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NÃO QUERO ALGUÉM QUE MORRA DE AMORES POR MIM

POR MARIO QUINTANA

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível…
E que esse momento será inesquecível…
Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém… e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…
Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros…
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim… e que valeu a pena!!”

REQUISIÇÃO: DEIXE OS POETAS PASSAREM

Poeta Leandro Flores

E, se de repente, no estoque da vida, faltassem também os sonhos, o amor, o conhecimento, a poesia? Será que alguém entenderia que, assim como os caminhoneiros, o poeta é um incomparável condutor de sentimentos? O que seria, por exemplo, do coração sem aquele combustível essencial que nutre qualquer paixão? Os livros, a melodia, as histórias, como ficariam se nos faltassem as palavras? Se não tivessem, de repente, mais poetas para conduzi-las aos nossos olhares… Se não houvesse mais inspiração para traduzir todos os momentos?

Ouso-me dizer que até o amor, este nobre sentimento, não resistiria pela falta do que falar… Acho mais ainda, que não resistiria pela falta do que ouvir… Não dá para subestimar o poder daquele que sabe como ninguém entender as dores e as delícias de um coração que não quer outra coisa senão existir e compreender a vida e tudo que ela nos traz.

Portanto, peço encarecidamente, deixe o poeta passar, escolte-o, dê-lhe matriz para que possa fazer com amor aquilo que mais sabe: traduzir poesia e transcrever os sentimentos.

Leandro Flores
Maio de 2018
(Durante a greve histórica dos caminhoneiros).

Não vou me render

André                                                                           André do Amaral

Não serei arrastado na lama que rompeu a barragem que impedia a barbárie.

O país não é só isso.

Para cada Gilmar Mendes, tem um Manoel de Barros.

Para cada Aécio Neves, tem um mestre de Congada resistindo à opressão nas mesmas terras mineiras.

Para cada Michel Temer, um Mário de Andrade na paulicéia.

O país não é só um branco de gravata ou toga.
É vermelho na pele indígena.
É preto potente na pele da menina.
É um guri, um piá, um curumim.

É trans!

É trem bão, é da hora, é sinistro, é massa! Ainda que não pareça, passa.
E eles passarão.

Desanima, não.

Menos preocupação e mais ocupação.

O país, novamente, está sendo saqueado. Seu povo pobre dizimado.Mas, até por uma questão de lógica, enquanto estivermos vivos não dá pra decretar derrota.

Minha energia.Meu pensamento e meu afeto se movem pela transformação e pela justiça social.

Para que pessoas não morram pela cor da pele.
Pela orientação sexual.
Por denunciarem injustiças.
Por serem quem são.

O país não é só o Planalto.
A injustiça suprema.
Homens asquerosos.
Um país reacionário.
Quadrado.

É também roda.
De samba.
De capoeira.
De poesia.

É uma espiral.

É a mata, os bichos, as ervas, a arte, o povo.Tudo que nele brota.

É uma idosa distribuindo sopa e cuidando de pessoas em situação de rua.

É uma benzedeira curando as crianças da comunidade.

É um professor mal pago e apaixonado mudando a vida de crianças e jovens.

É um poeta desconhecido.
Uma dançarina sonhadora.
Uma enfermeira incansável.
Um músico genial.
Um gari cantarolando enquanto varre.
Um garçom simpático.
Uma cozinheira incrível.
Um sábio pajé.
Uma mulher quilombola líder comunitária.
Uma criança alcançando o paraíso na amarelinha.
Um bando de gente linda e anônima.

O Brasil é imenso!

Desistir dele é deixar de perceber a beleza que nele contém.

Abrir mão da potência que dele provém.

Vamô junto!

Contra a perda de direitos e o desmonte do país, o lema do povo guerreiro:

“Só a luta muda a vida!”

André do Amaral, 30 anos, paulistano. Escritor e arte-educador formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Investiga a potencialidade criadora da escrita. Trabalhou em diversos projetos de arte-educação que lhe ensinaram a importância de “desaprender”. Atualmente, é orientador de dramaturgia no Projeto Espetáculo do Programa Fábricas de Cultura, mantém um blog de publicação semanal, ministra encontros de criação literária e desenvolve uma dissertação de mestrado no Instituto de Artes da UNESP. Ver todos os posts de André do Amaral

O jumento é nosso irmão

* Levon NascimentoO jumento é nosso irmão Luiz Gonzaga“O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do sertão!”  disse Luiz Gonzaga.

Nas tais jornadas de junho de 2013, aquelas que não aconteceram por apenas vinte centavos, mas pela entrega do país inteiro aos piratas, teve uma charge de Lúcio contendo duas cenas. Numa, os manifestantes vinham como leões furiosos, gritando contra o Congresso Nacional, sob o título 2013. Noutra, a mesma gente travestida de jumentos digitava na urna eletrônica, legendada por 2014.EleitoresO tal gigante que acordou como leão em 2013 votaria em 2014 como jumento, previa o chargista e o senso comum.

Eu até que poderia concordar, pois na última eleição geral foi escolhida a mais podre composição de deputados federais e senadores da história brasileira.

Gângsteres propinados pela alta burguesia, em negociatas intermediadas pelo execrável Eduardo Cunha, chegaram a número recorde no parlamento, muitos deles com a Bíblia debaixo do braço, a retirar uma mulher honesta da presidência e a manter um ladrão flagrado no supremo comando da República. Continue lendo O jumento é nosso irmão

No tempo do ronca

Nando-3                                                                  Por Nando da Costa Lima

Antigamente os padres eram verdadeiros tropeiros, tinham vários animais para carregar os apetrechos pelos interiores mais íngremes fazendo de tudo que a Igreja exigia: batizados, casamentos, missas e até dando extrema unção. Eram verdadeiros heróis, davam de tudo pelo sacerdócio. É claro que tinham lá suas vantagens, mas tinham que ter, eles encaravam viagens terríveis querendo ou não, o tempo podia estar bom ou ruim, lá estavam os vigários na estrada tomando sol, chuva e engolindo poeira pra ajudar as populações mais carentes. Nesse tempo já tinha os aproveitadores que se passavam por médicos, advogados e até por padres…

O causo que vou contar é sobre um falso padre, mas este era diferente, levava tão a sério seu trabalho que já tinha vinte anos de “sacerdócio” e ninguém nunca duvidou, acho que depois de um tempo até ele mesmo acreditava que era padre. O vigário Tonico Teotônio não ficava devendo nada a padre nenhum, sabia tudo sobre religião, além de falar latim. Era um homem de estatura média, mas pesando muito mais do que sua estrutura permitia. Eram mais de 120 kg acomodados em 1,65 m. Os animais que o carregavam tinham que ser escolhidos a dedo, não era qualquer burrinho ou mulinha que suportavam aquele peso. O vigário comia por quatro pessoas adultas, e os moradores dos povoados sabiam e já ficavam preparados para as visitas do reverendo. Engordavam galinhas, porcos, carneiros, etc., tudo que agradava um bom de garfo. Muita gente garantia que o Vigário comia um quarto de leitoa sozinho e ainda “matava” uma rapadura de sobremesa. Continue lendo No tempo do ronca