CONFORMADOS COM O FARELO DA CASA GRANDE

Levon Nascimento

Dia desses, num espaço público da cidade, eu lia um panfleto deixado propositalmente para que as pessoas o levassem de graça, publicado por um proletário que se contenta em beliscar os farelos que lhe caem da mesa da Casa Grande local. Lamentando, ele afirmava que o Presidente (assim mesmo, com “p” maiúsculo) recebe críticas injustas, xingamentos e acusações de gente que torce para que o Brasil não dê certo. Mais: que não se pode atacar daquele jeito o chefe da pátria (com “p” minúsculo, escreveu), que deve reagir com bravura. AI-5?

Lembrei-me na hora de que o dito escritor não se incomodou quando o ex-presidente Lula tornou-se vítima (e ainda é) de bullying por ter perdido um dedo da mão no chão de fábrica, nem quando a ex-presidenta Dilma, xingada aos palavrões pela classe média paulista na abertura da Copa do Mundo de 2014, foi caricaturizada nas tampas do reservatório de combustível dos carros, a simular um estupro, no tempo em que o litro da gasolina ainda custava R$ 2,80 e o botijão de gás de cozinha se comercializava a R$ 40,00. Antes pelo contrário, ele aplaudiu e justificou: “o gigante acordou!”

Por que me espanto? Afinal, se os atingidos forem a representação do operário ou da mulher, tudo pode.

Fui além, para não ficar só no campo da esquerda, recordei-me da época em que Dona Lia (PSDB) era prefeita de Taiobeiras (1993-1996). Ainda adolescente, eu não tinha a capacidade reflexiva e o arcabouço teórico para compreender e externar o que sentia, mas já me incomodava o machismo e a misoginia com que a única representante do sexo feminino a ocupar a cadeira principal do Paço do Bom Jardim era tratada nas ruas e nos demais ambientes sociais. Não! Nunca foi crítica política ou de oposição de ideias, mas insultos baixos pelo fato único e exclusivo de a chefe do executivo municipal ser uma mulher, era óbvio.

Nas eleições municipais de 1996, enquanto Dona Lia apoiava a candidatura a prefeito de seu vice, Donato Rodrigues, pai do atual governante de Taiobeiras, Danilo Mendes Rodrigues (PSDB), o ex-governador Newton Cardoso, visivelmente embriagado, subiu no palanque do adversário, que terminaria por vencer o pleito, e xingou a prefeita fazendo referência ao órgão genital feminino, para delírio e aplauso da multidão.

De lá para cá, pouca coisa mudou por aqui em matéria de avanço civilizatório. Muitos dos que orgasticamente celebraram a misoginia direcionada a Dona Lia, mulheres inclusive, aplaudem os despautérios preconceituosos de Bolsonaro. Cotas continuam a serem vistas como privilégio para negros; apenas uma mulher alcançou a vereança e a esquerda jamais conseguiu lograr vitória. É um município de lordes ingleses situado no polígono das secas, em que a metade da população precisa de algum programa social para complementar a renda, sem deixar de se portar como milordes e miladies, of course!

As agressões brutais e covardes à honra, à moral, à condição operária e/ou feminina de Lula, Dilma e Dona Lia, bem além de suas opções partidárias, em contraposição à justa crítica política ou às necessárias denúncias de possível envolvimento com os criminosos milicianos, dirigidas a Bolsonaro, como os distintos tipos de indignação que despertam, em diferentes figuras, demonstram o nível civilizatório do brasileiro comum (e do taiobeirense, em particular), como o escriba do folhetim: dóceis e subalternos para com as forças hegemônicas do machismo, da misoginia e do neoliberalismo escravocrata; porém brutos e cruéis em relação aos ícones de destaque da emancipação trabalhadora e feminina.

Tenho cá comigo que a luta presente está muito além de nomes: Lula, Dilma, Dona Lia, Bolsonaro ou quem quer que seja. É o enfrentamento fundamental entre o ser humano decaído, sombrio e ruim contra o ser humano que evolui à generosidade, ao respeito e ao amor.

Escriba, saia de debaixo da mesa. A vida é bem mais gostosa do que as migalhas que lhe caem.

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Redação

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