Viva a Vida

Por Valdir Barbosa

Valdir-Barbosa
Valdir Barbosa

Dizem que o tempo passa rápido, na verdade ele, o tempo, não caminha rápido nem devagar, sua dinâmica se basta por si mesma, induvidosamente viaja na velocidade certa, perfeita e acabada. A ansiedade do ser humano é quem responde por estas situações que dão a algo tão justo, uma feição destorcida. Seres capazes de meditar, mergulhar nas nuances escondidas no espírito atemporal vivo em cada uma das criaturas, sabem disto.
Ontem decidi voltar no tempo, da forma como faço vez em quando e mergulhei nas praias dos meus primeiros banhos profissionais. Assim também o fiz na direção da realidade onde plantei uma das sementes amorosas, dentre tantas deste meu viver um tanto alucinado e renasci no relicário das memórias.
Netos, filha e genro amorosos cuidaram de fazer, entre pessoas muito caras, um banquete para mim, então, fui recebido como rei, no canto onde são hoje estes descendentes, tudo quanto não seria capaz de entender assim seriam, desde quando as coisas viajam em progressão, tal qual círculos concêntricos. O cenário aparentemente igual revela uma espiral ascendente imponderável, aos que disto não entendem, capaz de continuar na sua evolução irreversível.
E o dia voou, como voam pássaros detentores da capacidade de seguir, sempre acima das nuvens brancas ilustrando o céu. Nos eflúvios das doses de alegria, misturados entre conversas e sons especiais, sob goles de bebidas finas e iguarias supimpas, as horas passaram dentro do seu tempo exato flutuando na esteira da felicidade que não atrasa nem adianta, tal relógio suíço.
Amanheci, após dormir tal anjo, na hospedaria que me recebeu quarenta e dois anos atrás, quando me tornei homem de polícia e debutei na terra da pecuária baiana e, depois de acordado, me lanço pelas ruas daquela cidade, velha conhecida.
Desço a artéria no prolongamento da Dairy Walley e alcanço a pista que me leva ao Ponto Certo. Depois de caminhar por um tempo revejo o prédio, hoje um pardieiro, onde Zé Escrivão me recebeu e por ele fui entronizado na arte de cuidar da segurança dos munícipes de Itapetinga, porta de entrada de uma carreira que me fez realizado.
Adiante, no través da rua Elgino Pereira da Costa, observo a casa de número dez, onde morou Florisvaldo Brito, figura ímpar que dirigia órgão representativo da Casa Civil Estadual e recordo Jeremias, seu aluno, bom e dedicado discente, hoje o “Jeré” do INSS, deveras considerado por todos do lugar, posto repleto de virtudes.
Mais em frente observo o acesso do Jornal Dimensão, de meu indefectível e saudoso amigo, Flávio Scaldaferri, gênio na acepção plena da palavra, depois, imóvel que foi a sede da Convivo, revendedora Ford no passado, destarte, minhas emoções reverberaram em profusão.
Transito em frente à Matinha e ouço na memória o rugir de velho leão ali aprisionado, cujo som ecoava na casa de Beijam Matos, Marreco, dileto parceiro com quem me hospedei tantas vezes, na sua residência postada no promontório da Monte Castelo.
Vislumbrei a rodoviária lembrando meu dileto Rivaldo, cujo filho que vi nascer, agora meu colega, profissional já consagrado, com destacada atuação no Oeste baiano e recordei o momento de agonia, na oportunidade em que sua irmã, muito pequena sumiu naquela estação. Deus me permitiu pudesse localizá-la em Itororó, horas depois de seu desaparecimento.
No limiar da ponte sob o Rio Catolé empreendi meu retorno e pude divisar o hotel Esperança, ali tive a iluminação capaz de esclarecer um dos crimes mais brutais por mim resolvidos, a morte de uma senhora, assassinada a mando dos próprios filhos.
Retornei pelo mesmo trajeto, mas preferi não tornar pela via original e subi em direção ao centro, ascendendo a ladeira onde meu fraterno amigo, Domingos Caixeiro, que nos deixou pouco tempo atrás, certa feita fez residência e lembrei dele com saudade. Parentesco entre a mãe de seus filhos e a genitora dos meus, nascidos naquela terra, nos tornou próximos.
No topo da encosta segui pelos fundos do prédio construído pelo ícone Juvino Oliveira e observei a casa que serviu de abrigo a Delegacia Regional, em substituição àquela que me recebeu no gênesis da carreira, totalmente demolida. Porém, esta circunstância, ao invés de comprometer minhas lembranças lhes fez mais aceleradas.
Finalmente cheguei à praça onde a prefeitura, do tempo em que quase fui excluído, antes mesmo de ingressar nas fileiras da instituição que transformou o filho de Gomes, em Valdir Barbosa e recordei Evandro Andrade, o prefeito responsável por referendar meu ingresso na polícia, além de José Espinheira, seu substituto que me manteve no cargo, até quando fui aprovado no concurso e me tornei funcionário de carreira.
Mirando o lado oposto, no prolongamento que levava ao antigo Cavaco, vendo a placa do Hotel Lacerda recordei da primeira investigação importante, quiçá porta do sucesso alcançado à frente, responsável por esclarecer a morte do jornalista Noé de Oliveira Neto, pois a luz veio dali.
Uma hora depois de haver iniciado o périplo matinal voltei ao Hotel Goitacaz, minha primeira morada, no canto que me recebeu em Itapetinga quando tudo começou. No salão do repasto ouvi no pensamento a voz grave de Sinval Nunes, primeiro proprietário da hospedaria e tantas pessoas que pontuaram a história desta minha vida feliz, vivida com intensidade plena.
Agradeci a Deus, na certeza de que tudo veio e está indo no tempo certo, reabracei meus amores e parti na direção do mundo contemporâneo onde estou agora.
E viva a vida.
Vitoria da Conquista, 28 de novembro de 2017.

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