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PARTEIRAS

Antônio Novais Torres

A Parteira leiga tradicional, geralmente morava numa cidade pequena e executava os partos que ocorriam no local e na vizinhança. Não havia no local e nem por perto, médico para um atendimento ou procedimento adequado de saúde, só existia mesmo nas grandes cidades ou na capital, porém a classe pobre devido à condição financeira precária não recorria a esses profissionais acadêmicos, a solução para o atendimento era a parteira leiga.

Quando uma mulher ia “despachar”, contava com o apoio das mais experientes que a auxiliavam no trabalho de parto. Eram mulheres leigas que tomavam gosto pelo ofício, fazendo-se presente a todas as parturições que ocorriam no lugar. Diante desse conhecimento prático e de sua disposição passaram a ser chamadas para todos os procedimentos dessa natureza na região.

A fama tornou-se um referencial. Passaram a ser requisitadas em toda a região e eram acatadas como uma pessoa de “boa mão”. Quando surgia algum problema, este era resolvido com mezinhas (raízes e plantas), tratamentos caseiros, que sempre davam bom resultado. O chamado mal de sete dias, ou tétano umbilical, ocorria sempre na zona rural ou na cidade nas camadas pobres e desinformadas por falta de higienização adequada e a devida vacinação. Continue lendo PARTEIRAS

Artigo: A coisa está feia

José Medrado é líder espírita

É sabido e comentado por todos que o Brasil sofre um grande processo de polarização política. O povo se manifesta contra e a favor deste e ou daquele político. Um fenômeno mundial, é fato, mas nestas nossas terras tem se configurado um contorno perigoso, gerador de violência de grande monta. Foi assim que um ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia, pró-Lula, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, deixou dois feridos na madrugada do último sábado, 28. Um vídeo mostra um homem disparando dois tiros, um deles atingiu o pescoço de um homem, que ainda se encontra internado e uma senhora foi atingida por estilhaços. Grave, muito grave. O episódio a mim parece tão absurdo e surreal, que até imagino que possa ter sido uma desavença pessoal, que já seria um absurdo, imagino, no entanto, se for por questões partidárias, é o completo esvaziar de palavras para reproduzir indignação contra o que não aceita, partindo para o ataque homicida. É o enlouquecer da discórdia.

Estarrecedor, por outro lado, que não vi censuras veementes pelas redes sociais a esta barbárie. A bem da verdade, só aqui e ali…o que achei de grande preocupação, visto que os anti-Lula, ao que parece, viram como natural, como se fosse uma ação que reforçasse a posição dos contras.

De forma lamentável, ainda, vi, de grande infelicidade, a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffman, sair por suas redes sociais culpando a Lava Jato, o juiz Sérgio Moro, a Globo pelo atentado. Ora, que registre a sua indignação, cobre investigação, mas fomentar mais ainda esse clima de beligerância não é bom para ninguém. E sem demagogia, ambos os lados – pró e anti-PT – estão acirrando a discussão.

Imagino como serão as eleições de outubro, caso um candidato ganhe, desagradando os seguidores do outro: será uma guerra campal, alimentada pela intolerância, o discurso de golpe, de farsa, de fraude? Essas lideranças não podem ficar jogando para a plateia de forma inconsequente, a fim de que não faça esta massa de intolerância crescer a ponto de não ser contida. Nada começa grande, tudo é processo de saturação, de crescimento do pequeno, do aparentemente sem consequência. É preciso mais responsabilidade e bom-senso por parte de todos e mais respostas contra esses atentados por parte da polícia.

* José Medrado é líder espírita, fundador da Cidade da Luz, palestrante espírita e mestre em Família pela UCSal.

Dos melindres caatingueiros

Por Nando da Costa Lima

A pessoa que tem dó de si fica ridícula, insuportável! É impossível atravessar uma existência sem magoar alguém. Foi daí que surgiu o bendito perdão… Talvez seja a palavra padrão para o nosso desenvolvimento espiritual. O perdão é a bandeira branca falada!

No início do século XX, a caatinga era regida pelos coronéis e a jagunçada. Quando ficava marrom, era difícil permanecer e sobreviver. E se a fome apertasse, se comia até jegue, que é um bicho abençoado para o nordestino. Os outros problemas eram esquecidos quando a fome imperava! Até os “cantadô” arribavam, eles são como os passarinhos. Não aguentam tempo ruim. Se ficar, morre de papo -seco ou fica igual frango com mal triste. Tocar moda de viola com o bucho roncando deve ser muito ruim! Teve uma vez que um cego cantador resolveu ficar pra “ver”. Quando a coisa apertou, ele bebeu tanta pinga que tocou doze boleros apaixonados e quatro valsas pra caixa de peixe seco na venda de Seu Benício Beijador. Ninguém entendeu nada! As horas ficavam mais longas e o desespero coletivo levava povoados inteiros a vagar pela caatinga rumo à capital. Era nesse cenário de fome que apareciam os homens santos! Eles arrastavam multidões de miseráveis e sugavam o resto do pouco que tinham… E pra enganar o estômago durante o grande calvário, os retirantes, milagreiros, coronéis e jagunços criavam um mundo mágico. Histórias belíssimas como a do lobisomem, que é uma lenda europeia e que se adaptou à caatinga como se fosse sua casa. Eles ficaram fascinados com as casas de farinha e alambiques artesanais. O lobisomem brasileiro conversa mesmo estando “virado” e tem as mãos iguais às nossas. Os pés são diferentes! Segundo os antigos, todo lobisomem, independente da região, é maconheiro. Eles só andam com os olhos vermelhos e sempre estão com muita fome. Já o Bicho de Pedra Azul só bebe cachaça de “cabiceira”, uísque com mais de vinte anos, absinto suíço e a legítima Jurubeba Leão do Norte. Se o butequeiro cair na besteira de servir bebida falsificada, tá fudido! E o Bicho é outro departamento, não tem nada a ver com lobisomem, nem gosta de ser comparado. O Bicho de Pedra Azul é 100% brasileiro! A única lenda que não foi importada e traduzida. Pra completar com chave de ouro, o Bicho é nacionalista! De fora, só Scotch, absinto e Fernando Pessoa quando escrito em português. No quesito mulher, ele é eclético: toda mulher é bonita, até as feias! Continue lendo Dos melindres caatingueiros

A sociedade brasileira e o abismo do fanático mundo partidário

Por Leandro Flores

Sou do tipo que não se enquadra em nenhum tipo de “encaixotamento” político, religioso ou ideológico. Simplesmente não consigo fechar os meus olhos, escolher um lado e achar que quem não concorda comigo (ou que quem escolheu o outro lado no qual eu não me encontro) esteja errado e que eu deva combater veementemente até convencê-lo de seus equívocos… Não. Não, não sou o dono da verdade. Até porque a verdade, muitas das vezes é relativa. Vai depender do ângulo de observação.

Quando se trata de política então, a coisa fica mais relativa do que nunca. Quem em sã consciência intelectual ou cultural vá afirmar categoricamente que o que se passa atualmente com o nosso país seja apenas um objeto de POSICIONAMENTO POLÍTICO? Que quem seja a favor de uma determinada lógica política esteja completamente com a razão e que o outro lado seja o usurpador, o alienado ou o ladrão da história?

Passamos por uma turbulência que certamente será histórica e decisiva para o futuro de nossa tão estimada “Pátria amada”. O Brasil vive uma crise que ultrapassa a área econômica, financeira, política, ética, moral… É uma crise existencial. Não podemos escolher um lado do galho e ficar jogando pedra em quem está do outro lado, buscando o mesmo objetivo. É preciso que haja respeito e tolerância se quisermos encontrar realmente um caminho para se sair da beirada do precipício. Continue lendo A sociedade brasileira e o abismo do fanático mundo partidário

PENA DE MORTE E RELIGIÃO CRISTÃ

Levon Nascimento

A julgar pelos números da última pesquisa Datafolha (08/01/2018) e forçando uma interpretação “sui generis”, 63% dos católicos brasileiros seriam favoráveis à condenação de Jesus à morte na cruz por parte dos poderes públicos do período em que ele viveu, seguidos com o apoio de 50% dos evangélicos para o mesmo fim. Já entre os ateus, mais de 50% seriam contrários.

Observações:
1) Tempos estranhos: a maioria daqueles que seguem o livro que tem como um dos mandamentos “Não matarás” (Êxodo 20,13), defendendo a violência e desejando assassinar através das mãos do Estado.

2) Ateus “mais temerosos a Deus” do que “cristãos”!?

3) Onde ficam os ensinamentos de CRISTO sobre “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15,12) ou “perdoai até setenta vezes sete” (Mateus 18,32) para os que se declaram CRISTÃOS?

Enfim, especialistas em ciências sociais afirmam que em momentos de crise, como o de agora, o desejo por violência e sangue costuma aflorar nas sociedades. As pessoas, especialmente as mais pobres, sentem na pele a violência econômica, do Estado e da marginalidade em suas vidas, com maior intensidade do que as classes ricas. O perigo é que espertalhões da política se apropriem desse sentimento e aproveitem para implantar o terror, como fez Hitler na Alemanha dos anos 1930, o que só viria a agravar ainda mais a situação violenta. Inclusive, já temos um candidato a Hitler no Brasil. Fiquemos mais espertos e prudentes do que as serpentes (Mateus 10,16).

Para fechar, veja o que Jesus disse diretamente às pessoas que se julgavam muito religiosas na época em que ele viveu na Terra: “Em verdade vos digo: os publicanos [cobradores de impostos] e as meretrizes [prostitutas] vos precedem [entram primeiro] no Reino de Deus!” (Mateus 21,31b).

 

A caminho do brejo

Por Cora Ronái

CORA                                          A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia
Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.
Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos.
Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.
A lista não acaba.
Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.
Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.
Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.
Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.
Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.
Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais. Enquanto isso tem gente nas ruas estourando fogos pelos times de futebol!

 

 

Brumado: Professor e Doutor do Curso de Direito escreve artigo sobre julgamento de Lula

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Professor Dr. João Batista de Castro Júnior

O professor João Batista de Castro Júnior escreveu um artigo bombástico com o título: “O que esperar do julgamento de Lula”. O documento foi publicado no site da Probus, entidade associativa beneficente de direito privado, de utilidade pública e sem fins lucrativos, com autonomia administrativa e financeira, constituída por tempo indeterminado por docentes e discentes da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). “Filhos da deficiente formação acadêmica, todos esses atores jurídicos permanecem cegos ao dano colossal em tirar Lula da cena da disputa democrática através de artifícios legais, dando lugar ao nascimento de sombrio e vergonhoso horizonte político, além de estarem condenando a magistratura a um estigma social ainda mais odioso do aquele que já ostenta”, disse o professor no texto. João Batista de Castro Júnior é Professor Doutor do Curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia, Uneb /Campus XX, em Brumado. Continue lendo Brumado: Professor e Doutor do Curso de Direito escreve artigo sobre julgamento de Lula

A MARGARINA, O GALO E OS PARDAIS

Por: José Lima Santana

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                                                           Padre José Lima Santana

O sujeito saiu de casa, no fim da tarde, para comprar margarina. Margarina. Puxa vida! Como foi que a mulher deixou faltar margarina em casa? Saiu na bronca. Além do mais, um amigo lhe disse que margarina era quase uma matéria plástica. Um horror! Mas, a sogra dele só comia margarina. Margarina! Era terrível deixar a caminhada em torno da quadra do prédio para ir comprar margarina. Enfrentar o trânsito no fim da tarde. Enfrentar a fila no caixa do mercadinho. Tudo isso para comprar um mísero pote de margarina.
JLSA MARGARINA, O GALO E OS PARDAIS – Imagem: byfafah

Não tinha jeito. Pegou o carro. Saiu. A caminho do mercadinho, voltou o pensamento para a família, no interior. Nunca mais tinha ido à cidade natal. Achou-se um filho ingrato. Se já não tinha mais pai e mãe vivos, tinha irmãos, sobrinhos, tios e tias. Não custava dar uma esticada, fazer uma visita. A vida na capital asfixiava. Naquele momento, por exemplo, ele precisava de ar. De ar interiorano. De um lugar bucólico onde pudesse passar ao menos uns bons momentos. Sentiu-se ainda mais um filho ingrato. A sua cidade poderia lhe dar aqueles bons momentos. Continue lendo A MARGARINA, O GALO E OS PARDAIS

Viva a Vida

Por Valdir Barbosa

Valdir-Barbosa
Valdir Barbosa

Dizem que o tempo passa rápido, na verdade ele, o tempo, não caminha rápido nem devagar, sua dinâmica se basta por si mesma, induvidosamente viaja na velocidade certa, perfeita e acabada. A ansiedade do ser humano é quem responde por estas situações que dão a algo tão justo, uma feição destorcida. Seres capazes de meditar, mergulhar nas nuances escondidas no espírito atemporal vivo em cada uma das criaturas, sabem disto.
Ontem decidi voltar no tempo, da forma como faço vez em quando e mergulhei nas praias dos meus primeiros banhos profissionais. Assim também o fiz na direção da realidade onde plantei uma das sementes amorosas, dentre tantas deste meu viver um tanto alucinado e renasci no relicário das memórias.
Netos, filha e genro amorosos cuidaram de fazer, entre pessoas muito caras, um banquete para mim, então, fui recebido como rei, no canto onde são hoje estes descendentes, tudo quanto não seria capaz de entender assim seriam, desde quando as coisas viajam em progressão, tal qual círculos concêntricos. O cenário aparentemente igual revela uma espiral ascendente imponderável, aos que disto não entendem, capaz de continuar na sua evolução irreversível. Continue lendo Viva a Vida

Artigo: Minhas memórias

Por Levon NascimentoLevonEm janeiro de 1985 – com oito anos de idade – vi pela TV, sem entender direito, a eleição indireta no Congresso que elegeu Tancredo Neves e pôs fim à ditadura militar (1964-1985).

Em 1986, a professora da 3ª série trabalhou uma revista em quadrinhos publicada pelo Governo de Minas Gerais que falava sobre Democracia, Assembleia Constituinte e Constituição. Encantei-me com as três expressões e elas nunca mais saíram de minha vida.

Depois fui compreendendo mais, diferenciando “ditadura” de “democracia”, da 5ª à 8ª série, com uma excelente professora de História.

O Ensino Médio e a militância na Pastoral da Juventude me ajudaram a consolidar as intenções democráticas e as utopias da participação política e da igualdade social.

A graduação em Ciências Sociais me deu fundamentos para o caminho. Continue lendo Artigo: Minhas memórias