Sobre ignorância, conivência, chuvas e enchentes

A dicotomia com que as pessoas conceituam sobre os fenômenos da natureza é tão esdrúxulo que parece até palavras infantis ecoadas nas bocas de pessoas adultas. E olha que estamos em pleno século XXI, era da informação e do conhecimento livre, era da livre interpretação, “da inteligência cognitiva”.
Essa cômica interpretação é mais óbvia nos períodos chuvosos, quando as cheias dos rios aumentam de volume e ameaçam ou invadem as cidades. A tradição dessa dicotomia não é um privilégio apenas das cidades consideradas pequenas, infelizmente isso vive impregnada desde os primórdios nas interpretações das civilizações humanas. A prova do que escrevo você ira encontrar ao sair nas ruas para ver o espetáculo das cheias. Aí, um diz: — O rio tá muito cheio, tá abafado e vai chover muito mais! Quando alguém da multidão logo protesta em tom de repreensão: — Só quem pode saber é Deus! É ele que é o dono do ouro e da prata! E assim a gente vai ouvindo outras interpretações: “pode chover, é Deus que tá mandando”; outra diz, “Deus é mais de tanta chuva!”; o outro se diverte com o quê está acontecendo, mesmo sabendo do sofrimento de muitos”; alguns vão dizendo que Deus é maravilhoso; algumas vão tentando explicar que tudo não passa de fenômenos da natureza, há até pessoas que são videntes ou especialistas na área; e há outras que responsabilizam, culpam alguém por tais fenômenos; e há até mesmo, aquelas que dizem ser tudo obra de magia.
Diante disso, como podemos analisar certas concepções já que o Deus dessas pessoas que ora é bom, maravilhoso; ora ruim, carrasco ou até justo e igualitário, porque pelo menos nesses momentos tornam os indivíduos todos iguais? Não pesar na mesma linha de pensamento, achismo e ignorância; mas com a luz da razão, do conhecimento, da pesquisa… Porque se Deus permite tudo isso, ações positivas e negativas, o homem, segundo alguns religiosos ou pessoas não religiosas, não seria a principal espécie do planeta, já que ela mesma se isenta das responsabilidades impostas contra o meio ambiente e seus habitantes.
Então culparíamos o gado pelo o ato natural da espécie de ruminar, após pastar por horas e liberar o gás metano por flatulação? As queimadas naturais, por queimar as florestas e liberar fumaças ou as industrias por liberar fumaças tóxicas ? Ou o sol, que por razões próprias, resolveu duplicar suas energias de radiações eletromagnéticas de propósito para que o efeito estufa saia de sua temperatura ambiente? Os combustíveis fósseis, sabendo da fama da Revolução dos Bichos, de George Orwel, resolveram também se rebelarem? Ou foram ações antrópicas (humanas), em excesso ao longo do tempo que contribuíram com tudo isso que está acontecendo, através de explorações egocêntricas e gananciosas culminando na intensificação do efeito estufa e aumentando as temperaturas na superfície do planeta?
Claro, que foi devido a este aumento da temperatura, que efetivamente temos o aquecimento global. Portanto, foram as atividades humanas capazes de aumentar a concentração dos gases dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, clorofluorcarbonos, gases fluorados, ozônio na atmosfera que vivemos dias confusos no clima. Assim sendo, Deus vive no seu lugar ou em algum lugar dos que tem fé nele, não impondo ou desfazendo catástrofes , trovões, tempestades, chuvas, cheias… nem ele e nem eu, seria eu, se eu tivesse o mesmo comportamento da multidão, que segue como manada e ainda não se utilizou da massa encefálica que cada um de nós possuímos dentro do crânio.
Ora, ao invés de julgar seu irmão, viver os dias a falarem da vida alheia, por que não questionam os governos, sejam eles municipais, estaduais ou federal por não sanarem ou por não amenizarem os problemas vividos por você e pela população? Por que não questionam, organizados, sobre os recursos que todo município recebe quando em tempos do qual estamos vivendo? Porque a educação não foi feita para libertar. Porque o sistema político não permite. Porque o sistema financeiro, as elites, as corporações midiáticas e as multinacionais dominam tudo! Dominam sua hora de levantar, de comer, de chorar, de sorrir, de dormir e seu momento de pensar; sobretudo numa era em que não se usa mais a memória de longo prazo, não se vive mais as cores do próprio eu, onde o terreno da maturidade, da indignação, cedeu espaço para a planta toxica da infantilidade, que vestiu a futilidade da ostentação, da aparência, da podridão e do ódio.
Enfim, estamos destituídos do pensamento crítico e do discernimento até para entender que somos fragmentos vivos do planeta e do univers, que também estão vivos, e é por isso que devemos respeitar toda forma de vida, para a harmonia do todo. Se assim vivermos, talvez não viveremos no caos programado, ao desespero de uma sociedade cansada e sangrenta, repleta de tantas mazelas, faz de conta, indiferença, cinismo e medo, estratégica imposta por quem só aprendeu a escravizar, impondo tudo que sufoca a quem só aprendeu a servir, e à ignorância vive submisso às migalhas, que retornam após as catástrofes, trovões, raios, chuvas e enchentes. Como todo mundo sabe que o período conturbado passou, os governos novamente passam a serem bons, servindo aos umbigos de poucos que apoiam certas manobras, ou cestas básicas à massa, então políticos ruins são aplaudidos como heróis, pois quando as catástrofes voltarem, apesar das dores e das perdas, serão as pessoas puras, íntegras , honestas, que procuram serem justas ao questionarem certas atitudes, às vezes, apontadas como os bobos da história.
Rama Amaral é um cidadão brasileiro, trabalhador, poeta e um “puro sangue puxando carroça”.


