Joaquim Alves da Costa: Entre o Poder Escravocrata na Casa Grande e a Fundação da Feirinha

A sede da Fazenda Casa Grande, com apenas uma das duas senzalas do lado direito, a outra já aparece demolida

Francisco Xavier da Costa, nascido por volta de 1817, foi o que se chamava, à época, de “senhor de escravos”. Entre os anos de 1860 e 1888, ele foi proprietário de uma extensa Fazenda denominada de Condeúba, cuja sede era a chamada Casa Grande, aos lados foram feito duas residências para os escravos, que era chamada de senzala, edificada com a mão de obra dos escravizados sob seu domínio. Essa propriedade localiza-se cerca de meio quilômetro acima do atual distrito de Feirinha, no município de Condeúba Bahia.

O herdeiro principal de Francisco foi seu neto, Joaquim Alves da Costa, nascido em 1847. Quando o avô faleceu, Joaquim já era adulto e assumiu a herança, passando também a ser considerado “senhor de engenho”, mantendo as práticas e a estrutura herdadas.

Joaquim viveu toda sua vida na Casa Grande, onde nasceu e faleceu. Em 13 de maio de 1888, foi sancionada a Lei Áurea, de número 3.353, pela Princesa Isabel, declarando extinta a escravidão no Brasil. Com a abolição, Joaquim tomou uma atitude que ficou na memória local: adquiriu uma nova área de terras próxima à Casa Grande, onde construiu pequenas casas de enchimento (taipa de mão), com o auxílio dos próprios ex-escravizados.

Essa nova localidade, denominada Fazenda Grama, situa-se a cerca de um quilômetro da Casa Grande e fazia divisa com a antiga propriedade. Foi ali que Joaquim realocou apenas as famílias de ex-escravos com quem mantinha maior vínculo e confiança. Os demais ex-escravizados seguiram para lugares mais distantes, como as fazendas Areal, Tamboril e Riacho Seco.

Como símbolo desse período de transição, os ex-escravos, ao deixarem a Casa Grande, entalharam no batente de uma das portas o ano 1888, registrando para sempre o marco da liberdade recém-conquistada.

Preocupado com a velhice e com a solidão, Joaquim Costa decidiu buscar uma nova esposa que pudesse cuidar dele nos momentos mais difíceis da vida. Em 1927, aos 80 anos de idade, casou-se com a jovem Palmira, que tinha apenas 14 anos. Joaquim já era viúvo e deixava para trás uma numerosa família: filhos, netos e até bisnetos. Seu histórico de relacionamentos sempre fora cercado de rumores, inclusive de possíveis envolvimentos com moças dos escravos, o que aumentava as tensões.

O casamento com Palmira causou grande alvoroço entre os herdeiros. A maior preocupação da família não era exatamente a diferença de idade entre os cônjuges, mas sim as possíveis consequências sobre a herança. Joaquim possuía vastas terras, mas também muitos descendentes, o que tornava o futuro da partilha um campo fértil para disputas.

A carneira em destaque, construída em 1929, já deteriorada pelo tempo, foi o local onde sepultou Joaquim Alves da Costa no Cemitério Municipal da Fazenda Grama

A história de Joaquim Costa e o cemitério da Fazenda Grama

Três anos após esse casamento, Joaquim Costa faleceu, em 1929, aos 83 anos. No entanto, antes de sua morte, ele cumpriu uma promessa que vinha alimentando havia anos: construiu um cemitério na Fazenda Grama, destinado aos ex-escravizados daquela região e seus descendentes, oferecendo-lhes, finalmente, um local digno para o descanso eterno.

O que ninguém esperava, no entanto, era que o primeiro a ser sepultado ali seria o próprio Joaquim Alves da Costa. A inauguração do cemitério, por volta de 1929, selou de forma simbólica seu último gesto — ao mesmo tempo um ato de reparação e um ponto final em uma vida marcada por poder, controvérsias e legado.

Foram tempos vividos no chamado Palacete dos Senhores de Engenho, pertencentes a uma linhagem que acumulava verdadeira fortuna em terras — vastas extensões que, no passado, foram intensamente trabalhadas por uma grande quantidade de escravos. A fazenda em questão media cerca de 5 km de largura e se estendia por uma longitude praticamente indefinida. Suas divisas começavam acima da Foz dos Rios, do Morro com o Rio Areal, em terras que hoje pertencem ao doutor José Augusto, e seguiam rio abaixo até os limites com a Fazenda Grama, vizinha do sítio atualmente de propriedade do senhor Odílio Ribeiro da Silveira.

A Mão de Obra dos Escravos

Toda a estrutura produtiva da Fazenda Condeúba foi construída com a força de trabalho escravizada. A presença dos escravos foi fundamental para a dinâmica econômica e social local no período em que o arraial de Santo Antônio da Barra ainda não era Condeúba. A composição mestiça do trabalho — entre cativos, forros e livres — moldou profundamente a politicultura regional entre 1860 e 1888.

A fazenda era cultivada em toda sua extensão, especialmente nas áreas mais baixas e nas margens do Rio do Morro. No tempo das chuvas, plantava-se arroz. Já no mês de junho, os mesmos brejos eram utilizados para o cultivo de milho e feijão-de-arranca. Parte desse brejo, era reservada à lavoura de cana-de-açúcar, destinada à fabricação de rapadura — produto essencial da economia local da época.

Nas margens acima dos brejos, a cerca de 100 metros, já no início das capoeiras, havia um pequeno córrego em ambos os lados, construído pelos escravizados. Aquelas margens, por vezes perigosas, tornaram-se um local propício para o cultivo de café. Entre as fileiras dos cafezais, plantava-se milho, feijão de arranca ou carioquinha, feijão catador, fava e guandu, também conhecido apenas como andu.

Cultivava-se também grande quantidade de melancia, além de maxixe, abóbora, moranga e toda a linha de hortaliças. Havia grandes áreas reservadas exclusivamente para o plantio de laranjas, limões, mangas, rosas e espadas. Também havia lavouras de algodão e extensas invernadas de capim colonião. No cerrado, cultivavam-se grandes roças de mandioca.

Aqui fazemos um parêntese:
“Nas épocas de colheita das mangas e das melancias, os senhores de escravos proibiam os cativos de comê-las ainda no campo, alegando que o leite de vaca que tomavam pela manhã, se combinado com o consumo de manga ou melancia durante o dia, provocaria morte por envenenamento.”

Portanto, essa “pérola” de que manga com leite faz mal ao ser humano foi criada pelos senhores de escravos como uma forma de evitar que seus cativos consumissem mangas com leite, causando-lhes prejuízo na produção de frutas como manga e melancia. As colheitas eram fartas, havia de tudo em abundância. Diante disso, Joaquim Costa criou uma feira livre para comercializar seus produtos, que funcionava aos sábados, em frente à sua residência oficial, a Casa Grande. Essa feira perdurou durante toda a sua vida.

Logo após o falecimento de Joaquim Costa, seu genro Manoel Batista de Oliveira, mais conhecido como Neco Batista, assumiu a liderança local. Ele já havia construído para si um grande casarão, onde morava, além de outras residências destinadas aos seus filhos, na localidade rio abaixo, situada  aproximadamente meio quilômetro da Casa Grande. Foi nesse local que se instalou uma nova feira livre, que passou a funcionar aos domingos. Esse fato ocorreu por volta de 1929, com o objetivo de esvaziar a feira da Casa Grande aos sábados — e assim, de fato, aconteceu.

O local passou a ser chamado de Feirinha, dali para frente, o comércio começou a crescer, inicialmente concentrado entre os membros da família do Sr. Neco Batista. Com isso, as moradias foram se multiplicando. Com o passar do tempo, a localidade se transformou em vila, depois em povoado, em 9 de junho de 2016 foi elevado a distrito de Feirinha pelo então prefeito Guto, nesta ano de 2025, a Feirinha estará completando 96 anos de fundação.

A então viúva de Joaquim Costa, Sra. Palmeira, não resistiu às grandes pressões dos herdeiros e acabou abrindo mão da sua parte na herança. Retornou, de muda, para a casa de seus pais, o Sr. Melvino Benigno da Silveira e Dona Deraldina Maria da Silveira, na Fazenda Olho d’Água.

Logo em seguida, Palmeira conheceu um novo companheiro, um jovem da época chamado José Antônio Ribeiro, com quem se casou no ano de 1930. Desse matrimônio nasceram quatro filhos: Olinto, Odílio, Oclides e Aulita, esta última mais conhecida como Ita.

NOTA:- Todas essas informações aqui relatadas neste artigo, foram passadas pela senhora Palmira (minha mãe) de saudosa memória, ela que foi esposa do Sr. Joaquim Alves da Costa.

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