Eleições 2022: a verdade é que estamos cansados e votaremos nos menos piores

Deysi Cioccari

Debate na Globo foi a prova: estamos tão cansados de eleições como William Bonner estava no evento (Reprodução)
Debate na Globo foi a prova: estamos tão cansados de eleições como William Bonner estava no evento (Reprodução)
O tão falado debate da Rede Globo para o primeiro turno das eleições aconteceu. Diferentemente de outros protagonismos históricos esse pareceu muito mais uma esquete mal feita de um programa de humor do que um dos maiores debates pela disputa do centro do poder. Se estamos tão acostumados com a falta de liturgia do cargo desse presidente, os outros não demonstraram sequer melhor aptidão. Exceto por Simone Tebet que proporcionou a melhor parte da noite numa conversa civilizada sobre educação com Soraya Thronike. De resto, o que se viu foi um show de horrores.

Se a política é de encenação a noite de quinta-feira foi um circo. Repito meu professor Juremir Machado: obscenidade pura. Um padre que não é padre, por um acaso do destino (ok, pela nossa famigerada lei eleitoral) deturpou até mesmo as regras simples de ouvir em silêncio enquanto outro fala. Cabo eleitoral é alcunha do passado. O tal padre parecia um soldado com misto de palhaço que ninguém mais aguentava. Um desserviço.
Schwartzenberg já dizia: o espetáculo hoje em dia está no poder. Não mais apenas na sociedade. De tão enorme que foi o avanço do mal. O que vemos é o Estado se transformando em estrutura teatral.

Eu, que sempre estudei as imagens espetaculares, o animal político, a obsessão em aparecer, vi as teorias tomando forma na televisão. Nada poderia ter sido mais chocante do que aquilo.

Lula estava cansado, aparentemente exausto de uma campanha que lhe tira as últimas forças. Se entregou às provocações levianas do tal Kevin, Kelmon…sei lá. Tivesse sido de um oponente que pode lhe tirar votos ou de alguém com argumentos…mas o padre? Enfim, o padre, afinal.

Bolsonaro começou agressivo e resolveu polarizar com Felipe D’Ávila que o contrapunha quase pedindo desculpas. Foi uma tática interessante para atacar Lula sem entrar diretamente no embate.

Ciro não foi. Não explicou sua ausência. Aquele que mandaram no lugar não era o pedetista com números afiados na ponta da língua.

Nem de entretenimento podemos chamar o que aconteceu na noite de quinta-feira. Ok. Eu sei que pedir uma visão racional da política não se sustenta e qualquer reflexão que deseje enfrentar o problema do excesso de apelo às emoções e ao teatral em detrimento do teor propositivo irá falhar.

Quem acredita que houve vencedores certamente está corroído pela cegueira de um sistema que insiste em nos colocar como amigos e inimigos. Não houve vencedores na noite de quinta-feira. Perdemos todos.

É verdade que cada ciclo histórico definirá, ao seu final, o que é e não é verídico. O julgamento histórico é algo que não temos, primeiro como prever, segundo, como impedir. Mas a ruptura das normas mais básicas de civilidade a ausência quase que completa de regras cotidianas não deve nos levar muito além do que estamos vivendo: imprevisibilidade, instabilidade e cansaço.

Uma estranha loucura parece se apoderar de todos nós onde o esgotamento do questionamento e da curiosidade nos fazem ceder a uma espécie de coerção silenciosa. Perdemos por completo a objetividade. Cedemos, cansados, ao espetáculo mais insidioso que nos oferecem. Sem nem ao menos questionarmos. Estamos todos confinados num circo onde os palhaços nos anestesiam e não temos mais forças para reagir. Dois de outubro é hoje. Vivemos a repressão na sua forma mais perigosa: a alienação. O cansaço tomou conta de todos nós. Vamos votar no menos pior.

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