Da Babel digital à Civilização do Amor

Há algum tempo venho observando um fenômeno que me inquieta profundamente. As mesmas redes sociais que aproximam pessoas, encurtam distâncias e permitem o compartilhamento de conhecimentos também têm servido para espalhar ódio, mentiras e intolerância. O que mais me chama atenção é perceber que isso não acontece apenas na política ou nos debates ideológicos. Infelizmente, também acontece dentro dos espaços religiosos, inclusive entre pessoas que professam a mesma fé. Foi dessa inquietação que nasceu o artigo científico que acabo de concluir: Da Babel Digital à Nova Jerusalém: Crítica ao Catolicismo Digital de Ódio e Defesa da Civilização do Amor na Encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV.
No texto, procurei analisar como parte do catolicismo presente nas redes sociais tem sido marcada por agressões verbais, campanhas de desinformação e ataques contra padres, bispos e leigos que pensam de forma diferente. O caso do Padre Zezinho aparece como exemplo central, mas não é o único. Também examinei situações envolvendo Padre Júlio Lancellotti, Dom José Ionilton Lisboa e Dom Limacêdo Antônio. Em comum, todos enfrentaram tentativas de desqualificação pública promovidas por grupos que transformam divergências em perseguições e o debate em guerra permanente.
Ao longo da pesquisa, fui percebendo que o problema é maior do que simples diferenças de opinião. As plataformas digitais, organizadas por algoritmos que privilegiam o conflito e a indignação, acabam fortalecendo bolhas de pensamento. Muitas pessoas passam a ouvir apenas aqueles que concordam com elas. Aos poucos, o diferente deixa de ser um interlocutor e passa a ser visto como inimigo. O resultado é um ambiente onde a fraternidade desaparece e a intolerância ganha espaço.
Foi justamente nesse ponto que encontrei uma contribuição extremamente interessante da encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV em maio de 2026. O documento utiliza duas imagens bíblicas muito conhecidas: Babel e Jerusalém. Babel representa a confusão, a incapacidade de dialogar e a tentativa de impor uma única verdade pela força. Jerusalém simboliza o encontro, a convivência e a construção de uma comunidade baseada na dignidade humana e no respeito mútuo. A partir dessa metáfora, procurei demonstrar que muitos conflitos digitais contemporâneos reproduzem a lógica de Babel, enquanto a proposta cristã continua apontando para Jerusalém.
Os resultados preliminares da pesquisa reforçam uma hipótese importante: o principal desafio da era digital não é tecnológico, mas humano. O problema não está nas máquinas, nos celulares ou na inteligência artificial. O problema surge quando permitimos que a comunicação seja dominada pelo ressentimento, pela mentira e pelo desejo de destruir o outro. Nesse sentido, a encíclica propõe algo que considero extremamente atual: uma verdadeira ecologia da comunicação, baseada na verdade, na responsabilidade e na fraternidade.
Tenho a convicção de que este debate interessa não apenas aos católicos. Ele diz respeito a todos nós. Vivemos em um tempo em que famílias se dividem, amizades se rompem e comunidades se fragmentam por causa de disputas alimentadas diariamente pelas redes sociais. Pensar formas de reconstruir pontes, recuperar a capacidade de diálogo e cultivar o respeito às diferenças tornou-se uma necessidade urgente para a democracia, para a convivência social e para a própria saúde das relações humanas.
Por essa razão, estou submetendo este artigo a uma coletânea nacional de estudos sobre religião e redes sociais na contemporaneidade, organizada pela Paco Editorial. A expectativa é que os textos aprovados componham uma obra coletiva em formato de livro. Fico feliz em contribuir com essa reflexão porque acredito que a produção acadêmica deve dialogar com os problemas reais do nosso tempo. Entre a Babel do ódio digital e a Jerusalém do encontro humano, continuo acreditando que vale a pena escolher o caminho da palavra que constrói, da crítica que ilumina e da esperança que insiste em sobreviver.



– Artigo de opinião de Levon Nascimento, professor de História, mestre em Políticas Públicas e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

