Categoria: DITADURA MILITAR

Com documentos inéditos, filme expõe estrutura clandestina da ditadura

Bandidos de Farda, de Juliana dal Piva, estreia neste domingo

Agência BrasilRio de Janeiro (RJ), 15/05/2026 - A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre os arquivos inéditos da ditadura que usou em documentário que será apresentado no canal do Instituto Conhecimento Liberta - ICL. Foto: Rovena Rosa/Agência BrasilA jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Documentos inéditos do arquivo do coronel Cyro Guedes Etchegoyen, um dos principais nomes da inteligência do Exército durante a ditadura militar, revelam novos detalhes sobre o funcionamento da estrutura clandestina de repressão no Brasil. O material histórico, que expõe os bastidores do período mais violento do regime, é a base do documentário Bandidos de Farda, que estreia neste domingo (17) no canal do ICL Notícias.

Coordenada pela jornalista Juliana Dal Piva, a investigação reúne relatórios secretos, manuais de interrogatório e tortura, registros de monitoramento político e documentos que apontam a existência de uma política sistemática de perseguição, desaparecimentos forçados e violência de Estado durante o regime militar.

Entre os materiais revelados estão documentos sobre cursos de interrogatório e tortura realizados por oficiais brasileiros no exterior, relatórios de espionagem política produzidos nos anos 1980 e registros de vítimas ainda desconhecidas oficialmente pelo Estado brasileiro.

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2026 - Reprodução de fotografia do coronel do Exército Cyro Etchegoyen, responsável por roubar e esconder documentos da ditadura militar. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Reprodução de fotografia do coronel do Exército Cyro Etchegoyen, responsável por roubar e esconder documentos da ditadura militar. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Um dos pontos centrais da investigação envolve a atuação do coronel Cyro Etchegoyen, chefe da contrainformação do Centro de Informações do Exército (CIE), entre 1969 e 1974. Segundo pesquisadores da ditadura militar, ele integrou a estrutura responsável pela profissionalização dos métodos repressivos utilizados pelos órgãos de inteligência. O militar participou da consolidação de mecanismos clandestinos de interrogatório e repressão.

O coronel é apontado por estudos históricos como um dos articuladores da chamada “Casa da Morte”, centro clandestino de tortura mantido pelo regime militar em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. O local ficou conhecido por receber presos políticos submetidos a tortura física e psicológica, desaparecimentos forçados e execuções clandestinas. Testemunhos de sobreviventes e documentos históricos indicam que a casa funcionava como um espaço de treinamento e experimentação de métodos de repressão utilizados pelos órgãos de segurança do regime.

A investigação apresentada no documentário mostra como parte dessa estrutura era composta não apenas por militares fardados, mas também por agentes clandestinos.

A investigação conduzida por Juliana, inicialmente publicada em uma série de reportagens do ICL Notícias, já teve repercussão internacional. O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição, Bernard Duhaime, afirmou que as revelações exigem a reabertura de investigações sobre crimes cometidos por militares brasileiros.

Bandidos de Farda

O título do filme, segundo Juliana Dal Piva, nasce justamente dessa constatação.

“Os documentos mostram que havia uma estrutura organizada para cometer crimes de Estado. Não estamos falando apenas de militares cumprindo ordens burocráticas. Existia uma máquina preparada para sequestrar, torturar, matar e desaparecer com corpos. E, muitas vezes, essas operações contavam com homens treinados especificamente para agir como assassinos clandestinos”, afirmou a jornalista em entrevista à Agência Brasil.

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2026 - Reprodução de documentos inéditos da ditadura militar que tinham sido roubados e escondidos pelo coronel do Exército Cyro Etchegoyen foram expostos pela jornalista Juliana Dal Piva em documentário. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Reprodução de documentos inéditos da ditadura militar que tinham sido roubados e escondidos pelo coronel do Exército Cyro Etchegoyen foram expostos pela jornalista Juliana Dal Piva em documentário. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil – Rovena Rosa/Agência Brasil
Ao longo da narrativa, o documentário também expõe relatos de violência sexual cometida por agentes da repressão, incluindo um caso de estupro identificado nos documentos analisados pela equipe.

“O estupro aparece nos documentos como instrumento de terror e humilhação. Isso é muito importante porque, durante décadas, a violência sexual da ditadura ficou invisibilizada. A pesquisa ajuda a mostrar como o Estado utilizava todos os mecanismos possíveis para destruir física e emocionalmente as vítimas”, disse Juliana.

Para pesquisadores e defensores dos direitos humanos, os documentos atribuídos ao coronel Cyro Etchegoyen podem abrir novos caminhos para investigações históricas e jurídicas sobre crimes ainda não totalmente esclarecidos.

Jornalista e escritora especializada em investigações sobre a ditadura militar, Juliana dedica cerca de 15 anos de trabalho ao tema. Ela é autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, publicado em 2025. Confira abaixo a íntegra da entrevista sobre a produção inédita. 

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2026 - A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre os arquivos inéditos da ditadura que usou em documentário que será apresentado no canal do Instituto Conhecimento Liberta - ICL. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre documentário Bandidos de Farda – Rovena Rosa/Agência Brasil
A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre documentário Bandidos de Farda – Rovena Rosa/Agência Brasil

Agência Brasil: Como começou a investigação que resultou em Bandidos de Farda?

Juliana Dal Piva: Essa investigação é resultado de muitos anos trabalhando com documentos da ditadura militar. A minha dissertação de mestrado foi um estudo de caso sobre o desaparecimento do Rubens Paiva. Eu defendi em 2016, num período em que houve muitas descobertas importantes sobre o caso e também começaram as primeiras ações no Supremo Tribunal Federal questionando a Lei da Anistia.

Agência Brasil: O debate sobre memória e ditadura mudou nos últimos anos?

Juliana Dal Piva: Mudou muito. Eu acompanhei como repórter o julgamento sobre a revisão da Lei da Anistia, em 2014. Depois disso, o Brasil entrou em uma espécie de interrupção desse debate, especialmente com a ascensão da extrema direita entre 2014 e 2015. Houve um bloqueio dessa conversa pública sobre memória e justiça.

Agência Brasil: E qual o papel do audiovisual nesse processo?

Juliana Dal Piva: O audiovisual está ajudando a desinterditar essa conversa. Filmes como Ainda Estou Aqui fazem as pessoas compreenderem que a ditadura não foi uma guerra de dois lados. Era um pai dentro de casa, desarmado, que desaparece e deixa uma família destruída sem respostas. Qualquer pessoa consegue se colocar naquele lugar.

Agência Brasil: Por que o nome Bandidos de Farda?

Juliana Dal Piva: Porque os documentos revelam homens do Estado envolvidos diretamente em crimes gravíssimos. Não eram excessos isolados. Era uma estrutura organizada. Muitos desses agentes foram treinados para agir clandestinamente, matar, desaparecer com corpos e perseguir opositores políticos. Eles usavam a estrutura do Estado para cometer crimes.

Agência Brasil: O que mais chamou atenção nos arquivos?

Juliana Dal Piva: O grau de preparação. Os manuais de interrogatório, os cursos no exterior, a sofisticação da vigilância. Havia um planejamento muito estruturado para perseguir pessoas. E muitas vítimas nem participavam de organizações armadas. Os documentos desmontam completamente a narrativa de que havia uma guerra entre dois lados equivalentes.

Agência Brasil: O documentário mostra também violência sexual praticada pela repressão. Qual é a relevância?

Juliana Dal Piva: Sim. Existe um caso de estupro identificado na documentação. Isso é muito importante porque durante muito tempo essas violências ficaram escondidas ou minimizadas. A tortura sexual fazia parte da lógica de dominação da repressão.

Agência Brasil: Existe relação entre esse passado e o Brasil recente?

Juliana Dal Piva: Totalmente. O que vimos nos anos recentes foi uma caminhada ao autoritarismo. Tentativas de censura, perseguição, espionagem de jornalistas e magistrados, o uso político de estruturas de inteligência como a chamada Abin paralela [núcleo clandestino de espionagem que funcionou dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro para monitorar adversários políticos]. Estruturada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Existem consequências quando um país não enfrenta o próprio passado.

Agência Brasil: Como foi transformar a investigação em documentário?

Juliana Dal Piva: Foi uma experiência muito intensa. Eu já tinha feito podcast, reportagem investigativa, mas nunca uma produção audiovisual dessa dimensão. O ICL trabalha muito com vídeo e a gente quis construir uma narrativa acessível sem perder rigor histórico. Estou muito orgulhosa da equipe e do resultado.

Justiça mantém condenação da União e de SP por tortura na ditadura

Ex-estudante da USP receberá indenização de R$ 300 mil por perseguição

Agência BrasilSão Paulo (SP)-29/03/2026. Caminhada Silenciosa em memória das vítimas da ditadura militar. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil© Paulo Pinto/Agencia Brasil

A quarta turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF) confirmou, por unanimidade, a sentença que condenou a União e o estado de São Paulo a indenizarem uma estudante universitária que sofreu perseguições políticas durante o regime militar.

O nome da vítima não foi divulgado. A indenização foi fixada em R$ 300 mil, valor que deve ser dividido entre o estado e a União.

Para os magistrados, a responsabilidade objetiva do Estado ficou comprovada por documentos oficiais e depoimentos de testemunhas que demonstraram que agentes do Estado praticaram tortura e prisões ilegais.

“O dano moral comprovado foi resultado da conduta dos policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na época servidores públicos do Estado de São Paulo, e do próprio regime militar que propiciou o cometimento de toda a série de arbitrariedades, privações, segregações e violências físicas e morais contra a autora”, escreveu o juiz federal Paulo Alberto Sarno, relator do acórdão.

Conforme o processo, a universitária vivia em uma residência para estudantes da Universidade de São Paulo (USP). Entre 1968 e 1971, ela foi presa e torturada, recebendo choques elétricos e até uma injeção de éter no pé.

“São evidentes os danos morais sofridos pela apelada, consubstanciados na dor experimentada em razão do cerceamento de sua liberdade em condições de violência extrema, da perseguição policial, do afastamento compulsório de seu lar, de sua pátria, de seus familiares e de seus amigos e da perda de seu emprego por motivos políticos e ideológicos”, afirmou o relator.

Ditadura como negócio: podcast revela quem lucrou com o regime de 64

Nova série da Radioagência Nacional aponta financiadores de militares
Radioagência NacionalGolpe de 1964: Perdas e Danos TEMP 2 capa_banner_1170x700© Arte EBC

Uma investigação jornalística feita pelas repórteres da Radioagência Nacional Eliane Gonçalves e Sumaia Villela joga luz sobre a face econômica da ditadura militar brasileira (1964-1985), revelando como o regime operou como uma plataforma de lucro para empresas nacionais, multinacionais e governos estrangeiros. A segunda temporada, Passado Leiloado, do podcast Golpe de 1964: Perdas e Danos, destrincha em cinco episódios semanais os mecanismos de “captura do Estado” por entes privados e o rastro financeiro que sustentou o período de exceção.

O trabalho é um produto original da Radioagência Nacional, que celebra a memória do Brasil, que há 62 anos, no dia 1 de abril, enfrentou um golpe militar que depôs o então presidente João Goulart e mudou os rumos do país. Agora este trabalho mostra quem se beneficiou financeiramente com a ditadura militar, que além de retirar direitos civis, censurar, torturar e perseguir, também lucrou e endividou o país. Os episódios serão publicados todas as quartas, no site da Radioagência Nacional e nas principais plataformas de áudio.

Projeto

Diferentemente das abordagens tradicionais, a série “segue o dinheiro” para identificar quem foram os beneficiários do projeto econômico implantado sem debate com a sociedade.

O podcast também mostra como uma iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) e de pesquisadores acadêmicos tem criado um caminho para buscar responsabilização e preservar memória a respeito das violações de direitos humanos no período.

O ponto de partida da temporada revela uma face pouco conhecida da diplomacia europeia. Documentos inéditos mostram que a Suíça, apesar da histórica imagem de neutralidade, foi um dos maiores investidores no Brasil durante a ditadura – ou o maior, considerando o valor per capita em relação à população suíça.

A investigação detalha como empresários suíços admiravam a “paz social” do regime — com arrocho salarial e proibição de greves.

O episódio de estreia descortina uma trama que vai do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970, aos interesses dos credores suíços em manter o regime de exceção no Brasil.

No segundo episódio, a série avança sobre o papel de empresas multinacionais e o elo dessas corporações com o executivo Osvaldo Ballarin. O empresário era uma espécie de embaixador do capital estrangeiro junto aos militares.

A investigação segue indícios de contratos de obras superfaturadas e a engrenagem de endividamento externo, como a construção da Hidrelétrica de Itaipu. Também mostra a proximidade de altos executivos com a arrecadação de recursos para a Operação Bandeirantes (OBAN), que era o centro de tortura do regime ditatorial em São Paulo.

O podcast também vai revelar como a ditadura moldou o cenário atual da educação brasileira. O caso da escola que cresceu vertiginosamente após contratos privilegiados em Foz do Iguaçu serve de exemplo para explicar a política estatal de estímulo ao ensino privado em detrimento do público.

Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa histórica é a linha direta entre a elite escravocrata do século XIX e os financiadores da ditadura no século XX. 

Responsabilização

A série encerra discutindo o futuro da justiça de transição no Brasil. Como a Lei da Anistia protege apenas pessoas físicas, a estratégia do MPF foca, agora, nas pessoas jurídicas. O objetivo é que empresas que colaboraram com o regime sejam responsabilizadas civilmente.

Serviço:

🎙️ Podcast: Perdas e Danos (2ª Temporada – “Passado Leiloado”)

🗓️ Periodicidade: Sempre as quartas-feiras

🎧 Onde ouvir: Na Radioagência Nacional e nas principais plataformas de áudio.

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TRF-1 reconhece Dilma Rousseff como anistiada e fixa indenização de R$ 400 mil

TRF-1 reconhece Dilma Rousseff como anistiada e fixa indenização de R$ 400 mil
A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A 6ª Turma do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) reconheceu a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) como anistiada política e fixou uma indenização de R$ 400 mil por danos morais em razão das perseguições e torturas sofridas por ela durante a ditadura militar, além do direito à reparação econômica em prestação “mensal, permanente e continuada”.

A decisão do colegiado altera parcialmente a sentença anterior, que havia restringido esse segundo pagamento a uma parcela única de R$ 100 mil determinada pela Comissão da Anistia.

O valor da prestação mensal a que Dilma terá direito ainda será calculado, de acordo com a sentença do TRF-1, com base na remuneração que ela recebia ao ser afastada do trabalho na ditadura.

Enquanto a União e a Comissão de Anistia defendiam a quitação por meio de prestação única, limitada a R$ 100 mil, o TRF-1 entendeu que, por possuir vínculo laboral com a Fundação de Economia e Estatística à época da perseguição, Dilma faz jus ao regime de prestação mensal previsto no artigo 5º da lei nº 10.559/2002.

A decisão estabelece que o valor da pensão deve ser equivalente ao que a ex-presidente receberia se estivesse na ativa, considerando a evolução funcional que teria tido na carreira se não tivesse sido afastada por motivos políticos.

Os magistrados destacaram a “excepcional gravidade” dos atos praticados contra Dilma Rousseff. O acórdão detalha que ela foi submetida a sessões sucessivas de choques elétricos, pau-de-arara, afogamentos e isolamento absoluto, que resultaram em sequelas físicas permanentes.

Diante da brutalidade das violações aos direitos humanos, a União tentou argumentar a ocorrência de prescrição (perda do prazo para processar), mas o tribunal rejeitou a tese.

Os juízes reafirmaram que ações de reparação por danos morais decorrentes de atos de tortura e perseguição política são imprescritíveis, pois o direito à dignidade humana não se esgota com o tempo.

Em seu voto, o desembargador Flávio Jardim ressaltou que a anistia é um instrumento de reconciliação social. Ele enfatizou que “a reparação completa à anistiada política não é apenas um ato de justiça individual, mas uma contribuição essencial para a reconciliação social duradoura”, reforçando que perseguições políticas são incompatíveis com o Estado de Direito.

A decisão extingue o processo com resolução de mérito, confirmando a condição de anistiada política de Dilma Rousseff e impondo à União a obrigação de atualizar os pagamentos devidos conforme os critérios da Justiça.

Em maio, a Comissão de Anistia havia aprovado o reconhecimento de Dilma como anistiada política, pedido que havia sido rejeitado em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Protocolado em 2002, o pedido de indenização da petista foi suspenso, por pedido da própria, quando ela assumiu o cargo de ministra de Estado e seguiu paralisado enquanto ela foi presidente da República. Depois do impeachment, em 2016, ela recorreu para que a solicitação voltasse a tramitar.

Em abril de 2022, a ministra Damares Alves negou o pedido de indenização. A defesa da ex-presidente recorreu.

Nos anos 1970, Dilma integrou organizações de oposição à ditadura, entre as quais a VAR-Palmares, um dos principais grupos da luta armada. Foi presa e torturada.

Em depoimento em 2001, ela descreveu ter sido submetida a pau-de-arara, choques elétricos e palmatória. e ter levado socos no rosto, o que gerou consequências duradouras.

Motta alega questão de segurança para expulsar jornalistas de plenário

Entidades profissionais denunciam que ato foi censura à imprensa
Agência Brasil

Brasília (DF), 26/08/2025 - Presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, durante reunião de líderes. Foto: Lula Marques/Agência Brasil
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB) – Foto: Lula Marques/Agência Brasil

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), informou que a expulsão dos jornalistas do plenário da Casa, na última terça-feira (9), se deu por questões de segurança diante da ocupação da Mesa Diretora pelo deputado Glauber Braga (PSOL-RJ).

“Em conformidade com o Ato da Mesa nº 145/2020, a Polícia Legislativa solicitou a retirada de assessores, servidores e profissionais de imprensa do plenário para garantir a segurança dos presentes”, justifica Motta em nota publicada nesta quinta-feira (11).

Brasília (DF), 09/12/2025 - Deputado Glauber Braga (PSOL) é retirado da mesa da presidencia da camâra dos deputados por seguranças.Frame Deputado Glauber Braga/Facebook
Deputado Glauber Braga é retirado à força da Mesa da Câmara por policiais legislativos – Frame Deputado Glauber Braga/Facebook

Após a saída dos profissionais de imprensa, Glauber Braga foi retirado à força da Mesa da Câmara por policiais legislativos. O deputado protestava contra a votação da cassação do seu mandato. Durante a ação, jornalistas foram agredidos pela Polícia Legislativa.

Já a transmissão da TV Câmara do plenário foi interrompida. A Presidência da Casa disse que esse foi um ato normal uma vez que a sessão foi suspensa.

“Conforme a Ordem de Serviço nº 5/2022, que estabelece a ordem de prioridade das transmissões oficiais, a interrupção de uma sessão plenária acarreta automaticamente a veiculação do evento legislativo subsequente. Assim, a TV Câmara passou a transmitir a reunião da Comissão de Saúde, procedimento técnico de praxe”, diz a nota da Câmara.

Ataque à imprensa

A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) disse que a expulsão dos jornalistas do plenário foi “extremamente grave” e considerou a medida “um cerceamento ao trabalho da imprensa e à liberdade e ao direito de informação da população brasileira”.

A presidente da Fenaj, Samira Castro, disse à Agência Brasil que a questão de segurança não justifica a ação.

“Sobretudo porque eles não foram só retirados, eles foram retirados com truculência, eles foram agredidos e isso é muito grave. A nota não nos convence porque era possível dialogar, minimamente, com aqueles trabalhadores que estavam ali fazendo o seu trabalho”, disse.

Reunião desmarcada

Motta chegou a marcar uma reunião com representantes indicados pelo Comitê de Imprensa da Câmara para essa quarta-feira (10), mas cancelou a agenda, em seguida, alegando falta de tempo.

Antes da sessão de ontem, o plenário foi novamente fechado para imprensa sem que fosse explicado o motivo aos profissionais que costumam circular livremente pela sala principal de votações da Câmara.

Na nota de hoje, dois dias após o episódio da expulsão, Motta lamentou os transtornos causados aos profissionais de comunicação e reafirmou que não houve intenção de limitar o exercício da atividade jornalística.

“As informações apresentadas pelos jornalistas serão incorporadas à apuração em andamento a fim de identificar eventuais excessos nas providências adotadas ao longo do processo de retomada dos trabalhos”, completou.

Brasília (DF), 10/12/2025 – Ato em defesa dos jornalistas e pela PEC do diploma.Foto: Pedro Rafael/Agência Brasil
Brasília, 10/12/2025 – Ato de jornalistas contra a censura e a ação violenta dos policiais legislativos – Foto: Pedro Rafael/Agência Brasil

Ato contra censura

Nessa quarta-feira, um grupo de jornalistas fez um ato na Câmara dos Deputados contra censura e a ação violenta dos policiais legislativos do dia anterior.

Imagens e relatos mostram ação truculenta de policiais legislativos contra repórteres, cinegrafistas e fotógrafos que tentavam realizar seu trabalho. Alguns profissionais precisaram de atendimento médico por conta de agressões, que incluíram puxões, cotoveladas e empurrões.

A Associação Brasileira de Imprensa informou que irá entrar com ações judiciais contra o presidente da Câmara pelas “violências cometidas pela Polícia Legislativa”.

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Brasília (DF), 09/12/2025 - Deputado Glauber Braga (PSOL) é retirado da mesa da presidencia da camâra dos deputados por seguranças.Frame Deputado Glauber Braga/Facebook
Entidades condenam retirada da imprensa na Câmara

Catedral da Sé lotada rememora os 50 anos do assassinato de Herzog

Ato inter-religioso é dedicado à memória das vítimas da ditadura
Agência Brasil

São Paulo (SP), 25/10/2025 - Ato Interreligioso na Igreja da Sé,  lembrando o jornalista Vladimir Herzog, morto pelo regime militar no dia 25 de outubro de  1975. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
© Paulo Pinto/Agência Brasil

Para marcar este 25 de outubro, data em que o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar há 50 anos, a Comissão Arns e o Instituto Vladimir Herzog realizaram um ato ecumênico que lotou a Catedral da Sé, no centro da capital paulista. O local também foi palco, dias depois da morte do jornalista, da histórica cerimônia inter-religiosa de 1975, que desafiou o regime militar e reuniu cerca de 8 mil pessoas.

Presente no ato, Ivo Herzog, filho de Vladimir, afirmou que todos os familiares de vítimas da ditadura militar no país esperam que um processo legal seja levado a cabo. “[O que falta] é a investigação das circunstâncias dos crimes que foram cometidos, é um indiciamento dos autores dos crimes, estando vivos ou estando mortos, é o julgamento e a decisão do nosso poder judiciário se eles cometeram ou não cometeram crimes”, disse à imprensa.

Ivo ressaltou que a revisão do parecer do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação à Lei da Anistia de 1979 é uma luta da sociedade. Ele lembrou que a ADPF 320, que trata sobre a anistia, está nas mãos do relator, ministro Dias Toffoli, há mais de oito anos.

“O Brasil tem uma tradição, desde que se tornou uma república, onde aconteceram vários golpes e ou tentativas de golpes. Todos esses eventos têm duas coisas em comum: a presença dos militares e a impunidade.”

A ADPF 320 versa sobre a interpretação que o sistema judiciário e o Poder Público dão à Lei de Anistia. Protocolada em 2014 e ainda pendente de julgamento, a ação foi ajuizada pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

“Eu entendo que esse atraso, essa abstenção do ministro Toffoli, infelizmente, é uma cumplicidade com essa cultura de impunidade. E a noite de hoje, essa nossa manifestação, essa nossa indignação pelos agentes de Estado que cometeram atrocidades contra todos os entes queridos, os familiares a quem a gente dedica essa noite, sensibilize os ministros do STF, sensibilize o ministro de Dias Toffoli”, acrescentou Ivo.

O Instituto Vladimir Herzog – que entrou como amicus curiae da ADPF em dezembro de 2021 – compreende que a atual interpretação da Lei de Anistia assegura a impunidade dos crimes de lesa-humanidade cometidos por agentes da ditadura militar e está em desacordo com os tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.

São Paulo (SP), 25/10/2025 - Ato Interreligioso na Igreja da Sé,  lembrando a morte do jornalista Vladimir Herzog, morto pelo regime militar no dia 25 de outubro de  1975. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Ato inter-religioso na Igreja da Sé lembra a morte do jornalista Vladimir Herzog, em dia 25 de outubro de 1975. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Ivo afirmou ainda que o tema da anistia tem sido sequestrado pela extrema-direita. “Anistia é um perdão. A anistia de 1979, por si só, é uma aberração, porque o regime autoritário da época nunca reconheceu que cometeu nenhum crime. Como anistiar quem não cometeu crime? A mesma coisa está acontecendo novamente com esses que estão sendo julgados pelo 8 de janeiro. Eles não admitem que cometeram crime”, disse.

O presidente em exercício Geraldo Alckmin esteve na cerimônia deste sábado. “A morte do Vladimir Herzog foi o resultado do extremismo do Estado que, ao invés de proteger os cidadãos, os perseguia e matava. Por isso, fortalecer a democracia, a justiça e a liberdade”, disse Alckmin.

Questionado se era a favor da revisão da Lei da Anistia de 1979, ele afirmou: “acho que já demos bons passos nessa questão”.

Ivo Herzog destacou que a presença de Alckmin reafirma o compromisso do Estado com a democracia. “Há 50 anos, quando mais de 8 mil pessoas vieram a essa catedral demonstrar sua indignação contra a barbárie que foi cometida contra o meu pai, havia muito medo, medo do Estado. Havia dezenas de atiradores de plantão aguardando que qualquer manifestação, qualquer desordem justificasse um massacre”, lembrou. 

“Hoje, na pessoa do presidente, Geraldo Alckmin, nós temos o Estado de mãos dadas com a gente, para reafirmar o compromisso com a democracia, reafirmar o compromisso com a justiça, reafirmar o compromisso com os direitos humanos, reafirmar o compromisso com a verdade.”

O assassinato de Vlado

São Paulo (SP), 25/10/2025 - Ato Interreligioso na Igreja da Sé,  lembrando o jornalista Vladimir Herzog, morto pelo regime militar no dia 25 de outubro de  1975. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
O jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar há 50 anos, no dia 25 de outubro de 1975. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Vladimir Herzog foi torturado e morto nas dependências do Doi-Codi – órgão de repressão da ditadura militar subordinado ao Exército -, onde havia sido preso sem ordem judicial. Diretor de Jornalismo da TV Cultura na época, Vlado, como era conhecido entre colegas e amigos, havia se apresentado voluntariamente, na manhã de 25 de outubro de 1975, ao órgão de repressão.

“Eu estava fechado em uma cela forte, eu ouvia uma pessoa sendo torturada e a pergunta era basicamente ‘quem são os jornalistas?’. [Eu me questionava:] ‘Quem pode ser a essa altura? Quem tinha pra ser preso já foi preso ou fugiu’”, lembra o jornalista Sérgio Gomes.

Ele estava preso no Doi-Codi na data em que Vlado foi assassinado. “Afinal, tem uma hora que para tudo, silêncio, remanejam as pessoas de um lugar para o outro, e é a hora que tiram o cadáver e fazem a simulação do suicídio”, relatou.

Desde a morte de Herzog, sua esposa, Clarice Herzog, esteve à frente das denúncias sobre o assassinato político do marido.

No dia 31 de outubro de 1975, foi realizado um ato na Catedral da Sé, um marco na resistência democrática conduzido por líderes religiosos como o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright, com o apoio do jornalista Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Cinco décadas depois, o novo ato inter-religioso na Sé é dedicado à memória de todas as vítimas da ditadura.

Na tarde de hoje, jornalistas fizeram uma passeata desde o auditório Vladimir Herzog, na sede do sindicato da categoria em São Paulo (SJPSP), até a Sé para participar do evento na catedral.

“Hoje é um dia muito especial, muito emocionante. Logo após o assassinato de Herzog, no dia 25, houve uma assembleia no sindicato, em que centenas de jornalistas decidiram organizar o ato do dia 31 de outubro na Catedral da Sé, que foi aquele primeiro grande ato contra a ditadura militar, pós AI-5. Rememorar essa caminhada, fazer essa atividade, foi muito bonito, com pessoas de diferentes gerações, colegas jornalistas”, disse Thiago Tanji, presidente do SJPSP.

“É importante lembrar que as pessoas que torturaram, assassinaram o Vladimir Herzog, não foram condenadas, não foram investigadas, então a nossa luta contra impunidade é sobre o passado, mas também no presente, contra os golpistas do passado e do presente. Realizar essa atividade com uma catedral cheia, um lugar significativo na luta pela democracia, é muito especial”, finalizou.

Diversas pessoas que estiveram no primeiro ato e voltaram para a catedral 50 anos depois foram aplaudidas de pé. Também compareceram ao local nomes como Luiza Erundina, Eugênia Gonzaga, Amelinha Teles, Jurema Werneck, Fernando Morais, José Dirceu, Ivan Valente, Sérgio Gomes, Eduardo Suplicy, José Genoíno, Paulo Teixeira, Paulo Vannuchi, Rui Falcão, Ariel de Castro Alves, José Trajano, Juca Kfouri, Andre Basbaum, José Carlos Dias e Frei Chico.

No começo da cerimônia deste sábado, por volta das 19h, os presentes acompanharam apresentação do Coro Luther King, que foi seguida de manifestações inter-religiosas, com a presença de dom Odilo Pedro Scherer, da reverenda Anita Wright – filha de Jaime Wright, e do rabino Rav Uri Lam. O ato foi intercalado por músicas executadas pelo coral e discursos.

Ainda na catedral, houve a exibição de vídeos especialmente produzidos para a ocasião, com imagens de manifestações e de vítimas do Estado desde a ditadura militar até os dias atuais. Entre os vídeos, estava a leitura de uma carta de Zora Herzog, mãe de Vlado, feita pela atriz Fernanda Montenegro, para o juiz Márcio José de Moraes, que reconheceu o direito à indenização para a família de Vladimir Herzog pela União.

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Francisco Tenório Cerqueira estava desaparecido desde 1976
Agência Brasil

Argentina - 13/09/2025 - Corpo de Francisco Tenório Cerqueira Júnior foi identificado após 50 anos — Foto: Reprodução Instagram EAAF
O pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira desaparecido na Argentina em 1976

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) informou neste sábado (13) que esclareceu o mistério, de quase 50 anos, da morte do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira, desaparecido em 18 de março de 1976, após sair do Hotel Normandie, na região central de Buenos Aires.

Na ocasião, o músico acompanhava Toquinho e Vinícius de Moraes em uma turnê pela América do Sul. Segundo informações da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), Francisco Tenório foi morto a tiros e seu corpo enterrado sem identificação numa vala comum na periferia da capital.

Segundo a comissão, o reconhecimento foi feito por meio do processo de datiloscopia, ou seja, de comparação de digitais humanas. Francisco Tenório foi morto na madrugada do dia 18 de março, após sair do hotel e poucos dias antes do golpe de Estado que derrubaria María Estela Martinez Perón da presidência da Argentina e instalaria uma ditadura militar no país.

O reconhecimento foi possível a partir de um levantamento feito pela Procuraduría de Crímenes contra la Humanidad. Ações judiciais foram iniciadas na província de Buenos Aires, entre 1975 e 1983, em virtude de cadáveres encontrados em vias públicas que foram arquivadas sem que a identidade das vítimas fosse determinada. O trabalho  objetivava investigar se tais casos poderiam estar relacionados aos de pessoas mortas e desaparecidas pela violência estatal argentina.

“Assim, a partir do trabalho de investigação da EAAF, por ordem da Cámara Federal de Apelaciones en lo Criminal y Correccional de la Capital Federal de Buenos Aires, foi possível estabelecer a confirmação da morte e o destino do corpo de Francisco Tenório Cerqueira Júnior, após a comparação das impressões digitais de um cadáver de um homem morto por disparos de arma de fogo, encontrado em um terreno baldio na região de Tigre, próxima a Buenos Aires, no dia 20 de março de 1976. Não se sabe ainda se será possível exumar o corpo do Cemitério de Benavídez, na capital argentina, para comparação de amostra genética”, informou a CEMDP em nota.

A comissão disse ainda que vem acompanhando esse caso específico e de outros relacionados à denominada Operação Condor, nome dado a aliança entre as ditaduras instaladas na Argentina, Bolívia, no Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, durante a década de 1970, para vigiar, sequestrar, torturar, assassinar e fazer desaparecer militantes políticos que faziam oposição, armada ou não, aos regimes militares.

O procedimento da CEMDP passa pela coleta dos dados datiloscópicos dos desaparecidos políticos brasileiros em outros países, bem como as amostras sanguíneas de seus familiares, para envio e intercâmbio com autoridades dos locais de desaparecimento, “com finalidade de realizar descobertas como a do presente caso.”

A CEMDP informou ainda que, após o recebimento da notificação da EAAF, prontamente procurou e comunicou a família do músico, informando também que “segue à disposição para oferecer todo o apoio necessário aos familiares neste processo, assim como de colaborar com os esforços e diligências com vistas à localização dos remanescentes humanos do artista brasileiro, vítima da violência política de Estado na América Latina, Francisco Tenório Cerqueira Júnior.”

Donald Trump assina decreto que impõe taxa de 50% ao Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (30) um decreto que impõe uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, elevando o total para 50%. A medida oficializa o percentual mencionado pelo republicano em carta enviada ao presidente Lula neste mês.
Segundo a Casa Branca, a medida foi adotada em resposta a ações do governo brasileiro que representariam uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos EUA”. O comunicado afirma que a ordem executiva foi motivada por ações que “prejudicam empresas americanas, os direitos de liberdade de expressão de cidadãos americanos”, além de afetar a política externa e a economia do país.
A Casa Branca cita “perseguição política, intimidação, assédio, censura e processos judiciais” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, classificando essas ações como “graves abusos de direitos humanos” e um enfraquecimento do Estado de Direito no Brasil.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, é citado no texto como responsável por “ameaçar, perseguir e intimidar milhares de seus opositores políticos, proteger aliados corruptos e suprimir dissidências, frequentemente em coordenação com outros membros do STF”.
“Quando empresas americanas se recusaram a cumprir essas ordens, ele impôs multas substanciais, ordenou a exclusão dessas empresas do mercado de redes sociais no Brasil, ameaçou seus executivos com processos criminais e, em um caso, congelou os ativos de uma empresa americana no Brasil para forçar o cumprimento”, diz o comunicado. As informações são do G1.

STF autoriza denunciado por omissão no 8/1 a ir à festa junina do filho

STF autoriza denunciado por omissão no 8/1 a ir à festa junina do filho
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) – Foto: Fellipe Sampaio/STF

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou, nesta sexta-feira (27), o major Flávio Silvestre de Alencar, que cumpre medidas cautelares por suposta omissão nos atos do dia 8 de janeiro de 2023, a participar de festa junina de seu filho, em Brasília.

Na decisão, o ministro deixa claro o horário que o militar poderá se deslocar até a escola entre 10h e 16h, neste sábado (28). “Ressalte-se o caráter provisório da presente decisão, que não dispensa o requerente do cumprimento das demais medidas cautelares a ele impostas”, escreveu Moraes.

No ano passado, a defesa do major pediu que ele fosse assistir a uma partida de futsal do filho. No entanto, a demanda foi negada por Moraes.

O major Flávio foi preso pela PF (Polícia Federal) duas vezes, em fevereiro e em maio de 2024, durante as ações policiais no inquérito que investiga supostas omissões de policiais militares no dia da tentativa de golpe. O oficial acabou liberado da prisão há um ano, mas ainda deve cumprir medidas cautelares, como a de pedir permissão para sair aos fins de semana.

Isis Dias de Oliveira: ex-marido busca até hoje reconhecimento de assassinato na ditadura militar

REPORTAGEM: José Luiz Del Roio procurou respostas por quase 40 anos; promessa de correção no atestado de óbito não saiu do papel

Por Darlene Dalto

O caso de Isis Dias de Oliveira, que desapareceu no Rio de Janeiro em 1972

Famílias brasileiras que reivindicam novos atestados de óbitos de seus mortos e desaparecidos durante o regime militar finalmente receberam uma boa notícia: o Conselho Nacional de Justiça determinou, em dezembro de 2024, que a causa da morte nos atestados de óbito das 434 vítimas da ditadura será corrigida e o Estado vai assumir a sua responsabilidade. Nos novos documentos deverá constar “causa morte não natural, violenta, causada pelo Estado”, como recomendou a Comissão Nacional da Verdade, instaurada em 2012. Mas até agora não foi definida uma data para a entrega dos novos certificados.

“Essa reivindicação é antiga. São 40, 50 anos de espera. A CNJ reconheceu em dezembro que as famílias devem ter um novo atestado de óbito, mas a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos resolveu que só ela deve atestar e entregar as certidões. Então criou-se mais um caminho burocrático e até agora nenhum documento foi entregue.”, explica a jornalista, ex-presa política e militante Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha Teles.

Há 30 anos, em 1995, o governo aprovou a Lei 9.140 que reconheceu que os desaparecidos políticos foram mortos pelo Estado. As famílias teriam direito ao atestado de óbito e também a uma indenização simbólica. “Eram valores entre R$ 100 mil e R$ 120 mil aproximadamente. Mas nós não queríamos dinheiro, queríamos informação”, ela diz.

Além da falta de retificação nos documentos, ainda há muito a ser explicado. Dezenas de familiares ainda não sabem quando, como, onde e em que circunstâncias seus filhos, seus sobrinhos foram mortos. Mães e pais que passaram décadas em busca de informação morreram sem saber que os matou. E nenhum assassino foi preso.

O caso de Isis Dias de Oliveira, que desapareceu no Rio de Janeiro em 1972, é emblemático. “É uma tragédia. Não sabemos nada”, reclama o radialista e militante político ítalo-brasileiro José Luiz Del Roio, que foi companheiro de Isis. “Queremos saber o nome dos assassinos. Queremos que eles sejam processados”. São 53 anos à procura de informações seguras.

A certidão da morte de Isis que Del Roio recebeu não traz nenhuma informação relevante. No lugar em que deveria haver a data e hora do falecimento, local de falecimento, causa da morte e nome do médico que atestou o óbito, há apenas um incômodo “não consta”. O local do sepultamento está descrito “local ignorado”.

POR QUE ISSO IMPORTA?
Há 30 anos, o Estado brasileiro aprovou Lei garantindo que as mortes e desaparecimentos causados pela ditadura de 1964 alterariam as informações nas certidões de óbito, mas até hoje famílias não conseguiram exercer esse direito

Isis Dias de Oliveira, que desapareceu no Rio de Janeiro em 1972 após ser presa pela ditadura
Quase 40 anos a procura de respostas
Isis foi presa no dia 30 de janeiro de 1972 pelo Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) com outro militante chamado Paulo César Massa. “A família só soube que ela tinha sido presa porque uma amiga chamada Aurora Nascimento telefonou e avisou. As Forças Armadas sempre negaram”, conta Del Roio.

Segundo o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva, Isis foi acusada e julgada à sua revelia por assalto ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência, no Rio de Janeiro, depredação de postos de gasolina onde havia cartazes de procurados políticos e assalto à agência do banco Bradesco na rua Miguel Leme, quando foi ferida, sem gravidade. Em três processos ela foi absolvida e os demais foram arquivados por insuficiência de provas.

Foram 38 anos de procura. Dona Felícia, mãe de Isis, escreveu cartas para o governo, tentou contatos com as Forças Armadas. Nunca obteve resposta. Uma informação de que a filha estava em Londres a levou até a capital da Inglaterra. A pista era falsa. “Quando saí da última prisão, muitas famílias de mortos e desaparecidos vinham falar comigo para saber se eu tinha alguma informação”, lembra Amelinha Teles, que entrou para o PCB, foi presa em 1964 e depois em 1972, passou pelo DOI-CODI de São Paulo, pelo Presídio do Hipódromo, pela Casa do Egresso e pelo Carandiru.

Durante quase 40 anos, Dona Felícia, mãe de Isis, escreveu cartas para o governo e tentou contatos com as Forças Armadas para saber o que houve com a filha “Conheci bem dona Felícia. Ela me marcou. Era uma mulher muito doce, participava dos nossos encontros, que reuniam famílias de mortos e desaparecidos, era assídua nas nossas manifestações, nas nossas viagens a Brasília. Ela levou essa luta até o fim de sua vida. Dona Felícia não tinha as mesmas posições políticas que a filha, mas nunca se queixou da Isis. Pelo contrário, tinha muito orgulho da coerência dela”, completa.

De acordo com investigação da Comissão da Verdade, a morte de Isis e de mais 11 desaparecidos no dia 28 de janeiro de 1979 foi confirmada pelo general Adyr Fiúza de Castro, chefe do DOI-CODI do Rio de Janeiro, em matéria do jornalista Antônio Henrique Lado na Folha de S.Paulo. Em 1994, o livro Os Anos de Chumbo – A Memória Militar sobre a Repressão (editora Relume-Dumará), dos pesquisadores Maria Celina D’Araújo, Glaucio Dillon Soares e Celso Castro o general Fiúza de Castro, trouxe um depoimento cruel do general Fiúza de Castro sobre métodos usados para torturar presos políticos no país durante o regime militar.

Em julho de 2021, a Agência Pública mostrou que 19 militares acusados de crimes na ditadura – entre eles nomes do alto escalão do regime militar – deixaram pensões para seus familiares. A lista trazia o nome do general Fiúza Castro, que deixou duas pensões no valor total de R$ 30 mil a familiares.

O desaparecimento de Isis começou a ser investigado em 2014 pela Comissão Nacional da Verdade. A conclusão é que ela foi assassinada pelos militares na Casa da Morte em Petrópolis, no Rio de Janeiro, a partir da denúncia de Inês Ettiene Romeu, ativista da Vanguarda Popular Revolucionária, única sobrevivente entre os militantes que foram levados para esse lugar.

Del Roio pediu que a Comissão da Verdade solicitasse ao Arquivo Nacional uma cópia da Informação 4.057, de 11 de setembro de 1975, do Serviço Nacional de Informação. No documento consta que ela teria sido morta no mesmo dia em que foi presa. “Para mim ela foi morta no DOI-CODI da Barão de Mesquita, na Tijuca, no Rio. Depois eu estive lá para ver o lugar. Também fui até a Casa da Morte”, ele conta. “Quando as ossadas da vala do cemitério de Perus foram descobertas, procurei ali também”.

Durante a ditadura, 1049 corpos foram enterrados ilegalmente no Cemitério Dom Bosco, em Perus, bairro de São Paulo. Essas ossadas foram descobertas em 1990 pelo jornalista Caco Barcellos.

De acordo com a Comissão da Verdade, Isis foi assassinada pelos militares na Casa da Morte em Petrópolis, após ser desaparecida em 30 de janeiro de 1972 “Quando eu não puder mais falar, vocês falarão por mim” Del Roio lembra de Isis como “uma mulher corajosa que aderiu à luta contra a ditadura do regime militar por vontade própria e teve papel importante”. Ela entrou para o Partido Comunista Brasileiro em 1965, quando cursava o primeiro ano de Ciência Política na Universidade de São Paulo, deixou o PCB para integrar a Aliança Libertadora Nacional, esteve em Cuba onde recebeu treinamento de guerrilha, voltou ao Brasil, mudou para o Rio de Janeiro e lá foi presa em 30 de janeiro de 1972. Nunca mais foi vista.

Isis nasceu em São Paulo em 29 de agosto de 1941, morou com a família na Lapa, era filha de Felícia Mardini de Oliveira e Edmundo Dias de Oliveira e tinha dois irmãos. Seus pais não eram ricos, pelo contrário, mas ela pode estudar em bons colégios, fez o clássico no Santa Marcelina, aprendeu a tocar piano, também pintava, ela cursou artes na Fundação Armando Álvares Penteado. Como falava inglês, francês e espanhol, trabalhou como secretária bilíngue no frigorífico Swift. “Ela era uma mulher muito bonita, usava um cabelo bem curto, era baixa, não era muito magra. Falava com calma, era muito esforçada e culta. Gostava de pintar, quase sempre rostos de mulheres”, lembra Del Roio, que a conheceu quando ela entrou na USP e foi morar no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP).

Em um ano estavam casados. “Eu costumava ir até o antigo prédio da USP na rua Maria Antonia, às vezes ficava ali jogando xadrez. Um dia uma amiga que tinha acabado de chegar da União Soviética nos apresentou. Isis queria entrar para o PCB”, conta Del Roi, que aos 22 anos já era uma importante liderança do partido. Ele começou bem cedo, aos 17, no movimento estudantil em Bragança Paulista, interior de São Paulo, onde morou. “Nós nos casamos por causa da família dela, só no civil, em um cartório na Lapa, e fomos morar em um apartamentinho na rua das Palmeiras, 261, em Santa Cecília. Pouca gente sabia onde a gente morava. A Clara Charf e o Carlos Marighella apareciam de vez em quando. Isis não sabia cozinhar, a Clara não se conformava e tentava ensinar”, lembra, rindo.

Isis começou a trabalhar arregimentando alunos interessados em lutar contra a ditadura brasileira e ajudar na organização das manifestações de rua que o PCB promovia. Dois anos mais tarde, passou a trabalhar no cursinho do grêmio da faculdade. “Isis era alegre, risonha, apesar da vida dura. Ela coordenava o curso, eu dava aulas de história grega e bizantina”, conta Del Roio. A essa altura ela usava um codinome, como quase todos que militavam naquele período. “Isis era Fátima, ela mesma que escolheu esse nome. Tinha outros nomes, mas não me lembro mais. Eu só a chamava de Isis quando estava sozinho com ela. Também a chamava de Corujinha porque na mitologia grega a coruja representa a busca pelo saber”, explica.

Nessa época, eles montaram uma gráfica clandestina na rua Canuto do Val, também em Santa Cecília. “A gráfica era muito importante para o partido porque ali a gente imprimia todo o material que era distribuído para os alunos e operários nas manifestações, nas passeatas. Eram textos sobre política internacional de Ho Chi Minh, de Che Guevara, de Regis Debray. Eu e Isis também escrevíamos”.

Casamento de Ísis e Del Roio em 8 de abril de 1967
Com a cisão no PCB em 1967, Del Roio rompeu com o partido e se uniu a Carlos Marighella e João Câmara Ferreira para fundar a ALN, um grupo de guerrilha urbana que defendia a luta armada contra a ditadura. Ele lembra que a ALN é conhecida como Aliança Nacional Libertadora, mas na verdade a sigla queria dizer Ação de Libertação Nacional. “Eu sei disso porque estava lá. Nosso objetivo era fazer uma ação, não queríamos aliança com ninguém. Eu segui o Marighella e Câmara Ferreira, fundamos a ALN, Isis veio comigo. Foi um período difíc

No terceiro ano do curso ela trancou a matrícula e foi para Cuba, cuja revolução liderada por Fidel Castro em 1959 havia derrubado o governo do ditador Fulgêncio Batista. Lá, durante um ano, fez treinamentos de guerrilha urbana e contraespionagem. “Ela foi antes, eu fui meses depois. Tinha medo que ela caísse, mas não podia dizer isso. Durante o curso nós aprendemos a lidar com explosivos, a fazer explosivos, aprendemos a manejar armas, a atirar, como usar disfarces, como nos mover na cidade, como falsificar documentos”. Ela não conheceu Fidel Castro, ele o conheceu em uma cerimônia do aniversário da revolução.

Em Cuba, após três anos o casamento acabou. Isis voltou para o Brasil e foi para o Rio de Janeiro, onde voltou a viver de forma clandestina. “Eu fiquei mais algum tempo em Cuba e só voltei alguns meses depois da anistia, em outubro de 1979. Soube do seu desaparecimento quando estava em Lima, no Peru. Foi um choque”, relembra Del Roio. No exterior, ele passou pelo Peru, Chile, Argélia, Itália e a então União Soviética. Em Moscou atendeu a um pedido inusitado de Luís Carlos Prestes, comunista histórico, secretário do PCB: cuidar do arquivo do partido, ameaçado pelas constantes buscas por parte dos militares. Em 1977 ele conseguiu transferir o arquivo para Milão e desde os anos 90 esses documentos se encontram sob a guarda do Centro de Documentação e Memória da UNESP (Universidade Estadual Paulista). “Ninguém quis ficar com esse arquivo. Foi uma operação complicadíssima, retirar do Brasil toneladas de livros e documentos subversivos durante a ditadura. Durante anos minha vida ficou ligada àqueles documentos”.

Del Roio lembra de Isis como “uma mulher corajosa que aderiu à luta contra a ditadura do regime militar por vontade própria” Na Itália, onde mora até hoje, ele possui dupla cidadania, Del Roio se filiou ao Partido da Refundação Comunista e foi eleito senador em 2006 pela região da Lombardia, depois se tornou membro da Assembleia Parlamentar do Conselho Europeu, em Estrasburgo e membro da União Europeia Ocidental, em Paris. A partir dos anos 2000 ele voltou muitas vezes para colaborar com a criação da Comissão Nacional da Verdade.

“Mulheres como Isis são heroínas do povo brasileiro”, opina Del Roio. “Nos anos 70 nós fomos para a luta contra a ditadura com a cara e a coragem. Fomos com nossas minissaias, com nosso batom. Era o que precisava ser feito”, lembra Amelinha Teles. Desde 2012 o Centro Universitário de Pesquisas e Estudos Sociais da USP leva o nome de Isis. Ano passado ela e outros 32 alunos da universidade receberam diplomas póstumos concedidos aos alunos que foram mortos durante a ditadura militar. Nos bairros do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, e em Macaxeira, no Recife, duas ruas também levam o seu nome. Em São Paulo, Isis Dias de Oliveira é o nome de uma praça que fica perto da casa onde ela viveu com sua família, na Lapa, inaugurada em 1999. Há uma pedra na praça onde está escrito: Quando eu não puder mais falar, vocês falarão por mim. De acordo com Amelinha, essa frase não é dela. Mas poderia ser.

Edição: Bruno Fonseca