Ainda é possível retornar ao essencial do Natal?
Por Levon Nascimento

Na linguagem cotidiana das festas de fim de ano, proliferam palavras como “encanto”, “mágico”, “luz”, “encantado”. São termos que evocam beleza, afetos e sensibilidade. Entretanto, quando observados com rigor etimológico e histórico, revelam camadas mais profundas e até paradoxais. Na Bíblia, as palavras traduzidas como “encanto” – derivadas de raízes hebraicas associadas a sussurros mágicos, feitiços e ilusões – quase sempre aparecem como advertência contra aquilo que desvia a percepção da realidade e encobre o essencial. No marxismo, por sua vez, “fetiche” designa a mistificação das mercadorias, que passam a parecer dotadas de valor e poder próprios, ocultando as relações de trabalho e desigualdade que lhes dão origem. Em ambos os casos, trata-se de uma distorção do olhar: uma inversão simbólica que confunde o que realmente sustenta a vida.
Hoje, paradoxalmente, o discurso do “encanto natalino” funciona como uma operação semelhante àquilo que Marx chamaria de fetichismo. Os cenários luminosos, os pacotes reluzentes, a liturgia do consumo e a estética homogênea – estadunidense e europeia – exportada globalmente produzem uma espécie de magia que encobre o custo humano, social e ambiental das mercadorias, além de chamuscar as raízes culturais locais. O “clima de Natal”, amplamente embalado pelo mercado, não nasce espontaneamente: é fabricado pela indústria cultural e reorganiza desejos, afetos e expectativas para estimular a compra – não a reflexão. Esse encantamento mercadológico faz com que objetos pareçam portadores de significado e afeto em si mesmos, enquanto o trabalho humano e os danos ambientais permanecem invisibilizados.
Na cultura brasileira, essa crítica já aparecia de forma contundente em Gilberto Freyre. No célebre Manifesto Regionalista, o sociólogo pernambucano atacou o hábito de aceitar cegamente as “novidades estrangeiras” e denunciou a invasão simbólica que descaracterizava as tradições locais. Para Freyre, “esse carnavalesco Papai Noel que, esmagando com suas botas de andar em trenó e pisar em neve as velhas lapinhas brasileiras (presépios), verdes, cheirosas, de tempo de verão, está dando uma nota de ridículo aos nossos natais de família, também enfeitados agora com arvorezinhas estrangeiras mandadas vir da Europa ou dos Estados Unidos pelos burgueses mais cheios de requififes e de dinheiro”.
Nesse sentido, o “encanto” contemporâneo do Natal – embora muito distante do sentido bíblico – funciona como um véu simbólico que desloca o centro da celebração. Em vez de promover o encontro, a partilha e a sobriedade, favorece o frenesi de consumo, embalado por frases publicitárias que repetem a promessa de felicidade instantânea. A cada ano, intensifica-se o fetiche das vitrines, que transforma o desejo humano por pertencimento e reconhecimento em uma corrida por presentes que, pouco depois, se tornam descartáveis. O Natal, que deveria recentrar a vida na comunidade e na vulnerabilidade humana refletida no nascimento de Jesus, converte-se em espetáculo.
O resultado é uma contradição profunda: celebra-se o nascimento de alguém que viveu na pobreza, anunciou a liberdade dos oprimidos e denunciou estruturas injustas, mas isso ocorre por meio de práticas que reforçam desigualdades e agressões socioambientais. A figura do Jesus histórico – judeu marginalizado, refugiado recém-nascido, homem do diálogo e da compaixão – é frequentemente apagada pela estética do consumo. Seu chamado à conversão ética, ao cuidado com a criação e à solidariedade ativa entra em choque com o ritmo acelerado da temporada de compras, marcada por embalagens descartáveis, deslocamentos poluentes e trabalho precarizado.
Esse descompasso também se expressa na forma como se vive a fraternidade natalina. Muitas vezes, ela se reduz a gestos pontuais de caridade, sem se converter em compromisso duradouro com justiça social, redução de desigualdades e cuidado ambiental. A solidariedade transforma-se em um breve encanto: bonito, porém efêmero, como as luzes que se apagam em janeiro. Trata-se de um fenômeno próximo ao fetiche marxista, no qual o gesto visível substitui a transformação estrutural, como se decorar casas ou distribuir doações fosse suficiente para enfrentar problemas que exigem políticas públicas, engajamento comunitário e mudança de mentalidade.
Além disso, o consumo intensivo que caracteriza o Natal contemporâneo contribui diretamente para a insustentabilidade ambiental. Um planeta já exausto pelo aquecimento global, pelo desmatamento e pela poluição recebe toneladas de resíduos decorrentes da hiperprodutividade sazonal. A cultura do “encanto”, repetida em campanhas publicitárias que prometem magia e brilho, oculta o fato de que cada mercadoria carrega uma pesada pegada ecológica. A beleza luminosa das cidades contrasta com a opacidade dos impactos ambientais invisibilizados.
Contudo, não se trata de negar a dimensão afetiva do Natal, nem de esvaziar sua força simbólica. A festa mobiliza reencontros, memórias e esperanças legítimas. Justamente por isso, a questão que se impõe é se ainda é possível retornar ao essencial do Natal. A resposta não está em abolir a celebração, mas em reorientá-la. Retornar ao essencial significa deslocar o centro da festa do consumo para a vida concreta: reconhecer o valor do trabalho humano, assumir a responsabilidade socioambiental, fortalecer vínculos comunitários e resgatar o sentido ético do nascimento de Jesus como anúncio de cuidado, justiça e solidariedade. O Natal não precisa ser menos belo, mas mais verdadeiro. E essa verdade, ainda que menos reluzente, pode ser o caminho mais consistente para reencontrar seu sentido essencial.
Sobre o autor
Levon Nascimento é professor de História na rede pública de ensino de Minas Gerais, doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pelo Centro Universitário Dom Helder e pesquisador das relações entre cultura, justiça socioambiental e ética pública. Atua na interface entre educação, história social e crítica ao modelo de desenvolvimento contemporâneo.


































































