Palmira Maria da Silveira: “Dona Palmira”, uma mulher à frente do seu tempo
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Palmira Maria da Silveira, chamada carinhosamente por “dona Palmira”
Palmira Maria da Silveira nasceu em Condeúba no dia 10 de setembro de 1913. Se estivesse viva, estaria completando hoje 113 anos. Dona Palmira, como era carinhosamente conhecida, faleceu em 11 de novembro de 1985 e deixou uma trajetória que ultrapassa os limites de uma história familiar e se confunde com parte importante da própria história social de Condeúba.
Ainda muito jovem, aos 14 anos de idade, contraiu seu primeiro casamento com o senhor Joaquim Alves da Costa, homem já idoso e conhecido como ex-senhor de engenho. A partir desse casamento, Dona Palmira passou a assumir grandes responsabilidades na condução da Fazenda Condeúba, propriedade de seu esposo, participando ativamente da organização dos trabalhos e da vida cotidiana daquela extensa propriedade rural.
Mas foi muito além da administração da fazenda que Palmira Maria da Silveira construiu sua marca. Ela se tornou uma verdadeira liderança social, especialmente pela maneira humana, generosa e responsável com que tratava os ex-escravos da Fazenda Condeúba e seus descendentes que viviam e trabalhavam naquela região.
Para aqueles que tinham condições de trabalhar, Dona Palmira oferecia serviço remunerado, garantindo-lhes uma oportunidade digna de sobrevivência. Para aqueles que, por idade, limitações ou outras circunstâncias, já não tinham condições de trabalhar, ela mantinha um compromisso que hoje impressiona pela dimensão humana: garantia-lhes alimentação gratuita.
Esse gesto não era apenas uma demonstração de generosidade. Representava uma postura permanente de solidariedade e responsabilidade social, numa época em que as condições de vida eram extremamente difíceis e em que poucas pessoas assumiam para si a responsabilidade de cuidar daqueles que mais necessitavam.
Dona Palmira foi, portanto, uma mulher de liderança, força e profundo compromisso com as pessoas. Sua história atravessou gerações e permaneceu viva na memória daqueles que conviveram com ela — sobretudo de seus 4 filhos, familiares e de tantas pessoas que conheceram de perto sua maneira firme, trabalhadora e, ao mesmo tempo, acolhedora de conduzir a vida. Dona Palmira após ficar viúva, contraiu seu segundo matrimônio com José Antônio Ribeiro, com quem teve 4 filhos: Olinto, Odílio, Oclides e Aulita (Ita).
A seguir, depoimentos de seus 4 filhos e de outras pessoas que conviveram com Dona Palmira ajudam a revelar, por diferentes olhares, a grandeza dessa mulher e o legado que ela deixou para Condeúba.

Dona Palmira: uma mulher que transformou acolhimento em legado e fez da Fazenda Condeúba um lugar de amparo aos descendentes de ex-escravizados
Há histórias que pertencem às famílias, mas que, pelo significado de seus personagens e pelos efeitos de suas atitudes sobre uma comunidade inteira, acabam pertencendo também à própria história de um povo. A trajetória de Dona Palmira é uma dessas histórias.
Seu filho mais velho, Olinto, é uma das testemunhas mais importantes dessa trajetória. Primeiro filho do casal José e Palmira, ele afirma ter tido o privilégio de conviver com a mãe por mais tempo que os demais irmãos e, por isso, guarda na memória não apenas a figura materna, mas os valores, as decisões e as atitudes de uma mulher que deixou marcas profundas por onde passou.
Segundo seu depoimento, Dona Palmira era uma pessoa criteriosa, firme e extremamente dedicada. Honestidade, lealdade e compromisso eram, para ela, princípios inegociáveis. Não admitia atitudes erradas de ninguém e, muito menos, dos próprios filhos. Essa postura, segundo Olinto, ajudou a construir um legado de enorme riqueza moral e humana.
Mas é justamente quando sua história se encontra com a história social da região que a figura de Dona Palmira ganha uma dimensão ainda maior.
Muito jovem, aos 14 anos, Dona Palmira teria se casado pela primeira vez com Joaquim Alves da Costa, personagem apresentado no depoimento como um dos grandes proprietários escravistas da época anterior à promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.
Décadas mais tarde, em 1927, a chegada de Dona Palmira à Casa Grande, sede da Fazenda Condeúba, representaria um novo capítulo dessa história. Ali, conforme o testemunho de pessoas da época, ela assumiu o comando da fazenda e passou a desempenhar também uma importante função de acolhimento social junto aos ex-escravizados e, principalmente, aos seus numerosos descendentes que eram ligados à Fazenda Condeúba.
É nesse ponto que o depoimento de Olinto revela uma dimensão histórica particularmente significativa.
A Lei Áurea havia abolido oficialmente a escravidão no Brasil, mas a liberdade jurídica não significou, automaticamente, dignidade, trabalho, alimentação, moradia ou oportunidades para os negros libertos e suas famílias. A abolição não veio acompanhada de uma política ampla de inclusão social. Muitos ex-escravizados foram deixados à própria sorte, enfrentando pobreza, abandono e enormes dificuldades para reconstruir suas vidas.
É dentro desse contexto que, segundo o relato familiar, Dona Palmira teria exercido um papel de amparo junto às famílias negras que foram vinculadas à Fazenda Condeúba.
Ela acolhia. Para os mais jovens, oferecia oportunidades de trabalho remunerado. Para os idosos, garantia alimentação. Mais do que uma relação de trabalho, o depoimento descreve uma atitude de assistência e solidariedade que fez com que Dona Palmira conquistasse o respeito e o carinho daqueles que encontravam nela uma referência de proteção.
Assim, sua história pode ser compreendida como parte de um capítulo ainda pouco conhecido da história social da região: o período posterior à escravidão, quando os descendentes daqueles que haviam vivido sob o regime escravista precisavam encontrar meios para sobreviver e reconstruir suas famílias.
Nesse cenário, a Fazenda Condeúba, sob a liderança de Dona Palmira a partir de 1927, teria se tornado, para muitas dessas pessoas, um espaço de oportunidade e acolhimento.
O testemunho de Olinto é, portanto, mais do que uma lembrança de filho para mãe. É um documento de memória familiar que ajuda a iluminar uma parte da história daqueles que vieram depois da escravidão. Ao recordar a mãe, ele não fala apenas de suas qualidades pessoais, mas de uma mulher que, segundo sua memória e seu relato, estendeu a mão justamente a uma população que carregava as feridas sociais deixadas por séculos de escravidão.
Dona Palmira passou a ser conhecida e respeitada entre os negros que tinham vínculo com a Fazenda Condeúba. Sua presença, conforme o depoimento, ultrapassava os limites da administração da propriedade. Ela se tornou uma referência para aqueles que precisavam de trabalho, alimento, proteção e, sobretudo, de alguém disposto a olhar para suas necessidades.
Por isso, a história de Dona Palmira merece ser preservada e contada.
Não apenas como a história de uma mãe lembrada com amor por seu filho mais velho, mas como a trajetória de uma mulher cuja atuação, segundo esse testemunho, se entrelaçou com a vida de inúmeras famílias negras no período posterior à abolição.
Olinto e seus irmãos herdaram da mãe muito mais do que lembranças. Herdaram valores. E, ao contar sua história, ajuda a impedir que também se perca a memória daqueles que foram acolhidos por ela.
Dona Palmira permanece, assim, na memória de sua família e daqueles que conheceram sua atuação como uma mulher de firmeza, honestidade e solidariedade — uma mulher que, diante das dificuldades enfrentadas pelos descendentes de ex-escravizados, escolheu o caminho do amparo.
Sua história é, acima de tudo, uma história de memória, humanidade e legado.

Dona Palmira: o legado de uma mulher privilegiada pelo saber
Odílio Ribeiro da Silveira, foi o segundo filho do casal Palmira e José, ele guarda na memória não apenas as lembranças de sua mãe, mas, sobretudo, a dimensão de uma mulher cuja inteligência, experiência e capacidade de compreender a vida fizeram dela uma verdadeira referência para toda a família.
Ao falar sobre Dona Palmira, ele começa justamente por uma das maiores limitações impostas às mulheres de sua geração: o acesso à educação formal.
“A mamãe foi uma pessoa que não teve oportunidade de ingressar numa escola, mesmo porque, na sua época de jovem, não havia aqui neste sertão o uso e o costume das meninas frequentarem escolas.”
Mas a ausência dos bancos escolares jamais significou ausência de conhecimento. Pelo contrário. Dona Palmira construiu sua formação na própria escola da vida. Aprendeu observando, convivendo com as pessoas, enfrentando as dificuldades de seu tempo e desenvolvendo uma capacidade rara de compreender as circunstâncias e encontrar caminhos para superá-las.
Conhecida por todos simplesmente como Dona Palmira, ela se tornou, dentro de sua família, um verdadeiro ponto de apoio e uma referência permanente. Era dela que partia grande parte do planejamento da casa e das decisões familiares. Tinha, segundo o filho, uma percepção extraordinária sobre aquilo que era possível realizar e aquilo que não passava de uma expectativa distante da realidade.
Dona Palmira possuía uma inteligência que não estava registrada em diplomas, mas que se revelava na prática, nas palavras, nas atitudes e na maneira como interpretava o mundo ao seu redor.
Sua experiência de vida e seu relacionamento com as pessoas lhe deram uma compreensão muito particular da realidade. Era observadora, crítica e, sobretudo, propositiva. Quando percebia que alguma coisa não estava funcionando corretamente, não se limitava a apontar o problema. Tinha a preocupação de apresentar também uma solução.
Essa característica se manifestava, inclusive, quando analisava questões relacionadas à administração pública. Dona Palmira tinha o hábito de criticar aquilo que, em sua visão, não estava caminhando bem nas administrações das cidades por onde passou. Mas suas críticas não eram vazias. Depois de identificar o problema, procurava mostrar qual seria, em seu entendimento, o caminho mais correto para solucioná-lo.
Era uma mulher que sabia enxergar além das aparências.
Nascida e criada em Condeúba, na Bahia, Dona Palmira posteriormente acompanhou a família em mudanças que a levaram para Santa Fé do Sul, no estado de São Paulo, e, mais tarde, para a capital paulista. Foram experiências diferentes, em lugares diferentes, que contribuíram ainda mais para ampliar sua visão de mundo e sua bagagem de vida.
E essa influência jamais se perdeu.
Quando Odílio assumiu a Prefeitura de Condeúba e exerceu dois mandatos de prefeito consecutivos, entre 2005 e 2012, os ensinamentos de sua mãe continuaram presentes. Diante dos desafios administrativos, das dificuldades e das decisões que precisavam ser tomadas, ele recorria muitas vezes àquilo que havia aprendido ao longo da convivência com Dona Palmira.
A mulher que não teve a oportunidade de frequentar uma escola acabou se tornando, para o filho que chegou a administrar o próprio município, uma de suas grandes referências de conhecimento.
É justamente aí que reside a grandeza de sua história.
Dona Palmira representa tantas mulheres sertanejas de sua geração que, privadas da educação formal, encontraram na própria existência os caminhos para construir uma sabedoria profunda. Mulheres que aprenderam com a família, com o trabalho, com a observação, com as dificuldades e, principalmente, com a vida.
Por isso, ao recordar sua mãe, Odílio não fala apenas de uma mulher que foi importante para sua família. Fala de uma mulher que deixou ensinamentos capazes de atravessar gerações.
E conclui com uma frase que talvez seja a melhor síntese de todo esse legado:
“Sinto até hoje a minha mãe como uma mulher que foi privilegiada pelo saber.”
Um saber que não veio dos livros, mas que nasceu da experiência. Um saber que não precisou de diplomas para se fazer respeitar. Um saber construído no sertão, na família, na convivência com o povo e na capacidade extraordinária de compreender a realidade.
Dona Palmira não frequentou uma escola, mas foi, para os seus filhos, uma verdadeira escola de vida.

Dona Palmira: uma jovem diante da história e do destino de uma grande fazenda.
Falar de Dona Palmira é fácil demais. A mamãe foi uma pessoa privilegiada no saber, dotada de uma larga experiência de vida adquirida desde muito cedo. Sua trajetória, entretanto, não pode ser compreendida apenas como a história de uma mulher dedicada à família. Sua vida esteve entrelaçada a um dos períodos mais marcantes da história social e rural de Condeúba, quando antigas estruturas ainda permaneciam vivas e a sociedade começava a atravessar profundas transformações.
Dona Palmira iniciou muito cedo sua vida de dona de casa. Aos 14 anos de idade, ainda uma menina, contraiu seu primeiro casamento com Joaquim Alves da Costa, então um senhor de aproximadamente 80 anos, antigo senhor de engenho e integrante de uma das famílias de maior influência econômica e social da região.
A união, segundo o depoimento familiar, não teria sido propriamente fruto de uma história de amor, mas resultado de um casamento arranjado, marcado pelas circunstâncias e pelas necessidades daquele tempo. Havia, naquele momento, uma razão de ordem familiar e social que ajudava a explicar a presença de Dona Palmira naquela casa: a casa-grande, sede da Fazenda Condeúba, encontrava-se sem uma referência feminina depois da morte da primeira esposa de Joaquim Alves da Costa.
Foi então que uma adolescente de apenas 14 anos, pertencente à tradicional família Silveira, passou a ocupar um espaço de enorme responsabilidade dentro daquela estrutura familiar e rural. Dona Palmira, ainda tão jovem, assumia o papel de esposa de um homem que, pela posição econômica e influência que exercia, poderia ser considerado, à luz daquele contexto histórico, uma espécie de “lorde” da sociedade rural condeubense.
Joaquim Alves da Costa era herdeiro de uma grande fortuna e carregava consigo um peso histórico ainda maior: era filho do capitão Francisco Xavier da Costa, personagem associado à fundação do município de Condeúba. Assim, ao ingressar naquela família, Dona Palmira não estava simplesmente entrando em um novo lar. Ela estava adentrando um dos núcleos familiares que ajudaram a construir parte da própria história econômica, política e social do município.
E essa entrada, naturalmente, não teria sido recebida por unanimidade.
Dona Palmira, uma jovem de origem tradicional, passou a ocupar um lugar que certamente despertava olhares, expectativas, resistências e até desconfianças dentro da família de Joaquim. Mas foi justamente nesse ambiente, cercado por diferenças, responsabilidades e por uma realidade social ainda marcada pelas heranças do período escravocrata, que ela começou a revelar uma característica que acompanharia toda a sua vida: a capacidade de compreender as pessoas e exercer liderança mesmo diante das circunstâncias mais difíceis.
Uma jovem diante de uma sociedade em transformação
Um dos episódios mais importantes dessa primeira fase da vida de Dona Palmira está relacionado aos trabalhadores que permaneciam na Fazenda Condeúba.
Mesmo após o fim da escravidão, antigos escravizados continuavam ligados à terra e à atividade agrícola, agora trabalhando como meeiros, dentro de uma nova relação de trabalho que ainda carregava muitas marcas das estruturas sociais do passado.
Foi nesse cenário delicado que Dona Palmira desempenhou um papel que merece ser registrado pela história.
Ainda muito jovem, ela assumiu a administração da enorme Fazenda Condeúba por aproximadamente cinco anos, exercendo uma função que exigia não apenas capacidade de organização, mas sobretudo habilidade para lidar com pessoas, conflitos, interesses e com uma realidade social extremamente complexa. Seu papel foi fundamental na pacificação e na manutenção das relações com os antigos escravizados que continuavam trabalhando nas terras da fazenda. Em uma época em que as relações entre proprietários e trabalhadores rurais eram marcadas por profundas desigualdades, Dona Palmira conseguiu construir uma posição de respeito e autoridade.
A menina que havia chegado à casa-grande aos 14 anos começava, assim, a se transformar em uma mulher de referência.
A sua história revela uma contradição própria daquele período Uma adolescente lançada precocemente às responsabilidades da vida adulta, mas que, ao mesmo tempo, encontrou naquele ambiente a oportunidade de demonstrar uma inteligência prática, uma capacidade de liderança e um senso de responsabilidade muito acima do que sua pouca idade poderia sugerir.
Durante cerca de cinco anos à frente da administração da Fazenda Condeúba, Dona Palmira não foi apenas uma presença feminina dentro da casa-grande. Ela participou diretamente de um capítulo da história social e econômica de Condeúba.
Sua atuação ocorreu em um momento em que o município ainda carregava as marcas de seu passado rural e escravocrata, e em que as relações de trabalho começavam a assumir novas formas. Por isso, sua trajetória precisa ser compreendida não somente no âmbito familiar, mas também como parte da memória histórica de uma sociedade que estava mudando.
Dona Palmira, portanto, não foi apenas uma mulher de seu tempo. Foi uma mulher que, ainda muito jovem, foi colocada diante das circunstâncias de seu tempo e soube enfrentá-las com coragem, inteligência e capacidade de liderança.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas de sua história: quando a vida lhe impôs responsabilidades que pareciam grandes demais para uma menina de 14 anos, Dona Palmira respondeu com a grandeza de uma mulher que já começava a escrever seu próprio capítulo na história de Condeúba.

“Minha mãe foi uma mãe maravilhosa”: o retrato de Palmira Maria da Silveira pelas palavras de sua filha Ita.
“Minha mãe foi uma mãe maravilhosa.” É assim que a filha Ita de Palmira Maria da Silveira começa a recordar a mulher que marcou profundamente a história de sua família e deixou, através de seus exemplos, uma herança de valores que atravessou gerações.
Segundo a filha, Palmira foi uma mãe extremamente cuidadosa, carinhosa e dedicada à educação dos filhos. Tinha um jeito próprio de proteger aqueles que amava. “Sempre cuidou muito de mim, me educou com muito carinho. Eu sempre fui meio poupada”, recorda. Ela conta que a mãe não permitia que trabalhasse na roça e procurava poupá-la também dos serviços mais pesados dentro de casa. Em contrapartida, aconselhava muito e esperava dos filhos respeito e obediência — valores que fazia questão de ensinar pelo exemplo.
Palmira era descrita como uma mulher trabalhadora, responsável, correta e verdadeira. Não gostava de meias palavras nem de situações mal resolvidas. Tinha o chamado “pavio curto” e não costumava mandar recados: quando precisava dizer alguma coisa, dizia diretamente à pessoa. E, com seu jeito franco e bem-humorado, costumava encerrar as discussões com um antigo ditado: “Se gostou, bem; se não gostou, come mais pouco.”
Dona Palmira era uma mulher sem “papas na língua”, como define a própria filha. Até mesmo ao reencontrar alguém depois de muito tempo, fazia questão de deixar registrada sua opinião de maneira espontânea e divertida. Se achasse que a pessoa havia envelhecido bastante, não hesitava em dizer: “Ê, fulano, mas você está um bagaço velho!” Era o jeito de Palmira: sincera, direta e absolutamente autêntica.
Mas por trás dessa personalidade forte havia uma mulher de princípios muito firmes. Palmira não gostava de dever dinheiro a ninguém. Não comprava fiado, não fazia questão de luxo e levava uma vida simples, organizada e responsável. E, acima de tudo, tinha um coração profundamente caridoso.
Sua visão sobre a caridade, entretanto, também carregava a firmeza de seus princípios. Costumava dizer que a ajuda deveria ser destinada principalmente àqueles que realmente não tinham condições de trabalhar. “Para dar esmola tem que ser para um cego, um aleijado ou uma pessoa idosa que não aguenta trabalhar”, ensinava. Para ela, ajudar alguém jovem e saudável que tivesse condições de trabalhar, mas escolhesse não fazê-lo, era incentivar a preguiça — algo que considerava inadmissível.
Palmira era inimiga da preguiça, mas amiga da necessidade. E essa diferença aparece com enorme força em uma das passagens mais marcantes de sua vida.
Uma jovem que entrou para uma nova história
Ainda muito jovem, aos 14 anos, Palmira viveu uma experiência que mudaria completamente os rumos de sua vida. Já órfã de pai, era uma moça descrita pela família como muito bela e formosa. Naquele período, um homem viúvo, o senhor Joaquim Alves da Costa, conhecido por possuir boas condições financeiras, procurava uma jovem para se casar.
Joaquim procurou João Silveira, tio de Palmira, e pediu que ele lhe apresentasse uma de suas sobrinhas. Foi então que João falou de Palmira e marcou um encontro para que os dois se conhecessem.
O encontro aconteceu e, pouco depois, o casamento foi marcado.
Entretanto, a vida reservou uma circunstância inesperada. No dia marcado para o casamento, Palmira ficou gravemente doente e não tinha sequer condições de se levantar da cama. Mas a cerimônia não foi cancelada. Diante da situação, o padre foi até a casa onde ela estava e ali mesmo realizou o casamento.
Depois de alguns dias, recuperando-se da enfermidade, Palmira seguiu para a residência de seu esposo, a sede da Fazenda Condeúba, onde iniciaria uma nova etapa de sua vida.
Na casa de Joaquim Alves, encontrou uma realidade muito diferente daquela que conhecera. Era uma residência grande, com muitos criados responsáveis pelos serviços da casa. Durante aquele período, Palmira viveu com conforto e, segundo o relato da filha, teve uma convivência muito boa com o marido e também com as pessoas que trabalhavam na residência.
Ela sabia ser amiga, mas também sabia ser justa. Tratava bem quem a tratava bem e não fazia distinção quando precisava reconhecer o que era certo.
A fome e a grandeza de um coração
Foi, porém, durante um dos períodos de maior dificuldade enfrentados pela região que o lado solidário de Palmira ganhou uma dimensão ainda maior.
A família recorda de uma época de grande fome, no início da década de 1920, quando muitas pessoas percorriam as casas em busca de alimento. Na propriedade de Joaquim Alves havia grande quantidade de mantimentos armazenados em alforges.
Diante da situação de miséria que chegava à porta de sua casa, Joaquim determinava que fosse preparada muita comida para alimentar aqueles que passavam. Dona Palmira estava ao seu lado nessa tarefa de solidariedade e ela mesma fazia a distribução dos alimentos.
As pessoas chegavam, muitas vezes, extremamente debilitadas. Algumas estavam havia dias sem comer. Primeiro recebiam comida e água. Eram acolhidas, colocadas para sentar ou descansar. Depois de recuperarem um pouco as forças, recebiam ainda uma sacolinha com mantimentos crus para levar para casa e ter o que comer no dia seguinte.
Não era simplesmente dar uma esmola.
Era acolher, alimentar, cuidar e devolver dignidade a quem estava sofrendo. Essa lembrança, transmitida pela filha, ajuda a compreender uma das características mais profundas de dona Palmira: ela nunca viveu pensando somente em si. Mesmo tendo conhecido momentos de conforto, não perdeu a sensibilidade diante da necessidade alheia.
Pensava no próximo.
E essa talvez seja uma das maiores marcas deixadas por sua passagem pela vida. Uma mulher de fé, sem precisar de muitas palavras. Na dimensão espiritual, Palmira permaneceu durante toda a vida ligada à fé católica. Não era uma mulher que estivesse constantemente frequentando a igreja, mas isso não significava ausência de religiosidade. Ao contrário: segundo a filha, era uma pessoa profundamente temente a Deus.
Sua fé não estava apenas nos gestos religiosos, mas na maneira como compreendia a vida, o próximo e a própria existência.
Palmira costumava dizer que a verdadeira religião era aquela em que a pessoa acreditava em Deus e reconhecia Jesus Cristo como Senhor. Para ela, mais importante do que discutir denominações era ter fé verdadeira.
“Se você acreditar em Deus, acreditar que Jesus Cristo é o nosso Senhor, então essa é a religião certa.”
Era assim que enxergava sua relação com Deus: de maneira simples, direta e sincera. E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas de sua história. Palmira Maria da Silveira foi uma mulher de personalidade forte, de palavras francas, de princípios inegociáveis e de uma fé silenciosa, mas profunda. Foi mãe protetora, esposa, mulher trabalhadora e, sobretudo, alguém que aprendeu muito cedo que a vida só ganha verdadeiro sentido quando também se olha para a necessidade do outro.
As lembranças da filha revelam não apenas uma mãe, mas uma mulher de seu tempo que, mesmo vivendo em uma época de muitas limitações, soube construir uma trajetória marcada por responsabilidade, honestidade, coragem, fé, justiça e solidariedade.
Um legado que não ficou apenas nas paredes de sua antiga casa.
Ficou na memória dos filhos, na história da família e nas pessoas que, em algum momento de necessidade, encontraram em dona Palmira e em sua família não apenas alimento, mas acolhimento e humanidade.

TIA PALMIRA, PEQUENA, GRANDE MULHER!
Pensamos em chamá-la a “Pequena Notável”, mas nos lembramos que, já, uma grande Atriz do Cinema é chamada , dessa forma.
Apesar de que a Vida da Pequena Palmira seria digna de ser retratada, num bom, belo Filme.
O Deraldino que teve uma convivência maior, com ela, pois era seu Sobrinho direto .
Eu, Márcia, sua Esposa, conheci Tia Palmira, qando ela já morava, em São Paulo, com a Família, no Jardim Ângela, Bairro de Santo Amaro.
Muito da História de Vida de Tia Palmira tomamos conhecimento, através de seu Irmão, Augusto Benigno da Silveira, meu Sogro, pai do Deraldino.
Sr. Augusto se lembrava, com saudades, de seu tempo de Garoto. Mais precisamente, quando foi morar com a Irmã, Palmira, e seu Marido, o Coronel Joaquim Alves da Costa.
Ele adorava ir à feira, com eles, degustar as gostosuras, que lhe compravam.
Mas, voltando a São Paulo, graças à Força, Resiliência, Perseverança de Tia Palmira, a família pode conquistar melhores condições de vida, de estudos, trabalho, na Capital.
Como era bom, quando íamos visitá-los, e lá vinha ela, contando saudosas Histórias!
Servia-nos um Café ralinho, tipo “água de batata”, pois era assim que os filhos gostavam!
Uma palavra de seu Vocabulário que, jamais, esqueceremos é a tal “Livusia”!
Toda vez, que nos referimos à querida Tia, lembramo-nos, com saudades profundas, de quando ela a proferia.
Que lá do Céu, onde com certeza, ela está, olhe por nós!
Que tenha o merecido Repouso Eterno!
🙏😘🩷🌷

Dona Palmira: uma mulher guerreira, acolhedora e pilar de sua comunidade
O depoimento revela a grandeza humana de Dona Palmira, lembrada com profundo carinho, respeito e gratidão por quem conviveu de perto com ela. Mais do que sogra, amiga e companheira de caminhada, Palmira foi considerada uma verdadeira mãe, uma mulher simples, batalhadora, cuidadosa e sempre disposta a amparar aqueles que estavam ao seu redor.
Sua trajetória ganha ainda maior significado quando compreendida no contexto de sua comunidade negra. Dona Palmira foi uma mulher de fibra, um verdadeiro pilar e um divisor de águas no acolhimento e no amparo às pessoas negras, especialmente no período posterior à Lei Áurea, quando a liberdade jurídica não significou, necessariamente, condições dignas de vida. Com sua força, solidariedade e capacidade de cuidar, ela ajudou a construir caminhos de dignidade, proteção e pertencimento para aqueles que mais precisavam.
Na vida familiar, seu cuidado também era uma marca incontestável: preocupava-se com os filhos, com a alimentação, as roupas e, sobretudo, com o bem-estar de todos. Mesmo depois de os filhos seguirem seus próprios caminhos, continuava exercendo seu papel de mãe cuidadosa e amorosa.
O testemunho é, portanto, uma declaração de amor e reconhecimento a uma mulher que deixou marcas profundas por onde passou. Palmira foi guerreira, trabalhadora, generosa e acolhedora; uma mulher que fez do cuidado uma forma de resistência e da solidariedade uma missão de vida. Ao retornar à sua terra natal para viver seus últimos dias ao lado do filho Odílio, encerrou seu ciclo deixando como legado não apenas lembranças familiares, mas a história de uma mulher que ajudou, amparou e abriu caminhos para os seus.
Fotos: Arquivo Folha de Condeúba



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