formato híbrido e reúnem pesquisadores, ativistas e o público geral para debater o seu legado e a atualidade de sua obra.

O Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21 acontece de 4 a 8 de maio na USP, com transmissão virtual. O encontro é feito em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc vai oferecer, ao longo do mês de maio, um ciclo de palestras sobre geógrafo.

A Universidade Federal do Tocantins realizará, entre os dias 26 e 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional, para debater, em âmbito internacional, o pensamento e a obra de Milton Santos.

A Cunha de Ferro e a Convicção Inabalável

A Cunha de Ferro e a Convicção Inabalável
Antônio Siqueira Campos, Comandante do 1º Destacamento da Coluna Prestes

logo

A Cunha de Ferro e a Convicção Inabalável

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Ao mergulhar na história da Coluna Prestes — marcha épica que meu pai, Luiz Carlos Prestes, liderou pelos Brasis esquecidos — muitas vezes penso já ter decifrado todas as suas nuances. No entanto, a história é um organismo vivo, que se revela em camadas, especialmente quando guardada pela dedicação de pesquisadores que mantêm acesa a chama da memória nacional. Recentemente, deparei-me com uma frase de Hippolyte Adolphe Taine, influente crítico, historiador e filósofo francês do século XIX. ​Taine era conhecido por suas visões críticas em relação às massas populares, especialmente em sua análise da Revolução Francesa na obra Les Origines de la France Contemporaine (As Origens da França Contemporânea). Confesso, eu desconhecia esta incrição deixada por Siqueira Campos, nas paredes  do Paço Municipal de Condeúba, Estado da Bahia. Entendo que a mesma sintetiza com precisão o espírito daqueles homens e mulheres que cruzaram o país a partir de 1924 até 1927:

“ “No meio de uma aglomeração desorganisada um bando decidido a tudo penetra fundo como cunha de ferro em montão de ferragem.” (Hippolyte Adolphe Taine)
Frase de Hippolyte Adolphe Taine escrita por Siqueira Campos na parede do Paço Municipal de Condeúba/BA.

Esta passagem foi resgatada e destacada com brilhantismo nos livros “A Coluna Prestes em Condeúba” e “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas”. Pelo rigor histórico, registro aqui meus profundos agradecimentos a Joandina Maria de Carvalho, Levon Nascimento, Claudia Rosa de Jesus Carvalho, Camilo de Jesus Lima e Maria de Fátima Magalhães Mariani. O trabalho deste grupo é fundamental para compreendermos como a “Coluna Invicta” se manteve coesa quando tudo ao redor conspirava para a desistência e dispersão.

“

“Essa imagem da “cunha de ferro” não é apenas uma metáfora estética; ela possui a mesma voltagem moral das palavras de Antonio Siqueira Campos, comandante do 1⁰ destacamento, que ecoam como um mandamento: “À Pátria tudo se deve dar, sem nada exigir em troca, nem mesmo compreensão”.”

Anônio Siqueira Campos (número 1) com membros do destacamento que comandava na Coluna Prestes

Há ali o reconhecimento de que a luta revolucionária exige uma entrega que transcende o ego e o reconhecimento imediato. Ela me remete, invariavelmente, ao levante do 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, em 28 de outubro de 1924. Naquele berço da Coluna,  companheiro de armas de meu pai, Mário Portela Fagundes, pronunciou uma sentença que selaria o destino de muitos: “Grandes causas têm seus mártires, antes dos heróis. Então, sejamos mártires; os heróis virão depois”. Quando Hippolyte Adolphe Taine escreve sobre o “bando decidido a tudo”, ele descreve exatamente o que se via após dois anos de marcha. Mesmo após milhares de quilômetros, fustigados pelo sol, pela fome, falta de armas, munições e perseguidos pelas tropas do Exército do Brasil, as convicções dos membros da Coluna Prestes permaneciam inabaláveis. Eles não eram uma aglomeração inconsequente; eram a cunha de ferro cortando a “ferragem” de um sistema político arcaico. A Coluna Prestes não foi apenas um movimento militar; foi uma demonstração de que a organização e a vontade férrea de um grupo decidido podem romper qualquer inércia. No caso, a desmolarizada, atrasada e corrupta República Velha.

“

“Graças ao trabalho desses historiadores, essa “cunha” continua a penetrar no presente, nos obrigando a refletir sobre o Brasil que ainda precisamos construir.”

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura e Desenvolvimento Econômico Local.

Radiografia dos Nossos Sertões

Radiografia dos Nossos Sertões
“A Coluna Prestes em Taiobeiras”, artista Julia Marques

logo

Radiografia dos Nossos Sertões

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

A obra “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas”, organizada por Levon Nascimento, consolida-se como um marco fundamental na historiografia brasileira. O livro é o resultado de uma busca incessante por fragmentos de uma história que muitos acreditavam estar totalmente mapeada, trazendo à luz a passagem do movimento pelo território mineiro através de uma estrutura robusta de 9 capítulos.

Luiz Carlos Prestes Filho e Levon Nascimento na Comissão de Cultura da ALMG

A robustez do livro é garantida pela colaboração de 15 autores, que trazem diferentes perspectivas acadêmicas e sociais para o debate. Além disso, a obra dialoga com grandes estudiosos da história nacional, como Abguar Bastos, cujo olhar sobre o “Cavaleiro da Esperança” ajuda a contextualizar a trajetória política de Luiz Carlos Prestes:

“

“Nada mais épico, para a burguesia, do que esse Cavaleiro da Esperança, que desafiava exércitos, rompia um áspero território de oito milhões de quilômetros quadrados, atravessava, sem saber nadar, centenas de rios, transpunha vales colossais… Como era impressionante esse homem do Rio do Inferno, do Capão da Onça, da estrada Cruel, ou do Brejo da Brasa…” (Abguar Bastos, 1946)

Embora se diga frequentemente que “tudo já foi dito” sobre a Coluna Prestes, o trabalho do historiador Levon Nascimento prova o contrário. O livro revela que a lenda alimentada nas cidades muitas vezes choca-se com a percepção rural. Enquanto nos centros urbanos se vê o herói, o folclore sertanejo, por vezes, enxerga o movimento como “o raio, a peste, a chama, o pecado”, demonstrando que a história é composta por múltiplas e complexas verdades.

A historiadora Joandina Maria de Carvalho ofereceu a Luiz Carlos Prestes seu livro “A Coluna Prestes em Condeúba” (BA) – Foto: Oclides/JFC

A historiadora Joandina Maria de Carvalho ofereceu a Luiz Carlos Prestes seu livro “A Coluna Prestes em Condeúba” (BA) – Foto: Oclides/JFC

O diferencial humano da obra é oferecer voz a testemunhas locais e figuras históricas das pequenas comunidades. O texto de Joandina Maria de Carvalho resgata relatos preciosos, como o do padre João Gualberto, que explicou sua permanência na cidade durante a chegada dos revoltosos:

“ “Os boatos que correram deixaram o povo com medo e vou confessar a verdade, eu não fugi por causa da idade”.

Outro testemunho marcante é o do Senhor Remígio da Silva, de Condeúba, que descreveu a cena deixada após a passagem dos revolucionários:

“

“Eles pegaram mercadorias das casas comerciais e puseram lá no Paço Municipal. […] Então, eu vi com esses olhos… a latinha de esmalte com que os revolucionários escreveram aquela frase: No meio de uma aglomeração desorganizada, um bando decidido a tudo, penetra a fundo, como cunha de ferro em montão de ferragens”.

O impacto real desta pesquisa foi comprovado durante os lançamentos em Belo Horizonte e em Taiobeiras. A receptividade demonstrou que o livro mobilizou a sociedade local como nenhuma outra obra anterior. Ao unir o rigor de autores como Fabiano Alves Pereira, Joandina Maria de Carvalho, Leleco Pimentel, Levon Nascimento, Lídio Barreto Filho, Luiz Eduardo de Souza Pinto, Márcia Sant’ana Lima Barreto, Maria de Fátima M. Mariani, Milton Pena Santiago, Mônica Rodrigues Teixeira, Padre João Carlos Siqueira, Pedro Abder Nunes Raim Ramos, Sidney Batista Azevedo, Silvânia Aparecida de Freitas e Vladimir Mendes Patrício, o livro toca na alma do povo mineiro, legitimando sua identidade e sua memória.

“

“No encerramento da obra, as palavras de Vladimir Mendes Patrício oferecem uma reflexão filosófica sobre o valor deste resgate. Para o autor, a história não é uma verdade absoluta, mas sim um conjunto de narrativas subjetivas que se formam a partir de diferentes perspectivas.”

 

O escritor e comerciante Vladimir Mendes Patrício ofereceu a Luiz Carlos Prestes Filho seu livro “Retalhos de Prosas”

​Vladimir destaca que a Coluna Prestes pôs à mostra uma “maravilhosa radiografia dos nossos sertões”, exibindo a exuberância da geografia mineira ao mesmo tempo que revelava as “agruras sociais” do semiárido norte-mineiro. Ele sublinha que a ausência total do Estado naquele tempo deixava a população à própria sorte, num cenário onde imperava a lei do mais forte. Assim, a obra cumpre o seu papel vital: registrar episódios que, embora marcados por nuances subjetivas, estão “indelevelmente marcados no conhecimento popular e na literatura”, garantindo que a memória destas lutas e destas gentes jamais seja apagada.

“

“Não posso deixar de finalizar este texto sem destacar a obra sensível de Julia Marques que deu vida a capa do livro.”

 

 

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura e Desenvolvimento Econômico Local.