Dia: 23 de Junho, 2025

Criança de 5 anos caiu de roda gigante no São João de Ipirá e sobreviveu com ferimentos leves

Foto: Reprodução/Acervo pessoal
Uma criança de 5 anos caiu de uma roda gigante durante a festa de São João em Ipirá, na noite de sexta-feira (20). A trava da cabine se abriu quando ela, a irmã de 10 anos e uma adolescente de 15 estavam no brinquedo. A menina despencou de quase 10 metros e chegou a bater em uma cabine antes de atingir o chão.

A vítima foi socorrida rapidamente, levada a uma unidade de saúde local e, depois, transferida para o Hospital Estadual da Criança, em Feira de Santana. Ela teve apenas ferimentos leves e recebeu alta neste domingo (22). A irmã mais velha, que conseguiu se segurar, sofreu uma fratura no pé.

A prefeitura informou que a roda gigante havia passado por vistoria técnica e que as causas do acidente estão sendo apuradas. Disse ainda que a criança recebeu assistência médica no próprio local da festa, no Parque de Exposições Dr. Juracy Oliveira.

A mãe das meninas, Laiane Fernandes, reclama que não foi procurada pela organização do evento e que não houve qualquer orientação sobre restrições de idade ou altura para o brinquedo. “Foi um milagre ela estar viva”, desabafou.

Metro1

Foragido de São Paulo foi preso após ser identificado pelo reconhecimento facial

Brumado: Foragido de São Paulo é preso após ser identificado pelo reconhecimento facial

Um homem foragido da justiça de São Paulo foi preso na sexta-feira (21) após ser identificado pelo sistema de reconhecimento facial no centro comercial de Brumado. O Centro Integrado de Comunicação (Cicom) flagrou o foragido na Avenida Centenário, nas proximidades de uma autopeças.

Segundo informou o 24º Batalhão de Polícia Militar (BPM), o mandado de prisão é do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), na comarca de Itaquaquecetuba. De acordo com a PM, o homem estava foragido desde março de 2024. Ele foi detido e apresentado na Delegacia Territorial de Brumado para adoção das medidas legais cabíveis.

Pessoas intersexo lutam por reconhecimento e direitos

ENTREVISTA: Pessoas intersexo lutam por reconhecimento e direitos. Grupo que representa quase 2% da população enfrenta invisibilidade e insuficiência da legislação.

Por Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo, Rafaela de Oliveira
GÊNERO E DIVERSIDADE SOCIEDADE
desigualdade direitos humanos LGBTQI+ política violência

Carolina Iara é primeira mulher trans intersexo a exercer um cargo de covereadora pela Bancada Feminista do PSOL, em São Paulo

Desde 1969, o dia 28 de junho é marcado pela celebração do Orgulho LGBTQIAPN+, sigla que foi se transformando ao longo dos anos para refletir melhor a diversidade de identidades e orientações sexuais. A data remete à Revolta de Stonewall, uma série de protestos em resposta a uma ação policial violenta no bar Stonewall Inn, em Nova York, contra pessoas transgêneras e drag queens. O episódio se tornou um marco histórico na luta pelo direito à dignidade e ao respeito, independentemente de gênero ou orientação sexual.

No Brasil, 12% da população adulta se identifica como pessoas assexuais, lésbicas, gays, bissexuais e transgênero, de acordo com o levantamento da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) feito em 2022. Mesmo com alguns avanços, a comunidade segue enfrentando retrocessos, agravados por desigualdades estruturais, especialmente quando se trata de identidade de gênero.

A invisibilidade e a violência sistemática enfrentada por pessoas intersexo, grupo que representa cerca de 1,7% da população mundial, segundo a ONU, é o tema do Pauta Pública, que irá ao ar na sexta-feira, 27 de junho. A conversa é com Carolina Iara, primeira mulher trans intersexo a exercer um cargo de covereadora pela Bancada Feminista do Psol, em São Paulo. Ela compartilha sua experiência na linha de frente da política institucional e fala sobre os desafios das lutas LGBTQIAPN+ no Brasil.

“Fui uma criança intersexo submetida a tortura, a cirurgias precoces e violentas”, afirma. “Essas intervenções continuam acontecendo. Ainda há ambulatórios, inclusive os chamados de referência, que seguem praticando as mesmas mutilações genitais sob o pretexto de ‘normalizar’ corpos intersexo”, diz.

Carolina Iara é primeira mulher trans intersexo a exercer um cargo de covereadora pela Bancada Feminista do PSOL, em São Paulo.
Como você enxerga o atual momento político e social para a população LGBTQIAPN+ no Brasil?

Estamos em um momento difícil, de avanço e de dificuldade. Um momento muito contraditório. Eu vejo que a extrema direita e o fundamentalismo religioso, no mundo, elegeram a gente [pessoas LGBTQIAPN+] como o inimigo. Mas tem sido também um momento em que conseguimos avanços. Desde que eu comecei a minha militância há 16 anos, muita coisa avançou pra mim e pra minha comunidade. No Brasil, já conseguimos ter a retificação de nome nos documentos. No entanto, a reação a qualquer um desses avanços ainda é brutal.

Por exemplo, a Câmara Municipal de São Luiz [Projeto de Lei nº 201/2023] e a Câmara Municipal de Petrópolis [Projeto de Lei 3363/2024] proibiram as pessoas trans de irem ao banheiro. Quando você fala que as pessoas trans têm que ir ao banheiro de acordo com o sexo do nascimento, na verdade, você está proibindo essas pessoas de irem ao banheiro, porque não tem como eu entrar no banheiro masculino e não sair de lá ou agredida, estuprada ou qualquer outra coisa. Ao total, são 77 leis anti-LGBTs aprovadas no Brasil.

Somos o país que mais tem transvestidos e pessoas trans eleitas, mas somos o país que mais mata também. Então, a gente está em uma situação muito delicada, mas tem muita luta. O movimento LGBTQIAPN+ é um dos que têm tido mais dinamismo, assim, junto com o movimento negro e o movimento feminista também. São esses os movimentos que têm feito a resistência e a luta. Não são mais os movimentos sindicais, nós estamos num outro momento de luta.

Como o país e a própria comunidade LGBTQIAPN+ lida com pessoas intersexo?

Eu fui uma criança intersexo submetida a violência, tortura, cirurgias precoces muito violentas. Essa realidade ainda existe por um desconhecimento social, é uma realidade que faz com que famílias sejam impelidas, sejam convencidas a fazer cirurgias em seus bebês que são 2% da população, para esconder literalmente a intersexualidade, a genitália ambígua ou a hormonização diferenciada que a criança tem, que adolescente tem.

Existe uma grande comoção de setores da sociedade, que vai desde o [deputado federal] Marco Feliciano, Eduardo Bolsonaro [deputado federal] até a PGR [Procuradoria Geral da República], de proteger as crianças. Com discursos de que tem que proteger a criança dos LGBT e proibir de fazer bloqueio hormonal aos 12. Aí eu sempre faço a clássica pergunta da minha vida: onde eles estavam quando eu passei por essas cirurgias na infância contra a minha vontade? Não estavam lá, pelo contrário estavam incentivando esse poder médico a fazer tudo isso.

Não tem defesa nenhuma de 2% da população que é intersexo. O que falta hoje é uma vontade política, uma legislação ou algo que seja semelhante para proibir as cirurgias precoces desnecessárias pra encobrir a intersexualidade. Precisa proibir hormonização forçada em crianças e adolescentes que indiscriminadamente são hormonizados para esconder a intersexualidade, e, enquanto isso, estão enchendo o saco das pessoas trans que querem as modificações corporais ou evitar as modificações corporais.

A gente conseguiu sinalizações boas nesse sentido. O Conselho Nacional de Saúde, a partir de uma iniciativa da ABRAI (Associação Brasileira Intersexo), conseguiu uma recomendação pelo fim da mutilação genital, pelo fim das cirurgias. E conseguimos também por outra entidade, a Intersexo Brasil, um grupo de trabalho no Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. Esse grupo de trabalho tem a pretensão de criar um plano de erradicação dessas violências para tratar a questão como uma agenda de direitos humanos. Então estamos nesse caminho, mas ainda não teve um avanço específico.

Em relação à comunidade LGBTQIAPN+, eu acho que já melhorou também. Tem até um espacinho ali para a letra I. Eu tenho dito que, aqui no Brasil, as principais aliadas do movimento intersexo tem sido as travestis e transexuais, a letra T e o movimento feminista. Não sei como é em outros países, mas aqui são esses dois movimentos que tem pegado mesmo a pauta e levado, não sem contradições, mas é o que tem sido a tônica nos últimos anos. 

Eu sou uma travesti negra e intersexo. Não à toa no movimento trans a gente debate algumas coisas sobre pessoas intersexo, não à toa são as mães de intersexo também que se organizam e viram ativistas. Eu acho que o principal esforço é pegar esses assuntos, digamos impopulares, esses assuntos mais delicados, e tentar não tirá-los do debate público.

Tem coisas que eu faço junto com a bancada feminista que tem grande repercussão, como a questão de ter lutado ativamente pelas cotas trans na Universidade de Campinas. Isso teve uma repercussão muito grande pro bem e pro mal, mas ao mesmo tempo tem coisas que não ganham essa repercussão. O Dia Contra Mutilação Genital [26 de setembro], por exemplo, não está na boca das pessoas. Então, é um desafio diário tentar trazer esses debates todos para fazer um orgulho verdadeiro LGBTQIAPN+, um orgulho que inclua todas essas letras, essas intersecções e também não perca o sentido emancipatório da coisa, o sentido antissistêmico da coisa.

Por que o Dia do Orgulho, em 28 de junho, além de todas as lutas, também precisa ser um dia de celebração?

A minha avó Altina falava um ditado assim: “as pessoas querem você bem mas não melhor que elas.” Um ditado que resume um pouco a nossa estrutura social hierárquica. Como, normalmente, as coisas vão se estruturando de cima para baixo em cadeias, em muitas pessoas se manifesta um pensamento de que está arraigado na sociedade: “eu não quero ver a felicidade daqueles que de algum modo são inferiores a mim” e isso também diz respeito à felicidade. A felicidade incomoda.

Por que querem proibir festas ou paradas LGBTQIAPN+? Porque incomoda ver milhares de pessoas marchando, festejando, se beijando, sendo alegres. Então isso incomoda demais. Eu vejo pelo lugar que eu ocupo também. Tem pessoas que ficam particularmente inconformadas de ver uma travesti que não está na prostituição. Eu já fui na prostituição, não tenho vergonha nenhuma. Mas assim tem pessoas que se incomodam falando “como assim essa travesti está aqui andando nos corredores da Assembleia de nariz em pé? Não, ela é arrogante”. Aí já começa: “será que ela não está fazendo alguma coisa de errado? Investiga mais”. Existe um incômodo. 

Mulheres trans são mortas por seus parceiros sexuais. A pessoa tem uma relação com uma mulher trans e de repente ele toma tudo dela e a mata. Isso é muito comum. O antídoto disso é a gente, mesmo no meio de tanta desgraça, a gente poder ser feliz. Poder celebrar, festejar, amar e ir [para as ruas] com os nossos afetos, poder esbanjar a nossa felicidade e o nosso brilho. Eu acho que é muito importante celebrar, sou uma grande defensora do mecanismo do orgulho. É uma coisa formidável que a gente criou enquanto movimento. É formidável porque o orgulho é o contrário do que esses setores querem, que é a gente se esconder e ter vergonha de si e que a gente viva na clandestinidade.

É aquela coisa: “ri, mas ri baixo”. Não, a gente quer rir alto, a gente quer gargalhar, bater leque, fazer barulho. Então, o Dia do Orgulho pra mim é essencial. Vamos fazer uso dele, muitas pessoas lutaram para que a gente possa festejar. Temos que botar o nosso corpinho pra jogo e festejar sim.

Edição: Mariama Correia

Isis Dias de Oliveira: ex-marido busca até hoje reconhecimento de assassinato na ditadura militar

REPORTAGEM: José Luiz Del Roio procurou respostas por quase 40 anos; promessa de correção no atestado de óbito não saiu do papel

Por Darlene Dalto

O caso de Isis Dias de Oliveira, que desapareceu no Rio de Janeiro em 1972

Famílias brasileiras que reivindicam novos atestados de óbitos de seus mortos e desaparecidos durante o regime militar finalmente receberam uma boa notícia: o Conselho Nacional de Justiça determinou, em dezembro de 2024, que a causa da morte nos atestados de óbito das 434 vítimas da ditadura será corrigida e o Estado vai assumir a sua responsabilidade. Nos novos documentos deverá constar “causa morte não natural, violenta, causada pelo Estado”, como recomendou a Comissão Nacional da Verdade, instaurada em 2012. Mas até agora não foi definida uma data para a entrega dos novos certificados.

“Essa reivindicação é antiga. São 40, 50 anos de espera. A CNJ reconheceu em dezembro que as famílias devem ter um novo atestado de óbito, mas a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos resolveu que só ela deve atestar e entregar as certidões. Então criou-se mais um caminho burocrático e até agora nenhum documento foi entregue.”, explica a jornalista, ex-presa política e militante Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha Teles.

Há 30 anos, em 1995, o governo aprovou a Lei 9.140 que reconheceu que os desaparecidos políticos foram mortos pelo Estado. As famílias teriam direito ao atestado de óbito e também a uma indenização simbólica. “Eram valores entre R$ 100 mil e R$ 120 mil aproximadamente. Mas nós não queríamos dinheiro, queríamos informação”, ela diz.

Além da falta de retificação nos documentos, ainda há muito a ser explicado. Dezenas de familiares ainda não sabem quando, como, onde e em que circunstâncias seus filhos, seus sobrinhos foram mortos. Mães e pais que passaram décadas em busca de informação morreram sem saber que os matou. E nenhum assassino foi preso.

O caso de Isis Dias de Oliveira, que desapareceu no Rio de Janeiro em 1972, é emblemático. “É uma tragédia. Não sabemos nada”, reclama o radialista e militante político ítalo-brasileiro José Luiz Del Roio, que foi companheiro de Isis. “Queremos saber o nome dos assassinos. Queremos que eles sejam processados”. São 53 anos à procura de informações seguras.

A certidão da morte de Isis que Del Roio recebeu não traz nenhuma informação relevante. No lugar em que deveria haver a data e hora do falecimento, local de falecimento, causa da morte e nome do médico que atestou o óbito, há apenas um incômodo “não consta”. O local do sepultamento está descrito “local ignorado”.

POR QUE ISSO IMPORTA?
Há 30 anos, o Estado brasileiro aprovou Lei garantindo que as mortes e desaparecimentos causados pela ditadura de 1964 alterariam as informações nas certidões de óbito, mas até hoje famílias não conseguiram exercer esse direito

Isis Dias de Oliveira, que desapareceu no Rio de Janeiro em 1972 após ser presa pela ditadura
Quase 40 anos a procura de respostas
Isis foi presa no dia 30 de janeiro de 1972 pelo Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) com outro militante chamado Paulo César Massa. “A família só soube que ela tinha sido presa porque uma amiga chamada Aurora Nascimento telefonou e avisou. As Forças Armadas sempre negaram”, conta Del Roio.

Segundo o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva, Isis foi acusada e julgada à sua revelia por assalto ao Hospital da Ordem Terceira da Penitência, no Rio de Janeiro, depredação de postos de gasolina onde havia cartazes de procurados políticos e assalto à agência do banco Bradesco na rua Miguel Leme, quando foi ferida, sem gravidade. Em três processos ela foi absolvida e os demais foram arquivados por insuficiência de provas.

Foram 38 anos de procura. Dona Felícia, mãe de Isis, escreveu cartas para o governo, tentou contatos com as Forças Armadas. Nunca obteve resposta. Uma informação de que a filha estava em Londres a levou até a capital da Inglaterra. A pista era falsa. “Quando saí da última prisão, muitas famílias de mortos e desaparecidos vinham falar comigo para saber se eu tinha alguma informação”, lembra Amelinha Teles, que entrou para o PCB, foi presa em 1964 e depois em 1972, passou pelo DOI-CODI de São Paulo, pelo Presídio do Hipódromo, pela Casa do Egresso e pelo Carandiru.

Durante quase 40 anos, Dona Felícia, mãe de Isis, escreveu cartas para o governo e tentou contatos com as Forças Armadas para saber o que houve com a filha “Conheci bem dona Felícia. Ela me marcou. Era uma mulher muito doce, participava dos nossos encontros, que reuniam famílias de mortos e desaparecidos, era assídua nas nossas manifestações, nas nossas viagens a Brasília. Ela levou essa luta até o fim de sua vida. Dona Felícia não tinha as mesmas posições políticas que a filha, mas nunca se queixou da Isis. Pelo contrário, tinha muito orgulho da coerência dela”, completa.

De acordo com investigação da Comissão da Verdade, a morte de Isis e de mais 11 desaparecidos no dia 28 de janeiro de 1979 foi confirmada pelo general Adyr Fiúza de Castro, chefe do DOI-CODI do Rio de Janeiro, em matéria do jornalista Antônio Henrique Lado na Folha de S.Paulo. Em 1994, o livro Os Anos de Chumbo – A Memória Militar sobre a Repressão (editora Relume-Dumará), dos pesquisadores Maria Celina D’Araújo, Glaucio Dillon Soares e Celso Castro o general Fiúza de Castro, trouxe um depoimento cruel do general Fiúza de Castro sobre métodos usados para torturar presos políticos no país durante o regime militar.

Em julho de 2021, a Agência Pública mostrou que 19 militares acusados de crimes na ditadura – entre eles nomes do alto escalão do regime militar – deixaram pensões para seus familiares. A lista trazia o nome do general Fiúza Castro, que deixou duas pensões no valor total de R$ 30 mil a familiares.

O desaparecimento de Isis começou a ser investigado em 2014 pela Comissão Nacional da Verdade. A conclusão é que ela foi assassinada pelos militares na Casa da Morte em Petrópolis, no Rio de Janeiro, a partir da denúncia de Inês Ettiene Romeu, ativista da Vanguarda Popular Revolucionária, única sobrevivente entre os militantes que foram levados para esse lugar.

Del Roio pediu que a Comissão da Verdade solicitasse ao Arquivo Nacional uma cópia da Informação 4.057, de 11 de setembro de 1975, do Serviço Nacional de Informação. No documento consta que ela teria sido morta no mesmo dia em que foi presa. “Para mim ela foi morta no DOI-CODI da Barão de Mesquita, na Tijuca, no Rio. Depois eu estive lá para ver o lugar. Também fui até a Casa da Morte”, ele conta. “Quando as ossadas da vala do cemitério de Perus foram descobertas, procurei ali também”.

Durante a ditadura, 1049 corpos foram enterrados ilegalmente no Cemitério Dom Bosco, em Perus, bairro de São Paulo. Essas ossadas foram descobertas em 1990 pelo jornalista Caco Barcellos.

De acordo com a Comissão da Verdade, Isis foi assassinada pelos militares na Casa da Morte em Petrópolis, após ser desaparecida em 30 de janeiro de 1972 “Quando eu não puder mais falar, vocês falarão por mim” Del Roio lembra de Isis como “uma mulher corajosa que aderiu à luta contra a ditadura do regime militar por vontade própria e teve papel importante”. Ela entrou para o Partido Comunista Brasileiro em 1965, quando cursava o primeiro ano de Ciência Política na Universidade de São Paulo, deixou o PCB para integrar a Aliança Libertadora Nacional, esteve em Cuba onde recebeu treinamento de guerrilha, voltou ao Brasil, mudou para o Rio de Janeiro e lá foi presa em 30 de janeiro de 1972. Nunca mais foi vista.

Isis nasceu em São Paulo em 29 de agosto de 1941, morou com a família na Lapa, era filha de Felícia Mardini de Oliveira e Edmundo Dias de Oliveira e tinha dois irmãos. Seus pais não eram ricos, pelo contrário, mas ela pode estudar em bons colégios, fez o clássico no Santa Marcelina, aprendeu a tocar piano, também pintava, ela cursou artes na Fundação Armando Álvares Penteado. Como falava inglês, francês e espanhol, trabalhou como secretária bilíngue no frigorífico Swift. “Ela era uma mulher muito bonita, usava um cabelo bem curto, era baixa, não era muito magra. Falava com calma, era muito esforçada e culta. Gostava de pintar, quase sempre rostos de mulheres”, lembra Del Roio, que a conheceu quando ela entrou na USP e foi morar no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP).

Em um ano estavam casados. “Eu costumava ir até o antigo prédio da USP na rua Maria Antonia, às vezes ficava ali jogando xadrez. Um dia uma amiga que tinha acabado de chegar da União Soviética nos apresentou. Isis queria entrar para o PCB”, conta Del Roi, que aos 22 anos já era uma importante liderança do partido. Ele começou bem cedo, aos 17, no movimento estudantil em Bragança Paulista, interior de São Paulo, onde morou. “Nós nos casamos por causa da família dela, só no civil, em um cartório na Lapa, e fomos morar em um apartamentinho na rua das Palmeiras, 261, em Santa Cecília. Pouca gente sabia onde a gente morava. A Clara Charf e o Carlos Marighella apareciam de vez em quando. Isis não sabia cozinhar, a Clara não se conformava e tentava ensinar”, lembra, rindo.

Isis começou a trabalhar arregimentando alunos interessados em lutar contra a ditadura brasileira e ajudar na organização das manifestações de rua que o PCB promovia. Dois anos mais tarde, passou a trabalhar no cursinho do grêmio da faculdade. “Isis era alegre, risonha, apesar da vida dura. Ela coordenava o curso, eu dava aulas de história grega e bizantina”, conta Del Roio. A essa altura ela usava um codinome, como quase todos que militavam naquele período. “Isis era Fátima, ela mesma que escolheu esse nome. Tinha outros nomes, mas não me lembro mais. Eu só a chamava de Isis quando estava sozinho com ela. Também a chamava de Corujinha porque na mitologia grega a coruja representa a busca pelo saber”, explica.

Nessa época, eles montaram uma gráfica clandestina na rua Canuto do Val, também em Santa Cecília. “A gráfica era muito importante para o partido porque ali a gente imprimia todo o material que era distribuído para os alunos e operários nas manifestações, nas passeatas. Eram textos sobre política internacional de Ho Chi Minh, de Che Guevara, de Regis Debray. Eu e Isis também escrevíamos”.

Casamento de Ísis e Del Roio em 8 de abril de 1967
Com a cisão no PCB em 1967, Del Roio rompeu com o partido e se uniu a Carlos Marighella e João Câmara Ferreira para fundar a ALN, um grupo de guerrilha urbana que defendia a luta armada contra a ditadura. Ele lembra que a ALN é conhecida como Aliança Nacional Libertadora, mas na verdade a sigla queria dizer Ação de Libertação Nacional. “Eu sei disso porque estava lá. Nosso objetivo era fazer uma ação, não queríamos aliança com ninguém. Eu segui o Marighella e Câmara Ferreira, fundamos a ALN, Isis veio comigo. Foi um período difíc

No terceiro ano do curso ela trancou a matrícula e foi para Cuba, cuja revolução liderada por Fidel Castro em 1959 havia derrubado o governo do ditador Fulgêncio Batista. Lá, durante um ano, fez treinamentos de guerrilha urbana e contraespionagem. “Ela foi antes, eu fui meses depois. Tinha medo que ela caísse, mas não podia dizer isso. Durante o curso nós aprendemos a lidar com explosivos, a fazer explosivos, aprendemos a manejar armas, a atirar, como usar disfarces, como nos mover na cidade, como falsificar documentos”. Ela não conheceu Fidel Castro, ele o conheceu em uma cerimônia do aniversário da revolução.

Em Cuba, após três anos o casamento acabou. Isis voltou para o Brasil e foi para o Rio de Janeiro, onde voltou a viver de forma clandestina. “Eu fiquei mais algum tempo em Cuba e só voltei alguns meses depois da anistia, em outubro de 1979. Soube do seu desaparecimento quando estava em Lima, no Peru. Foi um choque”, relembra Del Roio. No exterior, ele passou pelo Peru, Chile, Argélia, Itália e a então União Soviética. Em Moscou atendeu a um pedido inusitado de Luís Carlos Prestes, comunista histórico, secretário do PCB: cuidar do arquivo do partido, ameaçado pelas constantes buscas por parte dos militares. Em 1977 ele conseguiu transferir o arquivo para Milão e desde os anos 90 esses documentos se encontram sob a guarda do Centro de Documentação e Memória da UNESP (Universidade Estadual Paulista). “Ninguém quis ficar com esse arquivo. Foi uma operação complicadíssima, retirar do Brasil toneladas de livros e documentos subversivos durante a ditadura. Durante anos minha vida ficou ligada àqueles documentos”.

Del Roio lembra de Isis como “uma mulher corajosa que aderiu à luta contra a ditadura do regime militar por vontade própria” Na Itália, onde mora até hoje, ele possui dupla cidadania, Del Roio se filiou ao Partido da Refundação Comunista e foi eleito senador em 2006 pela região da Lombardia, depois se tornou membro da Assembleia Parlamentar do Conselho Europeu, em Estrasburgo e membro da União Europeia Ocidental, em Paris. A partir dos anos 2000 ele voltou muitas vezes para colaborar com a criação da Comissão Nacional da Verdade.

“Mulheres como Isis são heroínas do povo brasileiro”, opina Del Roio. “Nos anos 70 nós fomos para a luta contra a ditadura com a cara e a coragem. Fomos com nossas minissaias, com nosso batom. Era o que precisava ser feito”, lembra Amelinha Teles. Desde 2012 o Centro Universitário de Pesquisas e Estudos Sociais da USP leva o nome de Isis. Ano passado ela e outros 32 alunos da universidade receberam diplomas póstumos concedidos aos alunos que foram mortos durante a ditadura militar. Nos bairros do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, e em Macaxeira, no Recife, duas ruas também levam o seu nome. Em São Paulo, Isis Dias de Oliveira é o nome de uma praça que fica perto da casa onde ela viveu com sua família, na Lapa, inaugurada em 1999. Há uma pedra na praça onde está escrito: Quando eu não puder mais falar, vocês falarão por mim. De acordo com Amelinha, essa frase não é dela. Mas poderia ser.

Edição: Bruno Fonseca

Macaúbas: Com problemas vocais, Walkyria Santos se emociona e interrompe show

Com problemas vocais, Walkyria Santos se emociona e interrompe show em Macaúbas
A cantora de forró, Walkyria Santos, ex-integrante da banda Magníficos – Foto: WhatsApp

A cantora de forró, Walkyria Santos, ex-integrante da banda Magníficos, interrompeu seu show na noite deste sábado (21), durante o tradicional São João de Macaúbas. Emocionada, a artista chorou no palco principal dos festejos juninos macaubense por conta de problemas vocais e foi acolhida pelo público.

Walkyria cantou cerca de 50 minutos e depois seguiu para uma unidade de saúde para receber atendimento médico. Ela cancelou sua apresentação na vizinha cidade de Boquira, que fica a 30 km de Macaúbas.  

“Pela primeira vez, senti que não consegui entregar tudo que eu queria no palco. Meu coração estava ali, inteiro, mas minha voz não respondeu. Macaúbas, mesmo assim, vocês foram incríveis. Me acolheram, cantaram comigo, me fizeram sentir abraçada. Só queria ter retribuído à altura, como vocês merecem. Boquira, quero pedir perdão. Hoje não vou conseguir realizar meu show. Mas eu confio… Deus está comigo e vai restaurar meu canto. Sigo com fé, gratidão e a vontade de seguir levando minha música até vocês”, escreveu a cantora em suas redes sociais.