A miséria humana

Por Nando da Costa Lima

Tem coisa que a gente escreve há mais de duas décadas e fica torcendo para que as coisas melhorem, mas infelizmente a cada ano fica mais atual… É uma pena! Que pena que nada, a culpa é nossa mesmo que concordamos com tudo de cabeça baixa. A sorte é que ainda existem os religiosos e alguns órgãos filantrópicos realmente sérios, pois se nosso país só dependesse dos tecnocratas nós estaríamos fodidos e meio. Aqui em Conquista viveu uma senhora cujo único erro foi não ter deixado um livro intitulado “A ARTE DE SER GENTE”. O nome dela era Dalva Flores (Santa Dalva). Esta mulher foi um dos maiores exemplos de altruísmo que Conquista teve a sorte de abrigar. ”Salve a Senhora da bondade!”

Como todo desempregado, ele estava ocupadíssimo vendo em média 18 horas de televisão por dia, já havia decorado todos os comerciais, a risada, lembrava um animador de programa de calouros, o andar jogado e o modo de falar eram de um carioca daqueles criados a beira mar (só que ele nunca tinha chegado perto do mar). Acompanhava as novelas de todos os canais, conhecia todos os atores e repórteres pela voz, sem precisar olhar para a TV, sua fiel companheira! Mas naquele dia sua rotina foi quebrada bruscamente, ouviu alguém chamar nervosamente e se escondeu pensando que era um cobrador. Ao notar que a pessoa que chamou estava chorando apressou-se em abrir a porta e foi saber do que se tratava: era o vizinho pedindo uma carona pra levar a esposa ao hospital, ela havia cortado o pulso e o resto do corpo com uma gilete (pobre até na hora de se matar sofre mais, pois não tendo dinheiro pra possuir um revolver, tem que usar gilete ou faca), por ter estourado todos os cartões de crédito e ficado numa situação que não dava nem pra sair na rua. O interessante é que enquanto o povo morre de fome os nossos dirigentes reúnem-se para entrevistar ladrões como se estivessem fazendo alguma coisa para a nação, o que pra mim é um caso única e exclusivamente de polícia.

Colocaram a mulher no carro e partiram pro hospital imaginando que seriam atendidos o mais rápido possível, a mulher já estava desfalecida. Na portaria ocorreu o primeiro empecilho: teriam que fazer um depósito, só que se juntassem os bens dos dois não dava pra pagar nem a metade da quantia sugerida. Pediram pra falar com o diretor da casa, este explicou que o depósito era uma norma do hospital, que sem dinheiro ele não poderia fazer absolutamente nada. Foi aí que se lembraram do carro, ao sugerirem deixar o carro como depósito o diretor mudou até o tratamento, dando até uma simpática risada. Mas foi por pouco tempo. Depois que o secretário examinou o veículo e viu que de tão machucado teria que olhar o documento (3 anos atrasado) para saber qual era a marca, fechou novamente a cara e perguntou se eles estavam gozando com a cara dele. Quando sentiram que na portaria não resolveriam nada, tentaram convencer um médico que ia chegando, o Dr. quis logo saber se tinham condições de pagar. Sendo a resposta negativa, o Dr. perguntou se eles achavam que ele tinha conseguido o diploma de graça ou se acharam ele com cara de santo pra sair curando todo mundo sem ganhar nada. Eles responderam que sabiam as dificuldades que uma pessoa enfrenta pra conseguir se formar, mas o problema é que havia um ser humano morrendo. O Dr. sugeriu que eles deviam acabar de matar e deixar ele em paz, eles o lembraram que: “O bem flui pelos canais que ele próprio selecionou”. O médico subjugou o sábio pensamento dizendo que aquilo era conversa pra boi dormir Pediu licença (coisa rara) pois tinha que atender um caso urgentíssimo: o filho de um rico que havia se machucado caindo de um velocípede. E saiu com ar de preocupado.

É claro que nem todos pensam assim, existem os que exercem a profissão porque além da aptidão, gostam do que fazem não pelo que possam ganhar, agem como antigamente quando os médicos encaravam a profissão como uma arte, e além de atenderem qualquer um independente das condições financeiras, exerciam a nobre função de amigos do paciente (ato que tinha mais utilidade que o próprio medicamento). Mas isto fica nos antigamente. Na medicina atual as coisas funcionam mais ou menos como na política, a quantidade de médicos que têm boa vontade com a pobreza é proporcional a de políticos honestos. Ou seja, existem, mas temos que ter paciência para encontra-los. Voltando ao assunto exposto: A “sorte” do marido da suicida e do rapaz que deu a carona foi que ao voltarem pro carro, Deus havia feito sua parte amenizando o sofrimento da mulher. Foram direto pro necrotério. Neste caso nada mais lógico do que a famosa frase: “Ela partiu pra uma melhor” ou “foi para os braços de Cristo”, qualquer uma dessas frases que servem de paliativo pra os que ficam.

Isto em se tratando de atendimento particular ou dos que podem pagar um plano de saúde razoável. Quando se parte para o atendimento público oferecido pelo “governo” a coisa sai do tragicômico para o terror. Juntando a “boa vontade” da maioria dos nossos “doutores” com a política incompetente e inconsequente que rege a saúde pública, nossos hospitais transformaram-se em verdadeiros circos de horrores onde se exibe diariamente, com o máximo requinte, a miséria humana. Os palcos de nossos “teatros” estão cada vez mais dantescos com seus atores SUSpirando de dor. E o “grand finale” não tem culpas nem culpados, o flagelo é quem protagoniza o espetáculo da “vida”. Somos todos uns merdas passíveis a todo tipo de desmando. Reaja, grite, rode a baiana, bote a boca no trombone, não deixe que um ente querido morra a mingua jogado num corredor de hospital, a vida deve continuar. E caso a morte seja iminente, que venha com dignidade.

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Redação

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