A Diocese Senhora Santana de Caetité, representada pelo bispo diocesano Dom José Roberto Silva Carvalho, emitiu uma contundente nota de repúdio neste sábado (16) devido a uma série de ataques virtuais contra a Paróquia Santa Rita de Cássia, em Guanambi. As ofensas foram direcionadas tanto à instituição religiosa quanto ao pároco local, o padre Edson Rocha Passos, gerando forte indignação na comunidade católica da região.
De acordo com a nota, as manifestações começaram a surgir nas redes sociais logo no início do novenário em louvor à padroeira do município. A Diocese afirma que as publicações ultrapassaram os limites da liberdade de expressão, utilizando termos jocosos para ridicularizar a imagem de Santa Rita de Cássia e desferindo acusações de ordem moral classificadas como “gravíssimas e infundadas” contra o sacerdote.
A instituição destacou que tais condutas ferem a honra dos envolvidos e configuram crime de intolerância religiosa, uma vez que desrespeitam símbolos sagrados e ritos tradicionais protegidos pela Constituição Federal. No texto, a Igreja reforça que, embora seja um espaço historicamente aberto ao diálogo e ao acolhimento de todos, não tolerará agressões que busquem desestabilizar a paz social e a dignidade de seus membros e fiéis.
Diante da gravidade dos ataques virtuais, a Diocese de Caetité informou que já está adotando todas as providências jurídicas cabíveis nas esferas cível e criminal para que os autores das postagens sejam devidamente identificados e responsabilizados perante a lei.
A nota foi encerrada com um apelo aos católicos de Guanambi. A liderança religiosa pediu que os fiéis permaneçam em oração, serenidade e união, mantendo o espírito festivo e pacífico das celebrações em homenagem à padroeira da paróquia.
Um imóvel de quatro andares desabou na tarde deste sábado (16) no bairro Luiz Anselmo, na região de Brotas, em Salvador, provocando a morte de duas pessoas e mobilizando uma grande operação de resgate.
Segundo informações das equipes que atuam na ocorrência, seis pessoas estavam no prédio no momento em que a estrutura cedeu. Três delas conseguiram deixar o local com vida antes do colapso total do imóvel, enquanto outras ficaram presas sob os escombros.
A primeira vítima fatal confirmada foi um homem de 60 anos que trabalhava na obra realizada no prédio. Horas depois, os bombeiros localizaram uma segunda vítima sem vida em meio aos destroços. A identidade dela ainda não havia sido oficialmente divulgada até a última atualização da ocorrência.
As buscas continuam no local em busca de mais uma pessoa desaparecida. Equipes do Corpo de Bombeiros utilizam equipamentos de escavação e técnicas de resgate para tentar localizar a vítima.
Entre os sobreviventes estão dois adultos e um bebê de apenas um ano e seis meses, integrantes de uma família que residia no imóvel. Eles conseguiram escapar antes que a estrutura viesse abaixo.
Além dos moradores, trabalhadores realizavam serviços na edificação no momento do desabamento. As causas do acidente ainda deverão ser investigadas pelos órgãos responsáveis.
A operação de resgate conta com a atuação de pelo menos 30 bombeiros militares, além de equipes do Samu, Defesa Civil de Salvador (Codesal) e Polícia Militar da Bahia.
A CBF lançou neste domingo (17) a música ‘Bate no Peito’, trilha sonora oficial da Seleção para a Copa do Mundo FIFA 2026. A canção, produzida por grandes nomes da música brasileira, será tocada nos estádios onde o Brasil jogará no Mundial, em momentos específicos das partidas, com o objetivo de reforçar a identidade nacional e aproximar ainda mais a torcida da Amarelinha.
A faixa reúne as vozes de Ludmilla, João Gomes, Zeca Pagodinho, Samuel Rosa e Veigh, artistas consagrados em diferentes gêneros, estilos e gerações, e foi produzida por Papatinho. A inédita colaboração representa a diversidade cultural da música do país e conecta torcedores de todas as idades.
Em comum acordo com os artistas, todos os royalties da música serão destinados ao Instituto Fome de Música, que converterá integralmente os recursos arrecadados em doações de alimentos. A distribuição será realizada em todo o Brasil por meio do programa Mesa Brasil Sesc.
Bandidos de Farda, de Juliana dal Piva, estreia neste domingo
Agência BrasilA jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Documentos inéditos do arquivo do coronel Cyro Guedes Etchegoyen, um dos principais nomes da inteligência do Exército durante a ditadura militar, revelam novos detalhes sobre o funcionamento da estrutura clandestina de repressão no Brasil. O material histórico, que expõe os bastidores do período mais violento do regime, é a base do documentário Bandidos de Farda, que estreia neste domingo (17) no canal do ICL Notícias.
Coordenada pela jornalista Juliana Dal Piva, a investigação reúne relatórios secretos, manuais de interrogatório e tortura, registros de monitoramento político e documentos que apontam a existência de uma política sistemática de perseguição, desaparecimentos forçados e violência de Estado durante o regime militar.
Entre os materiais revelados estão documentos sobre cursos de interrogatório e tortura realizados por oficiais brasileiros no exterior, relatórios de espionagem política produzidos nos anos 1980 e registros de vítimas ainda desconhecidas oficialmente pelo Estado brasileiro.
Reprodução de fotografia do coronel do Exército Cyro Etchegoyen, responsável por roubar e esconder documentos da ditadura militar. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Um dos pontos centrais da investigação envolve a atuação do coronel Cyro Etchegoyen, chefe da contrainformação do Centro de Informações do Exército (CIE), entre 1969 e 1974. Segundo pesquisadores da ditadura militar, ele integrou a estrutura responsável pela profissionalização dos métodos repressivos utilizados pelos órgãos de inteligência. O militar participou da consolidação de mecanismos clandestinos de interrogatório e repressão.
O coronel é apontado por estudos históricos como um dos articuladores da chamada “Casa da Morte”, centro clandestino de tortura mantido pelo regime militar em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. O local ficou conhecido por receber presos políticos submetidos a tortura física e psicológica, desaparecimentos forçados e execuções clandestinas. Testemunhos de sobreviventes e documentos históricos indicam que a casa funcionava como um espaço de treinamento e experimentação de métodos de repressão utilizados pelos órgãos de segurança do regime.
A investigação apresentada no documentário mostra como parte dessa estrutura era composta não apenas por militares fardados, mas também por agentes clandestinos.
A investigação conduzida por Juliana, inicialmente publicada em uma série de reportagens do ICL Notícias, já teve repercussão internacional. O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição, Bernard Duhaime, afirmou que as revelações exigem a reabertura de investigações sobre crimes cometidos por militares brasileiros.
Bandidos de Farda
O título do filme, segundo Juliana Dal Piva, nasce justamente dessa constatação.
“Os documentos mostram que havia uma estrutura organizada para cometer crimes de Estado. Não estamos falando apenas de militares cumprindo ordens burocráticas. Existia uma máquina preparada para sequestrar, torturar, matar e desaparecer com corpos. E, muitas vezes, essas operações contavam com homens treinados especificamente para agir como assassinos clandestinos”, afirmou a jornalista em entrevista à Agência Brasil.
Reprodução de documentos inéditos da ditadura militar que tinham sido roubados e escondidos pelo coronel do Exército Cyro Etchegoyen foram expostos pela jornalista Juliana Dal Piva em documentário. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil – Rovena Rosa/Agência Brasil
Ao longo da narrativa, o documentário também expõe relatos de violência sexual cometida por agentes da repressão, incluindo um caso de estupro identificado nos documentos analisados pela equipe.
“O estupro aparece nos documentos como instrumento de terror e humilhação. Isso é muito importante porque, durante décadas, a violência sexual da ditadura ficou invisibilizada. A pesquisa ajuda a mostrar como o Estado utilizava todos os mecanismos possíveis para destruir física e emocionalmente as vítimas”, disse Juliana.
Para pesquisadores e defensores dos direitos humanos, os documentos atribuídos ao coronel Cyro Etchegoyen podem abrir novos caminhos para investigações históricas e jurídicas sobre crimes ainda não totalmente esclarecidos.
Jornalista e escritora especializada em investigações sobre a ditadura militar, Juliana dedica cerca de 15 anos de trabalho ao tema. Ela é autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, publicado em 2025. Confira abaixo a íntegra da entrevista sobre a produção inédita.
A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre documentário Bandidos de Farda – Rovena Rosa/Agência Brasil
A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre documentário Bandidos de Farda – Rovena Rosa/Agência Brasil
Agência Brasil: Como começou a investigação que resultou em Bandidos de Farda?
Juliana Dal Piva: Essa investigação é resultado de muitos anos trabalhando com documentos da ditadura militar. A minha dissertação de mestrado foi um estudo de caso sobre o desaparecimento do Rubens Paiva. Eu defendi em 2016, num período em que houve muitas descobertas importantes sobre o caso e também começaram as primeiras ações no Supremo Tribunal Federal questionando a Lei da Anistia.
Agência Brasil: O debate sobre memória e ditadura mudou nos últimos anos?
Juliana Dal Piva: Mudou muito. Eu acompanhei como repórter o julgamento sobre a revisão da Lei da Anistia, em 2014. Depois disso, o Brasil entrou em uma espécie de interrupção desse debate, especialmente com a ascensão da extrema direita entre 2014 e 2015. Houve um bloqueio dessa conversa pública sobre memória e justiça.
Agência Brasil: E qual o papel do audiovisual nesse processo?
Juliana Dal Piva: O audiovisual está ajudando a desinterditar essa conversa. Filmes como Ainda Estou Aqui fazem as pessoas compreenderem que a ditadura não foi uma guerra de dois lados. Era um pai dentro de casa, desarmado, que desaparece e deixa uma família destruída sem respostas. Qualquer pessoa consegue se colocar naquele lugar.
Agência Brasil: Por que o nome Bandidos de Farda?
Juliana Dal Piva: Porque os documentos revelam homens do Estado envolvidos diretamente em crimes gravíssimos. Não eram excessos isolados. Era uma estrutura organizada. Muitos desses agentes foram treinados para agir clandestinamente, matar, desaparecer com corpos e perseguir opositores políticos. Eles usavam a estrutura do Estado para cometer crimes.
Agência Brasil: O que mais chamou atenção nos arquivos?
Juliana Dal Piva: O grau de preparação. Os manuais de interrogatório, os cursos no exterior, a sofisticação da vigilância. Havia um planejamento muito estruturado para perseguir pessoas. E muitas vítimas nem participavam de organizações armadas. Os documentos desmontam completamente a narrativa de que havia uma guerra entre dois lados equivalentes.
Agência Brasil: O documentário mostra também violência sexual praticada pela repressão. Qual é a relevância?
Juliana Dal Piva: Sim. Existe um caso de estupro identificado na documentação. Isso é muito importante porque durante muito tempo essas violências ficaram escondidas ou minimizadas. A tortura sexual fazia parte da lógica de dominação da repressão.
Agência Brasil: Existe relação entre esse passado e o Brasil recente?
Juliana Dal Piva: Totalmente. O que vimos nos anos recentes foi uma caminhada ao autoritarismo. Tentativas de censura, perseguição, espionagem de jornalistas e magistrados, o uso político de estruturas de inteligência como a chamada Abin paralela [núcleo clandestino de espionagem que funcionou dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro para monitorar adversários políticos]. Estruturada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Existem consequências quando um país não enfrenta o próprio passado.
Agência Brasil: Como foi transformar a investigação em documentário?
Juliana Dal Piva: Foi uma experiência muito intensa. Eu já tinha feito podcast, reportagem investigativa, mas nunca uma produção audiovisual dessa dimensão. O ICL trabalha muito com vídeo e a gente quis construir uma narrativa acessível sem perder rigor histórico. Estou muito orgulhosa da equipe e do resultado.
Um capítulo importante da história brasileira começa a ser desvendado. Pesquisas revelam registros financeiros de pessoas escravizadas no século 19 e indicam que esses valores podem ser quantificados, atualizados e restituídos para os descendentes.
A hipótese é que o dinheiro depositado em contas da Caixa Econômica Federal tenha sido poupado para pagar a alforria de pessoas escravizadas até a abolição da escravidão, ocorrida há mais de 130 anos, em 1888.
Naquele momento, existiam no Brasil 723.419 pessoas escravizadas, conforme contabilizava a Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas – o Ministério da Agricultura da época.
Até o momento, o Ministério Público Federal (MPF) identificou 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados no acervo histórico do banco. Para ampliar esse escopo, o MPF determinou que a Caixa forneça informações detalhadas sobre os registros financeiros de escravizados.
O MPF quer saber qual equipe será envolvida pela Caixa na apuração, que metodologia será adotada, e qual a quantidade disponível dos chamados “livros de conta corrente”, com anotações de depósitos e saques dos ex-escravizados em poupança, existe no acervo do banco público. Os livros de conta corrente ainda contém a remuneração dos juros (6% a cada 6 meses).
Em nota, a Caixa informa que tem contribuído com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro e apresentou, dentro do prazo requerido, todas as informações solicitadas. O banco público destacou ainda que a guarda, conservação e pesquisa do seu acervo histórico é um processo contínuo e permanente, efetuado por equipes multidisciplinares no âmbito da Caixa Cultural, com respeito aos limites e às condições materiais do acervo histórico.
“A Caixa reforça seu papel histórico na promoção da igualdade racial no país e dispõe de políticas estruturantes de combate ao racismo e a promoção da igualdade na sociedade brasileira”, reforçou, em nota.
Maior que Copacabana
A papelada a ser investigada não diz respeito apenas ao século 19, mas à toda história do banco. Se dispostos lado a lado, os documentos para triagem se estendem por 15 quilômetros – medida 3,6 vezes maior que o iconográfico calçadão da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. De acordo com a historiadora Keila Grinberg, responsável pela estimativa da extensão dos documentos, a tarefa será separar o joio do trigo, verificar as condições do material, catalogar, analisar e tornar disponível para a sociedade.
“É preciso organizar apropriadamente, digitalizar, criar instrumentos de busca para que os pesquisadores e a população em geral possam consultar apropriadamente”, explica a professora do Departamento de História e Diretora do Center for Latin American Studies da Universidade de Pittsburgh (Pensilvânia, EUA).
A acadêmica e outros historiadores não têm estimativas de quantas cadernetas de poupança foram abertas na Caixa antes da abolição.
“Nem onde foi parar o dinheiro”, destaca a pesquisadora que colabora com o inquérito civil em trâmite na Procuradoria da República, no Rio, sobre os registros financeiros.
Segundo ela, a ação do MPF é justamente para fazer com que a Caixa organize e disponibilize a sua documentação, de forma que as pesquisas a respeito do tema possam avançar.
Para romper o silêncio
O avanço desejado pelos estudiosos da escravidão e pelos movimentos sociais negros é romper com sigilos históricos e com o senso comum que disfarça, oculta ou nega a segregação racial no Brasil, avalia o historiador Itan Cruz Ramos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “A estrutura das relações raciais no Brasil e do racismo seguem uma lógica do silêncio e da dissimulação, o que dá espaço para que aquela ideia de que no país, cada um é uma ilha de antirracismo mas cercada de racistas. Assim, o racismo está sempre no outro.” No plano institucional, falsear a realidade se junta com apagar o passado – daí as dificuldades de localizar registros e recuperar a história. “As perdas, a degradação dos arquivos são projetos de um país que não quer lidar com o trauma e com o incômodo da escravidão, e também com a luta por direitos do povo negro brasileiro”, assinala o historiador. “Na verdade, isso não é acidente, não é o acaso. O Brasil nunca deu tanta importância ao seu passado escravista a partir de lentes das pessoas negras. A escravidão sempre é vista como algo horrível que deve ficar no passado”, acrescenta Cruz Ramos. Ele é autor de um artigo publicado em 2024 na Revista de História da Universidade de São Paulo (USP), que conta como o fundo nacional de emancipação, que a princípio tinha como finalidade auxiliar os escravizados na conquista da sua liberdade, acabou sendo apropriado por fazendeiros para pagar a importação de mão de obra europeia – em especial trabalhadores italianos, para as lavouras de café no sudeste do Brasil. O fundo foi previsto para negros na Lei do Ventre Livre (1871) e foi desvirtuado na Lei do Sexagenário (1885). Após a abolição da escravatura (1888), deixou de ter destinação para reparar a escravidão, apesar de reinvindicações diretas de negros junto a autoridades como Ruy Barbosa, ministro da Fazenda e da Justiça no governo provisório do marechal Deodoro da Fonseca – o primeiro da República, proclamada em 1889. O fundo de emancipação, que em 1889 guardava a quantia de 12.622:308$776 (doze mil, seiscentos e vinte e dois contos, trezentos e oito mil e setecentos e setenta e seis réis), desaparece nos anos iniciais da República, quando passa a ser chamado de ‘rendas especiais’ antes de sumir dos registros, descreve Itan Cruz Ramos. Ferramenta disponível no site do Banco Central afirma que o valor “não possui equivalência direta ou conversão automática oficial para o Real atual (R$)”. Antes da Proclamação da República, entretanto, o valor superava o orçamento individual dos ministérios do Império, da Marinha, da Justiça, e dos Estrangeiros. De acordo com o historiador Cruz Ramos, o campo de estudos sobre o tema está longe de esgotar suas fontes. “Há muito ainda a ser descoberto sobre a escravidão, mas também sobre a liberdade”. Conclusão semelhante a que ele chega em seu artigo científico: “há muito dinheiro para seguir e descobrir.”