Neste sábado, 27, aconteceu na quadra do Colégio Estadual de Tempo Integral, antigo Colégio Estadual Abdias Menezes, o 2º Fórum Quilombola Sudoeste de Emendas Participativas. O encontro reuniu lideranças e representantes de comunidades quilombolas, além de autoridades políticas.
Durante o fórum foram debatidos as principais necessidades das comunidades, afim de decidir a destinação de maquinários, veículos e outros investimentos viabilizados por emendas parlamentares dos deputados Waldenor Pereira e Zé Raimundo.
Para o deputado federal Waldenor Pereira, o Fórum é uma forma de reparação com o povo negro da região e uma forma de decidir democraticamente para onde serão destinadas as emendas parlamentares. “Em uma plenária, as comunidades debatem a necessidade de cada benefício e onde será usado”, explica o deputado.
Vitória da Conquista possuiu 33 comunidades quilombolas, sendo 32 rurais e 1 urbana. Dessa forma, se consolida como terceiro município da Bahia com maior número de comunidades quilombolas. O diretor do Instituto Quilombola, Josezito Ferreira, afirma que as emendas participativas trazem qualidade de vida, fortalecimento da agricultura familiar, esporte e cultura dos quilombos. “Essa é uma forma de reparação com o povo negro após mais de 300 anos de escravidão”, destaca Josezito.
Além dos quilombos conquistenses, o evento também reuniu comunidades de outros municípios, como o Quilombo Tapioconga de Tremedal. Sandra Moura, representante do Tapioconga, disse que as emendas participativas dão visibilidade aos quilombos. “As nossas comunidades antes eram esquecidas e agora estamos sendo lembrados”, explica Sandra.
O deputado estadual Zé Raimundo esclareceque o fórum de emendas participativas tem o objetivo de fortalecer as comunidades quilombolas e dar transparência a aplicação das emendas dos deputados. “Com esses debates, o cidadão entende que o deputado estadual e federal tem um valor que pode ser investido e que eles podem indicar onde esse investimento deve ser colado para trazer melhorias” explica Zé Raimundo.
A segunda-feira (29) marca mais um ano em que moradores do Quilombo Urbano Mineiro Pau, localizado em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, se reúnem, a partir das 17h, em torno de uma fogueira.
A tradição começou há mais de 150 anos com Manoel Caetano Madeira, homem negro, nascido escravizado em 1841, no município de Paraíba do Sul, na divisa com o estado de Minas Gerais, cujos padroeiros eram São Pedro e São Paulo.
No sincretismo religioso, o dia de São Pedro é tido como Orixá Xangô. Mas Manoel, como escravo, não podia manifestar crenças da população negra. Viveu até os 41 anos sob o regime da escravidão, mas nunca deixou de acender a fogueira no dia 29 de junho.
“Quando ele começa a dar uma visão maior a essa fogueira, ele a chama de fogueira de São Pedro e São Paulo. Só que, intrinsecamente, ele está acendendo uma fogueira para Xangô e fazendo os seus fundamentos”, disse à Agência Brasil o bisneto de Manoel, Fausto Manoel Madeira Neto, que hoje é quem mantém a tradição
A fogueira permitia fortalecer vínculos comunitários, transmitir conhecimentos ancestrais e proteger identidades coletivas. Ao seu redor circulavam histórias, ensinamentos, afetos e formas de resistência que ajudaram gerações a manter vivas suas referências culturais.
Por essa razão, a Fogueira de Xangô não representa apenas uma tradição familiar, mas constitui um patrimônio vivo, uma estratégia de preservação da memória, afirmação da ancestralidade e continuidade cultural que manteve viva a chama da resistência negra.
Manoel trabalhou em fazendas de café e teve 36 filhos com quatro mulheres. E todos moravam com ele. O último tio-avô vivo foi encontrado em Vassouras, cidade do centro-sul do estado.
Ressignificação
Quando Manoel morreu, aos 105 anos, em 1946, seu filho Fausto Manoel Madeira mudou-se para o bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde passou a dar continuidade à tradição, fazendo a fogueira, ano após ano. Fausto Manoel Madeira entrou na umbanda e reencontrou o pai de santo ao qual Manoel o dera como presente, em Vassouras. Esse ato é semelhante ao batismo e significa consagrar uma criança à proteção de um Orixá ou guia espiritual.
Essa fogueira ganha então uma ressignificação. Quando o filho de Manoel Caetano morre, em 1988, a fogueira continua sendo acesa no quintal da casa até que Fausto Madeira Neto entrou na umbanda e deu prosseguimento à tradição. “E passei a acender essa fogueira até hoje”.
Atualmente, a fogueira é promovida pelo Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo – Kabiúna do Sertão e a Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ), coordenados por Fausto Neto.
“Na verdade, essa fogueira é o fundamento do nosso terreiro”. Ele herdou do avô a entidade, o nome, a macumba. “Foi a maior e mais bela herança que ele me deixou: a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho dele.”
Festa
Desde o tempo do avô, sempre houve uma festa muito grande em torno da fogueira. Depois que ele morreu, os descendentes trouxeram a fogueira para o terreiro, quando Fausto Manoel Madeira Neto assumiu todo o processo de responsabilidade.
“É uma festa muito grande. As pessoas amam. O pessoal fica aguardando. É uma festa muito esperada, um acontecimento. As crianças no quilombo ficam loucas; já estão montando bandeirinhas e reverenciam Xangô e os santos São Pedro e São Paulo”.
Segundo Fausto Neto, trata-se de uma questão de pertencimento mesmo. “A gente vive em uma comunidade majoritariamente preta; nós somos um terreiro. E a gente faz um trabalho voltado justamente para o fortalecimento da cultura antirracista, da educação, do trabalho social”. A partir do terreiro, são feitas e distribuídas 140 refeições diariamente, de segunda-feira a sábado, como marca da solidariedade existente no quilombo.
Para as crianças, tem ações educativas e a Dança do Mineiro Pau, que elas curtem e que é o nome da comunidade onde moram. Essa é uma dança folclórica e afro-brasileira, onde os participantes dançam em pares ou círculos batendo bastões de madeira ao ritmo da música. “Eu dancei o Mineiro Pau há 40 anos e a gente trouxe de volta. As crianças fazem sucesso dançando o Mineiro Pau”.
A tradição do acendimento da fogueira deixa claro que, ao longo dos anos, a chama que um dia iluminou uma família passou a iluminar toda uma comunidade. Para Fausto Manoel Madeira Neto, o encontro do dia 29 de junho é a celebração da memória, da ancestralidade, da cultura popular e da capacidade que o povo negro teve de transformar resistência em legado.
Fausto Neto tem três filhos – Pedro, Aline e Júlia – e pretende continuar acendendo a fogueira do bisavô “por mais 500 anos”, passando a tradição para seus filhos. “E os que vierem depois. Eles precisam ter essa responsabilidade e entender o que é essa fogueira. É uma tradição familiar que precisa ser passada para a frente. Ela não pode morrer”.
Programação
O Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau começará às 17h do dia 29. A entrada é gratuita.
A programação conta com apresentações da Dança do Mineiro Pau, jongo, música popular, comidas típicas, atividades para crianças, celebração da ancestralidade e o tradicional acendimento da fogueira que há mais de um século reúne gerações em torno da mesma chama. (Alana Gandra)
Mulheres relatam perdas e cobram regularização fundiária
Agência BrasilA agricultora Sueli Bessa, de 39 anos – Foto: Lula Marques/Agência Brasil.
Na comunidade rural quilombola de Nova Esperança, na cidade de Baraúna (RN), a agricultora Sueli Bessa, de 39 anos, recorda que, na infância, o cheiro da goiaba tomava conta do lugar. No entanto, os períodos secos ficaram cada vez mais frequentes e a fruta não aparece como antes.
Sueli é uma das lideranças comunitárias que participa até este domingo (14) do encontro nacional das mulheres quilombolas, no Gama (DF), que colocou a justiça climática como um dos temas principais. O presidente Lula visitou o encontro na quinta (11) e ouviu a preocupação das mulheres.
No caso da comunidade potiguar, além da goiaba, outras frutas e hortaliças, que fazem parte da vida das 70 famílias que moram no local, também sofrem com os extremos climáticos. Ora com as secas, ora com temporais.
Com as dificuldades, parte da comunidade teve que desistir de praticar a agricultura familiar e precisou arrumar emprego nas indústrias na área urbana, que fica a mais de 20 quilômetros. A pista não ajuda.
A própria comunidade, que também não tem código de endereço postal (CEP), não é asfaltada. As tempestades deixam ruas e estradas intrafegáveis. “Quando chove forte lá, é horrível”, lembra.
Além disso, não há abastecimento regular de água e a comunidade depende de um poço artesiano que, com a secura costumeira, deixou o dia a dia mais complexo para viver e plantar.
Sueli Bessa, por exemplo, vende geleias e compotas na comunidade e em feiras na cidade. Ela sonha terminar o ensino médio, na escola que fica a 30 minutos de distância, para um dia fazer um curso superior. “Em enfermagem ou em direito, para ajudar um dia mais a minha comunidade”.
A filha dela, a estudante Suelene Ribeiro, de 21, tem o mesmo pensamento. Criada nesse espírito comunitário, ela diz que os coletivos de mulheres e de jovens estão atentos às dificuldades com o clima.
Pesquisa
Agrônoma Fran Paula lançou o Livro Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima Foto: Lula Marques/Agência Brasil.
Diante de dificuldades atravessadas em todos os biomas como a da comunidade potiguar, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou, durante o encontro nesta semana, o livro Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima, de 120 páginas.
A agrônoma Fran Paula, pesquisadora em saúde e meio ambiente, foi a principal responsável pelo estudo.
Ela diz que houve mais vítimas mulheres assassinadas nos espaços em que foi registrado um avanço de grandes empreendimentos e o desmantelamento de políticas ambientais.
O trabalho apresenta denúncias de impactos de grandes empreendimentos invadindo territórios quilombolas, que já enfrentam colapso climático, em todos os biomas brasileiros.
“Para além das denúncias, temos uma estratégia metodológica de como reunir contribuição de práticas para salvaguarda dos territórios e de conservação do meio ambiente, e também de resistência”.
A pesquisadora, que é integrante da Conaq, nascida na comunidade de Campina de Pedra (em Poconé-MT), diz que as ações de conservação realizadas pelas mulheres são protagonistas do levantamento.
“Não trazemos apenas denúncias do racismo ambiental, mas também apontamentos, soluções e as estratégias que as mulheres estão construindo para enfrentar a mudança climática”.
Segundo a pesquisadora, o livro traz estratégias de vigilância ambiental que os territórios já exercem. “A gente monitora há muito tempo essas mudanças a partir das mulheres que permanecem nos territórios todo o tempo e têm a percepção quando o problema está atingindo o seu ápice”.
Maiores vítimas
Fran Paula diz que as mulheres são as primeiras a sentir os efeitos e as últimas a saírem do território. Ela exemplifica que usinas de energia eólica (concebidas como alternativa de energia limpa) impactam o modo de vida e de produção das comunidades tradicionais.
Os avanços de grandes empreendimentos, explorações de petróleo e também de minérios, além das fazendas de monoculturas impactam os territórios. A pesquisadora indica que há um quadro generalizado de contaminação que tem afetado não só a saúde física das pessoas, mas também os modos de viver e a continuidade das identidades.
Por isso, ela defende a necessidade de celeridade nas regularizações de terras quilombolas. “Não existe justiça climática sem território garantido, sem titularização para esses territórios que precisam ser protegidos”.
Marmelo ameaçado
Entre esses territórios que estão prestes a serem protegidos, está o da comunidade Mesquita, que fica em Cidade Ocidental (GO).
Segundo a coordenadora executiva da Conaq, Sandra Braga, que é nascida e criada no local, há expectativa de que ainda neste ano o território seja finalmente demarcado. São 785 famílias na área rural, com cerca de três mil pessoas.
O primeiro registro de um grupo de moradores ocorreu no século 18. O reconhecimento como território quilombola ocorreu apenas em 2006, quando a Fundação Cultural Palmares concluiu os estudos antropológicos para delimitar a região.
Sandra Braga alerta que o fato de não haver titulação possibilita que fazendeiros da soja se apropriem de terras que são da comunidade.
Um dos símbolos de resistência do lugar é a plantação do marmelo, que resulta em diferentes produtos, como a marmelada e a geleia. “As famílias têm em casa o pé de marmelo para celebrar nossa tradição”.
Os produtores rurais do marmelo da comunidade lamentam as variações climáticas, com longas estiagens. Antes, o marmelo rendia mais do que hoje em dia. Até o fruto era maior. “Meu pai (João Antônio Pereira) foi um grande defensor da floresta nativa”, contextualiza.
Beiju
Como na comunidade Mesquita, as mudanças climáticas ameaçam produções que abalam a própria identidade dessas pessoas. Na comunidade quilombola Divino Espírito Santo (também conhecida pelo apelido Divino Beiju), em São Mateus (ES), o cultivo de mandioca para a produção do beiju artesanal diminuiu por causa do caos climático.
“Vendemos no mercado central da cidade. Somos conhecidos pelo beiju”, diz a agricultora Denise Penha, de 42 anos.
Com uma população de mais de 300 famílias, a comunidade ainda precisa preservar o plantio de mandioca dos impactos dos agrotóxicos usados por fazendeiros das proximidades. Para que o famoso beiju continue com o mesmo sabor de vida orgânico e de vida em comunidade.
Denise Penha da comunidade Divino Espírito Santo durante Terceiro Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas. Foto: Lula Marques/Agência Brasil. – Lula Marques/Agência Brasil.
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A cidade de Barra da Estiva será palco do 3º Encontro Regional de Comunidades Quilombolas, que acontecerá nos dias 8 e 9 de maio, na Comunidade Quilombola do Ginete. O evento traz como tema “Identidade, resistência e futuro”, reunindo moradores, lideranças e representantes institucionais para dois dias de atividades voltadas à valorização cultural e ao fortalecimento das comunidades tradicionais.
A programação tem início na sexta-feira (08), com uma oficina de gastronomia no período da manhã. À tarde, será realizada uma palestra sobre educação quilombola, abordando temas importantes para o desenvolvimento social e educacional dessas comunidades. O primeiro dia será encerrado com apresentações culturais e uma festa dançante.
No sábado (09), as atividades começam com recepção e café da manhã, seguidos pela apresentação da fanfarra FAN Lúcia. A programação continua com uma roda de conversa, momento destinado ao diálogo entre participantes, além de almoço coletivo e uma mesa institucional, que reunirá autoridades e representantes para discutir políticas públicas e ações voltadas às comunidades quilombolas.
As garotinhas que responderam o Reis de agradecimento entoado por Eguinaldo e Denis – Foto: Oclides/JFCEm destaque para o grande e experiente sanfoneiro de Reis, o popular “Maninho” – Foto: Oclides/JFC
Foi realizada neste sábado, dia 15 de novembro de 2025, a primeira festa da Comunidade Quilombola do Riacho Seco, com início às 16h e encerramento às 19h30. O evento marcou um momento especial: embora a comunidade esteja no seu segundo ano de reconhecimento como quilombola, esta foi a primeira celebração dedicada ao Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, feriado nacional.
A festa foi bastante prestigiada e contou com diversas apresentações culturais. Alunos e professores da Escola Municipal Jovino Coutinho se apresentaram com danças; houve também a tradicional dança da garrafa, com a participação da comunidade quilombola do Tamboril. O público pôde assistir ainda a recital de cordel, jogo de capoeira e exposições de artesanato, valorizando as expressões culturais locais.
Às 18h, aconteceu a apresentação da Companhia de Reis da própria comunidade, um dos momentos mais emocionantes da festa. Às 19h30, foi servido um café-lanche partilhado, preparado pela própria comunidade e oferecido a todos os visitantes como gesto de acolhida e união.
Parabenizamos a direção da entidade pela organização e pela cortesia demonstrada. Destacamos, em especial, a participação do Terno de Reis do Riacho Seco, que tem se dedicado à renovação de seus membros. A forte presença da juventude, respondendo aos reis e marcando a contra-dança, trouxe grande emoção e significado, simbolizando a passagem da bandeira para novos sucessores e garantindo a continuidade dessa importante tradição cultural.
Veja o vídeo com os reiseiros Egnaldo e Denis cantando e as garotinhas respondendo.