Coluna Prestes: Condeúba se prepara para homenagear, 100 anos depois, a passagem do movimento que marcou a história do Brasil

COLUNA PRESTES

Reunião da comissão organizadora com membros da Prefeitura e representantes do artesanato

Comissão organizadora liderada pela professora Joandina, se reuniu nesta sexta-feira, 21 de agosto, para definir os preparativos da programação que acontecerá nos dias 11 e 12 de setembro; presença de Luiz Carlos Prestes Filho e de historiadores está confirmada. Estiveram presentes na reunião alguns membros do artesanato, representantes das Secretarias de Agricultura, Administração, Educação, Cultura, Gabinete do Prefeito e da Imprensa local.
A história da Coluna Prestes volta a ganhar destaque em Condeúba. Foi realizada, na parte administrativa da Prefeitura Municipal, uma reunião presencial da comissão organizadora responsável pela preparação de uma programação especial em homenagem aos 100 anos da passagem da Coluna Prestes por Condeúba e pela região, evento que terá total apoio da Prefeitura de Condeúba.
As atividades estão previstas para os dias 11 e 12 de setembro de 2026 e deverão reunir pesquisadores, historiadores, representantes da comunidade e pessoas interessadas em conhecer ou aprofundar seus conhecimentos sobre um dos episódios mais marcantes da história política e militar brasileira da primeira metade do século XX.
Entre os convidados está Luiz Carlos Prestes Filho, filho de Luís Carlos Prestes, principal comandante e uma das figuras centrais da Coluna Prestes. Também estarão presentes os historiadores Joandina Maria de Carvalho, Levon Nascimento e Elton Soares de Oliveira, que vêm desenvolvendo pesquisas e trabalhos de preservação da memória da passagem da Coluna pela região.

Um século depois, a história continua viva
A passagem da Coluna Prestes por Condeúba ocorreu em abril de 1926, durante a longa marcha realizada pelo interior do Brasil. Registros históricos apontam que a Coluna chegou ao município em 15 de abril de 1926, depois de uma marcha de aproximadamente cinco léguas. Para alcançar a cidade, os integrantes atravessaram o rio Gavião, segundo o relato do cronista da Coluna, Lourenço Moreira Lima.
A presença do movimento deixou marcas importantes na memória histórica de Condeúba. Uma das mais conhecidas é a inscrição atribuída a Antônio de Siqueira Campos, deixada nas paredes do antigo Paço Municipal, atualmente preservada como importante vestígio material daquela passagem. A frase reproduzida é atribuída ao filósofo francês Hippolyte Tainy e foi traduzida por Rui Barbosa:

“No meio de uma aglomeração desorganizada, um bando decidido a tudo penetra como cunha de ferro em montão de ferragem.”

Outro registro histórico informa que o antigo Paço Municipal de Condeúba serviu como ponto de permanência da Coluna durante sua passagem pela cidade. Segundo a documentação reunida em pesquisas locais, os integrantes permaneceram no município por cerca de três dias.
A própria existência desses vestígios faz de Condeúba um lugar particularmente importante para o estudo da passagem da Coluna Prestes pelo sertão baiano.

Quem foi Luís Carlos Prestes?
Luís Carlos Prestes nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 3 de janeiro de 1898, e morreu no Rio de Janeiro em 7 de março de 1990. Militar e engenheiro, estudou no Colégio Militar e formou-se em Engenharia Militar pela Escola Militar do Realengo. Ao longo de sua trajetória, tornou-se uma das personalidades políticas mais importantes e controversas da história brasileira.
É importante corrigir um detalhe histórico: Prestes pertence ao século XX, e não ao século XIX. Ele nasceu em 1898, mas sua atuação política, militar e revolucionária ocorreu principalmente no século XX.
Sua projeção nacional, entretanto, começou a ganhar dimensão extraordinária justamente durante a marcha da Coluna Prestes. A atuação de Prestes à frente do movimento lhe rendeu o célebre apelido de “Cavaleiro da Esperança”, denominação que atravessaria décadas e seria incorporada à memória política e cultural brasileira.

O que foi a Coluna Prestes?
A Coluna Miguel Costa-Prestes, conhecida popularmente como Coluna Prestes, surgiu da união de diferentes grupos ligados ao movimento tenentista e às revoltas militares da década de 1920.
O encontro entre as forças paulistas e gaúchas ocorreu em abril de 1925, no Paraná. A partir dali, os revoltosos iniciaram uma extraordinária marcha pelo interior brasileiro, que se prolongaria por quase dois anos.
A Coluna foi comandada por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, contando ainda com importantes nomes militares, entre eles Antônio de Siqueira Campos, João Alberto Lins de Barros, Osvaldo Cordeiro de Farias e Djalma Dutra.
Estima-se que o movimento tenha reunido aproximadamente 1.500 homens em seu período de maior organização. A marcha percorreu cerca de 25 mil quilômetros, atravessando numerosos estados brasileiros. Algumas fontes e estudos apresentam números diferentes conforme o método utilizado para calcular os deslocamentos dos diversos destacamentos, mas os aproximadamente 25 mil quilômetros são a medida mais recorrente na historiografia.
A dimensão dessa caminhada é impressionante: durante aproximadamente dois anos, os integrantes da Coluna atravessaram rios, sertões, áreas de caatinga e regiões de difícil acesso, enfrentando tropas governistas, forças policiais e grupos armados organizados por lideranças locais.

A passagem pela Bahia
A entrada da Coluna Prestes na Bahia aconteceu no início de 1926, depois da travessia do rio São Francisco. A partir daí, os integrantes enfrentaram as condições extremamente difíceis do sertão baiano.
Estudos sobre o movimento registram uma marcha de centenas de quilômetros pela caatinga, passando ou se aproximando de localidades como Lençóis, Rio de Contas, Condeúba, Jacaraci, Serra Nova, Ituaçu, Remanso, Sento Sé, Mundo Novo, Mairi, Tucano, Pombal e Rodelas, entre outras.
O percurso pela Bahia também ficou marcado pela estratégia de movimento adotada pelos integrantes da Coluna. Em vez de procurar confrontos prolongados com forças numericamente superiores, os combatentes utilizavam deslocamentos rápidos, mudanças de direção e ações de surpresa para escapar dos cercos.
A própria FGV destaca que a estratégia da Coluna dependia fortemente da guerra de movimento, justamente porque seus integrantes enfrentavam forças governamentais superiores em número e recursos.

Condeúba no caminho da Coluna
É nesse contexto nacional que ganha importância a passagem pelo município de Condeúba.
A pesquisa histórica local tem procurado recuperar não apenas os acontecimentos militares, mas também a maneira como a população recebeu a chegada dos chamados “revoltosos”. O livro “Coluna Prestes em Condeúba”, de autoria da historiadora condeubense Joandina Maria de Carvalho, é resultado de pesquisas em jornais da época, livros, imagens e depoimentos orais, buscando reconstruir a passagem do movimento e sua permanência na memória social do município.
A documentação reunida por pesquisadores mostra que o episódio não pode ser compreendido apenas pelos relatos oficiais. A memória transmitida pelas famílias, as histórias contadas pelas gerações anteriores e os vestígios físicos existentes na cidade também constituem importantes fontes para compreender o que aconteceu naquele abril de 1926.
É justamente por isso que a programação do centenário ganha significado especial: não se trata apenas de lembrar um acontecimento ocorrido há um século, mas de preservar documentos, relatos, lugares e memórias que ajudam a explicar a própria formação histórica de Condeúba e da região.

Os ideais defendidos pelos integrantes da Coluna
Em fevereiro de 1926, durante a marcha, Prestes e Miguel Costa redigiram uma declaração de princípios denominada “Motivos e ideais da revolução”.
O documento apresentava críticas ao sistema político da época e defendia, entre outras propostas, o combate às fraudes eleitorais, o voto secreto e obrigatório, a liberdade de pensamento, a ampliação da educação pública, maior autonomia municipal e reformas na administração pública.
O movimento estava inserido no contexto da chamada República Velha, período marcado pela forte influência das oligarquias estaduais e por mecanismos políticos que limitavam a participação popular.
A Coluna, portanto, não foi apenas uma longa marcha militar. Ela também funcionou como instrumento de divulgação de ideias políticas pelo interior do país.

Uma marcha de aproximadamente 25 mil quilômetros
A dimensão territorial da Coluna Prestes ajuda a explicar por que o episódio permanece como um dos grandes acontecimentos da história republicana brasileira.
A marcha percorreu aproximadamente 25 mil quilômetros, passando por numerosos estados e atravessando regiões completamente diferentes entre si.
A Coluna conseguiu permanecer em movimento por longo período sem ser derrotada militarmente pelas forças governamentais que a perseguiam. Entretanto, as dificuldades, o desgaste físico, a falta de recursos e a redução do contingente acabaram tornando inviável a continuidade da marcha dentro do território brasileiro.
Em fevereiro de 1927, a maior parte dos integrantes entrou na Bolívia, encerrando a fase principal da marcha. Outros grupos seguiram posteriormente por diferentes caminhos.
A memória da Coluna permanece em Condeúba
Passados 100 anos, Condeúba conserva elementos concretos relacionados à passagem do movimento. A inscrição existente no antigo Paço Municipal é um dos principais símbolos dessa memória.
Em 2017, inclusive, foi criada por lei municipal a denominação “Salão Coluna Prestes” para a parte superior do antigo prédio da Intendência, reforçando institucionalmente a relação do município com esse episódio histórico.
A realização das atividades dos dias 11 e 12 de setembro representa, portanto, mais um capítulo desse processo de preservação.
A presença de Luiz Carlos Prestes Filho, descendente direto do principal comandante da Coluna, ao lado dos historiadores Joandina Maria de Carvalho, Leon Nascimento e Elton Soares de Oliveira, deverá proporcionar ao público uma oportunidade singular de ouvir diferentes perspectivas sobre um acontecimento que atravessou gerações.
Em 2026, quando o Brasil e, particularmente, o sertão nordestino e os Gerais mineiros relembram o centenário da passagem da Coluna, Condeúba se coloca novamente no caminho dessa história.
Um século depois, os passos dos chamados “revoltosos” continuam presentes nas paredes, nos documentos, nos livros e, sobretudo, na memória de um povo que testemunhou a passagem de uma das maiores marchas político-militares da história brasileira.

Fotos: Oclides/JFC

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