Terremoto teve energia de 500 anos e 130 bombas atômicas; mortos passam de 7,8 mil

Redação Notícias

Civis tentam procurar sobreviventes do terremoto nos destroços. A Turquia experimentou o maior terremoto deste século na região da fronteira com a Síria. O terremoto foi medido em magnitude 7,7. (Foto de Tunahan Turhan/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Civis tentam procurar sobreviventes do terremoto nos destroços. A Turquia experimentou o maior terremoto deste século na região da fronteira com a Síria. O terremoto foi medido em magnitude 7,7. (Foto de Tunahan Turhan/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

terremoto de magnitude 7,8 que já provocou mais de 7.800 mortes no sudeste da Turquia e no norte da Síria pode afetar 23 milhões de pessoas na região, advertiu a OMS (Organização Mundial da Saúde) nesta terça-feira (7). Na véspera, a organização afirmou que previa um balanço de óbitos próximo de 20 mil.

Os números do tremor e de seu impacto na região impressionam. A energia liberada nos dois terremotos registrados na Turquia e na Síria foi equivalente a 130 bombas nucleares similares à lançada pelos EUA em Hiroshima, no Japão, em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

Segundo o cientista Sérgio Sacani, “a Turquia se moveu três metros” com os abalos sísmicos, provindos de um acúmulo de 500 anos de energia nas placa tectônica Arábica.

Os números do terremoto na Turquia e na Síria. (Infográfico: Matheus Ribeiro/Yahoo)
Os números do terremoto na Turquia e na Síria. (Infográfico: Matheus Ribeiro/Yahoo)
Na prática, a citação de Sacani explica o movimento da placa tectônica. O bloco onde estava a Turquia e a região norte da Síria se deslocou cerca de três metros, de acordo com o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV) da Itália, que faz o monitoramento geológico da região.

A placa Arábica se moveu em direção à placa da Anatólia e o encontro das duas forma uma fenda no subsolo.

“É como se a Turquia tivesse se deslocado em relação à placa árabe em direção ao sudoeste”, explicou o chefe do INGV, Carlo Doglioni. “O que chamamos de placa arábica se moveu cerca de 3 metros na direção nordeste-sudoeste em relação à placa da Anatólia; estamos falando de uma estrutura na zona fronteiriça entre esse mundo, o da placa arábica, e o da placa da Anatólia”, acrescentou ao jornal Corriere Della Sera.

Marschang ainda chamou a atenção para o fato de que a Síria deve necessitar de mais ajuda externa do que seu vizinho, a curto e médio prazos, em razão de sua menor capacidade de resposta — a crise humanitária no país se aprofundou ainda mais nos últimos meses, quando a população passou a conviver com escassez de combustível e eletricidade em meio a um dos invernos mais rigorosos de sua história.

Ambos os fatores, aliás, impediram temporariamente o envio de socorro da ONU para a parte noroeste do país, onde vivem dissidentes do regime de Bashar al-Assad. Quase toda a ajuda humanitária que chega à região vem da Turquia e passa por Bab al Hawa, um ponto de acesso na fronteira criado pela organização há quase uma década e que a Síria afirma que infringe sua soberania.

“Algumas rodovias foram danificadas, outras estão inacessíveis. Há questões logísticas que precisam ser resolvidas. Estamos explorando todas as nossas opções para alcançar aqueles que precisam de socorro”, afirmou uma porta-voz da ONU à agência de notícias Reuters. Antes mesmo do terremoto, a organização estimava que mais de 4 milhões das pessoas que vivem na área dependiam de doações que vinham de fora da fronteira.

O centro de Hatay, visto com prédios destruídos após o terremoto. A Turquia experimentou o maior terremoto deste século na região da fronteira com a Síria. O terremoto foi medido em magnitude 7,7. (Foto de Tunahan Turhan/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
O centro de Hatay, visto com prédios destruídos após o terremoto. A Turquia experimentou o maior terremoto deste século na região da fronteira com a Síria. O terremoto foi medido em magnitude 7,7. (Foto de Tunahan Turhan/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Seja como for, a situação é urgente, reforçou o secretário-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Agora é uma corrida contra o tempo. A cada minuto, a cada hora que passa, diminuem as chances de encontrar sobreviventes.” Ele acrescentou que a organização está especialmente preocupada com regiões de ambas as nações que não reportaram nenhuma informação desde o tremor.

Desde o início dos trabalhos de resgate, que prosseguiram durante a madrugada sob frio, chuva e neve, o número de mortos ultrapassou a marca de 7.800*:

  • a Turquia contabiliza 5.894 óbitos, e
  • a Síria, 1.932

*dados das autoridades de Damasco e das equipes de resgate nas zonas rebeldes.

Em Genebra, o porta-voz do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), James Elder, afirmou que há suspeitas de que o terremoto tenha provocado a morte de milhares de crianças, uma vez que dezenas de escolas e hospitais, além de outros tipos de instalações, foram danificadas ou destruídas pelos impacto do sismo.

O governo turco calcula que 5.775 prédios tenham colapsado, e, segundo a Unesco, ao menos quatro locais considerados Patrimônio Mundial da Humanidade foram atingidos no país.

Juntas, as nações vizinhas registram ainda quase 34,5 mil feridos. As condições meteorológicas na região turca da Anatólia dificultam a atuação dos bombeiros e trazem pessimismo às perspectivas de encontrar sobreviventes sob os destroços. Quem conseguiu escapar se aquecia em tendas e fogueiras improvisadas.

Por que terremoto na Turquia e na Síria foi tão devastador?

Uma combinação de fatores provocou o número elevado de mortos no forte terremoto que arrasou a Turquia e a Síria nesta segunda-feira (6).Mais de 2.600 pessoas morreram no sismo de magnitude 7,8 na fronteira entre os dois países, um balanço que aumenta com o passar das horas.A localização, a hora em que ocorreu, os antecedentes e as medidas de segurança pouco rigorosas para as construções ajudam a explicar o alto número de vítimas.O terremoto mais forte já registrado na Turquia desde 1939 atingiu uma região densamente povoada. Ocorreu durante a madrugada, às 04h17 locais (22h17 em Brasília), surpreendendo a população enquanto dormia.As vítimas, em sua maioria, “ficaram bloqueadas quando suas casas desabaram”, explicou à AFP Roger Musson, investigador do Serviço Geológico britânico. Os métodos de construção “não eram realmente adequados para uma área propensa a grandes terremotos”, explicou o especialista.A falha geológica onde ocorreu o tremor esteve relativamente calma nos últimos tempos. A Turquia é uma das zonas sísmicas mais ativas do mundo. Um tremor na região de Duzce(norte), em 1999, causou mais de 17.000 mortes. Desta vez, o terremoto ocorreu no outro extremo do país, na chamada falha da Anatólia Oriental.Esta região não sofria um terremoto de magnitude superior a 7 há mais de 200 anos. Provavelmente por isso seus habitantes “foram negligentes”, explicou Musson.Devido a este longo período de relativa tranquilidade, a energia da falha “foi se acumulando”, explicou Musson. A região sofreu outro tremor de magnitude 7,5 horas depois, o que confirma que muita energia acumulada precisava ser liberada, acrescentou.- Repetição do tremor de 1822 -Em 13 de agosto de 1822, esta mesma área sofreu um impacto “quase igual”, com um tremor de 7,4 de magnitude. O abalo causou “um dano enorme, com cidades totalmente destruídas e dezenas de milhares de vítimas”, assegurou Musson. As réplicas se prolongaram até junho do ano seguinte, afirmou.Além disso, o epicentro do terremoto desta segunda-feira foi relativamente pouco profundo, apenas 17,9 quilômetros, e se situou na cidade turca de Gaziantepe, onde vivem cerca de dois milhões de pessoas.A placa tectônica Arábica se deslocou para o norte. “Não tendo espaço, colidiu” com a placa da Anatólia. Essa fricção reverbera por toda a falha, explica este especialista.O epicentro não é tão importante neste caso como a extensão do movimento telúrico, ao longo de 100 km.”Isso significa que tudo dentro dessa margem de 100 km ao longo da falha” sofre as consequências do tremor, acrescentou.- Infraestrutura fragilizada -Os terremotos não podem ser previstos, indicou Carmen Solana, uma vulcanóloga da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido.“As infraestruturas adaptadas são raras no sul da Turquia e especialmente na Síria, portanto agora a prioridade é salvar vidas”, recordou a especialista.A Turquia aprovou uma lei em 2004 para reforçar os critérios de construção, após o terremoto de 1999. Na Síria, devido à guerra, a situação é provavelmente pior. “Muitas estruturas já estavam fragilizadas após um uma década de guerra”, lembrou Bill McGuire, vulcanólogo da University College London.dl/jz/mb/jc/mvv

Nas cidades atingidas, ginásios, escolas e mesquitas viraram abrigos aos que perderam suas casas, mas muitos preferiram passar a noite em carros com a família, com medo de novos sismos. Autoridades locais anunciaram a intenção de deslocar parte dos desabrigados a hotéis da região, um polo turístico.

Algumas províncias se queixaram, porém, de que a ajuda estatal não era suficiente. Em cidades como Malatya, também na Anatólia, e Antakya, no sudeste, parentes das vítimas eram vistos pedindo a vizinhos capacetes, martelos e cordas, enquanto os mais desesperados tentavam escavar os destroços sem equipamentos especiais ou mesmo luvas e roupas adequadas para o inverno.

O terremoto ocorrido na madrugada de segunda-feira (6) foi o mais letal na Turquia desde o tremor de 17 de agosto de 1999, que matou 17 mil pessoas. O abalo também foi sentido no Líbano, no Chipre e no Norte do Iraque. Cálculos do governo dão conta de que 13,5 milhões de pessoas foram afetadas, numa área que vai de Adana, no oeste, a Diyarbaki, no leste, e de Malatya, no norte, a Hatay, no sul.

Mortes foram registradas tão longe ao sul quanto em Hama, a cerca de cem quilômetros do epicentro do sismo. Algumas áreas do país estão sem combustível e eletricidade, e conexões de internet fracas e rodovias danificadas entre algumas das cidades mais atingidas têm dificultado os esforços das autoridades para dimensionar o impacto e planejar ações de resgate e ajuda humanitária.

O líder turco, Recep Tayyip Erdogan, decretou estado de emergência por três meses nas dez províncias afetadas pelo tremor e acrescentou que 70 países já se ofereceram para ajudar nos resgates.

Uma vítima do terremoto tenta extrair roupas de sua casa em ruínas em 7 de fevereiro de 2023 em Elbistan, Turquia. Um terremoto de magnitude 7,8 atingiu perto de Gaziantep, na Turquia, nas primeiras horas da segunda-feira, seguido por outro tremor de magnitude 7,5 logo após o meio-dia. Os terremotos causaram destruição generalizada no sul da Turquia e no norte da Síria e foram sentidos em países próximos. (Foto de Mehmet Kacmaz/Getty Images)
Uma vítima do terremoto tenta extrair roupas de sua casa em ruínas em 7 de fevereiro de 2023 em Elbistan, Turquia. Um terremoto de magnitude 7,8 atingiu perto de Gaziantep, na Turquia, nas primeiras horas da segunda-feira, seguido por outro tremor de magnitude 7,5 logo após o meio-dia. Os terremotos causaram destruição generalizada no sul da Turquia e no norte da Síria e foram sentidos em países próximos. (Foto de Mehmet Kacmaz/Getty Images)
Equipes estrangeiras começaram a chegar ao país nesta terça, tanto em zonas afetadas diretamente quanto nas atingidas por abalos secundários. Autoridades relataram mais de 50 réplicas dos tremores nas primeiras dez horas seguintes ao sismo inicial e alertaram que outras devem ocorrer nos próximos dias.

Um dos grupos de resgate, oriundo da França, desloca-se para Kahramanmaras, epicentro do sismo, que sofre com a neve e é conhecida como uma região de difícil acesso —as duas equipes dos Estados Unidos anunciadas por Joe Biden na véspera, com 79 socorristas cada uma, devem seguir para a mesma região.

Além deles, Rússia, Ucrânia e Israel foram alguns dos outros Estados a se prontificarem a ajudar, assim como a China, que anunciou um pacote de auxílio de US$ 5,9 milhões (R$ 30,6 milhões) a Ancara.

Uma série de países também anunciou envio de ajuda humanitária à Síria, mas sem especificar sua dimensão ou quando ela viria. O regime de Bashar al-Assad está isolado internacionalmente e é alvo de sanções —a Rússia, um de seus poucos aliados, foi um dos únicos que prometeram envio imediato de equipes de emergência, além de disponibilizar 300 tropas acampadas na região para ajudar nos resgates.

Na opinião de especialistas, a fragmentação do poder no território ocasionado pela guerra civil torna esse tipo de negociação um grande desafio diplomático, prejudicando, em última instância, a população.

da Folhapress

Facebooktwitterredditpinterestlinkedinmail