São Francisco precisava mudar o mindset

Professor Levon Nascimento

Tenho consciência de que, na sociedade em que vivemos, a capacidade de ganhar dinheiro é considerada prova absoluta de inteligência, quando não confundida com a própria inteligência em si. Não possuir essa habilidade, ou simplesmente se recusar a exercê-la, constitui verdadeira ofensa: sinônimo de burrice, incompetência e idiotia.

Numa sociedade como a nossa, São Francisco de Assis, quando não confundido com um morador de rua, mendigo e disforme, seria instado a entrar para uma academia a fim de ganhar shape ou a frequentar uma clínica de estética, gastando a grana de seu pai, Pietro Bernardone. Pior ainda: seria condenado a intermináveis sessões com coaches, que lhe ensinariam a mudar o mindset, explorar todo o seu potencial e, finalmente, tornar-se um “vitorioso” na vida financeira.

Mas nem só da capacidade de ganhar dinheiro vive o homem, embora o evangelho neoliberal insista em pregar exatamente o contrário. Existem outras formas de inteligência, talvez muito menos reconhecidas, algumas vezes rechaçadas, ridicularizadas e até tratadas como defeitos de caráter. Ainda assim, não deixam de ser aquilo que são: inteligências.

Há inteligências artísticas, culturais, empáticas, políticas, intelectuais e solidárias. Algumas permitem criar beleza, preservar memórias, compreender o sofrimento alheio, interpretar as relações de poder, produzir conhecimento ou repartir o pouco que se tem. Curiosamente, muitas delas trazem aos seus detentores mais prejuízos do que vantagens. Afinal, sentir demais, pensar criticamente, solidarizar-se com os injustiçados e recusar certas oportunidades de lucro nem sempre constitui um bom negócio.

Sobretudo nas sociedades de mercado e de consumo, já profundamente invadidas pelos dogmas do neoliberalismo extremo, inteligência respeitável é aquela que pode ser convertida em dinheiro, patrimônio, influência ou performance. As demais precisam explicar constantemente para que servem. E, se não aumentam a renda, ampliam o patrimônio ou produzem algum tipo de vantagem individual, logo são classificadas como ingenuidade, fracasso ou perda de tempo.

Talvez São Francisco, informado de que nem a empatia, nem a arte, nem a cultura, nem a consciência política, nem a solidariedade pagam boletos, respondesse que a ganância também não alimenta a alma. Mas isso, evidentemente, seria interpretado pelos especialistas em prosperidade como resistência à mudança, mentalidade de escassez e falta de visão empreendedora.

Sobre o autor

Levon Nascimento é professor de História e de Direito, doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara e mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas pela FLACSO Brasil e pela Fundação Perseu Abramo. É autor de mais de dez livros e desenvolve pesquisas sobre história regional, políticas públicas, justiça ambiental e desenvolvimento sustentável.

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