Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

A Quaresma nos convida à conversão, um retorno ao essencial. Em 2025, a Campanha da Fraternidade, com o tema Ecologia Integral, desafia-nos a ampliar essa conversão para nossa relação com a criação. As leituras do quarto domingo da Quaresma (30/03/2025) oferecem um mapa espiritual para essa jornada, unindo fé e cuidado com a Casa Comum.
Primeira Leitura (Josué 5,9a.10-12): Ao entrar na Terra Prometida, os israelitas celebram a Páscoa e substituem o maná pelos frutos da terra. O fim do maná simboliza a transição de uma dependência passiva para uma gestão ativa dos recursos. Deus confia a eles a terra, mas exige responsabilidade. Hoje, a Ecologia Integral nos chama a reconhecer que a Terra é um empréstimo sagrado. Como afirma o Papa Francisco em Laudato Si’ (LS 67), “cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de protegê-la”. A colheita sustentável de Canaã é um modelo para nosso uso consciente dos bens naturais.
Salmo 33(34): “Provai e vede quão suave é o Senhor!” [Sl 33(34),9]. O salmo celebra a bondade de Deus, experimentada na criação. Se “o Senhor ouve o clamor dos pobres” [Sl 33(34),7], também escuta o grito da Terra, explorada por um sistema que privilegia o lucro sobre a vida. A Ecologia Integral nos convida a “saborear” a natureza não como consumidores, mas como contemplativos, reconhecendo nela um sacramento da presença divina. A gratidão deve traduzir-se em ações que preservem a biodiversidade e garantam justiça socioambiental.
Segunda Leitura (2 Coríntios 5,17-21): “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17). Paulo fala de uma reconciliação que transcende o humano: Cristo veio “reconciliar consigo mesmo tudo o que existe” (Cl 1,20). A “nova criação” inclui a restauração dos ecossistemas. Como embaixadores de Cristo, somos chamados a sanar rupturas: entre humanos e Deus, entre povos e entre a humanidade e a Terra. A Ecologia Integral, como propõe a Laudato Si’ (LS 91), lembra que “tudo está interligado”, exigindo uma conversão que una justiça social e ambiental.
Evangelho (Lucas 15,1-3.11-32): A parábola do filho pródigo ilustra o drama humano: o jovem esbanja recursos e só reconhece seu erro na escassez. Sua volta à casa paterna é metáfora da conversão ecológica: é preciso frear a exploração desmedida e retornar ao equilíbrio. O pai, que corre ao encontro do filho, reflete a misericórdia divina, ansiosa por restaurar relações. Já o irmão mais velho, que critica a festa, simboliza a resistência à mudança, como aqueles que negam a crise climática. A Quaresma nos convida à festa da reconciliação, incluindo a Terra na celebração.
Neste tempo de penitência, as leituras nos desafiam a jejuar do consumismo, orar pela criação e agir como embaixadores da reconciliação. A Ecologia Integral não é opção, mas imperativo evangélico. Como o filho pródigo, precisamos dizer: “Pai, pequei contra o céu, contra ti e contra a Terra”. E ouvir, no perdão, um chamado à renovação. Que o quarto domingo da Quaresma nos encontre, como diz o salmo, “procurando a paz e seguindo seu caminho” [Sl 33(34),15], rumo a uma ecologia de comunhão, onde tudo seja cuidado como dom divino.


