A “síndrome do bom-crioulo”

O ativismo de pessoas negras não foi feito para agradar pessoas brancas. E é aí que entra a “síndrome do bom-crioulo”.

Por Juliana Borges

É provável que muitos militantes e ativistas negros se identifiquem com as palavras ditas aqui. Situações “clássicas”, nas quais somos usados de escudo e, quando não mais servimos a propósitos para demonstrar o quão desconstruído um branco é ou o quão esforçado é para sê-lo, somos pintados como histéricas, arrogantes, intolerantes, raivosos e a lista só cresce. Tenho chamado isso de “síndrome do bom-crioulo”. A história meio que se parece entre muitos e muitas de nós.

No processo de tornarmo-nos negros, muitas são as descobertas que fazemos. Estas descobertas, por sua vez, vão constituindo um olhar cada vez mais clínico e crítico diante e sobre o racismo. As análises, portanto, vão se sofisticando. As propostas de ação vão sendo integradas, se aprofundando numa relação dinâmica entre a teoria produzida pela intelectualidade negra e a ação decorrentes desta apreensão de novos conhecimentos. Este processo faz com que lidemos de modo cada vez mais astuto, que identifiquemos o racismo de modo cada vez mais ágil e que percebamos as sutilezas, como dizia Beatriz Nascimento, do racismo de modo cada vez mais aprimorado. Este aprimoramento na percepção do racismo em todas as relações sociais, culturais, nas instituições políticas, jurídicas, legislativas, etc., faz com que a denúncia e a ação de nosso ativismo seja cada vez mais incisiva, inclusive porque captura as profundezas da problemática racial e como esta estrutura nosso país. Nada de absurdo, já que um processo absolutamente comum em quaisquer ativismos.

Neste processo, um comportamento curioso ocorre e que se potencializa e se explicita de modo mais observável, principalmente, nas redes sociais. Em um primeiro momento, muitos e muitas pessoas brancas [1] gostam e aprovam seu ativismo cada vez mais crescente. Essas pessoas se interessam pelo o que você escreve, compartilha e, em muitas das vezes, já que ativismo negro se faz, principalmente, na vida real, também na sua atuação cotidiana. Contudo, ao passo que suas considerações começam a ficar mais astutas, assertivas, estas passam a incomodar estas figuras. Daí, vem o segundo momento: os toques. Como bons amigos que são e muito preocupados com um “isolamento” que suas posturas mais radicais – no sentido de Davis sobre o que se considera ação radicalizada – podem trazer, estas figuras passam a te dar “toques” de que talvez seja melhor um discurso mais “soft”, “calmo”, “didático” (eu, particularmente, adoro quando pedem didatismo) para que a branquitude possa ser mais “tocada” pelos apontamentos que você faz sobre racismo. É como se, em algum momento, precisássemos da aprovação e assentimento para o nosso ativismo e como se estivéssemos fazendo o nosso ativismo com foco exclusivo como “professores da branquitude”.

O comediante Chris Rock, certa vez, disse que algo está errado quando algum filme sobre a questão racial agrada demais a branquitude e não lhe causa nenhum desconforto. Podemos usar e transpor esta constatação para estes casos. O ativismo de pessoas negras não foi feito para agradar pessoas brancas. E é aí que entra a “síndrome do bom-crioulo”.

Bom-Crioulo é um romance do século XIX, de Adolfo Caminha, e é considerado por críticos como um dos primeiros romances homoeróticos da literatura ocidental. Em resumo, a história narra o amor entre Amaro, um escravizado fugido que ingressa na Marinha, e Aleixo, um grumete. O romance e a conexão entre ambos acontecem e eles alugam um quarto em uma pensão para viver sua história. É quando entra Dona Carolina, proprietária da pensão que, ao perceber o romance entre Amaro e Aleixo, garante um dos quartos mais reservados do local. Contudo, Amaro é transferido e, neste ínterim, Dona Carolina e Aleixo engatam um romance. O desenrolar é brutal. E é neste ponto que quero chegar. Como bom romance naturalista, as personagens são narradas e exploradas pela visão mais crua do humano, em que os instintos predominam e se sobrepõem à razão. Com isso, Amaro é retratado como uma figura absolutamente sexual, explorando estereótipos de força e brutalidade no homem negro. No entanto, no início do romance, Amaro é o oposto. É um homem gentil, doce, narrado como um contraste ao que seria o seu natural descrito como forte e robusto. Este é o motivo para que Amaro seja apelidado de “bom-crioulo”. É no contato com este amor com Aleixo que Amaro se transforma em instável, impulsivo e possessivo. É nestas entrelinhas que surge um traço do narrador que busca passar e focar ao leitor, em mudanças e entradas de comentários encharcados de moral no decorrer do romance, como se aqueles instintos de descontrole fossem caracteristicamente naturais desta figura negra retratada. Por outro lado, Aleixo, branco, é retratado como delicado, indefeso e frágil. De submisso à instável, Amaro se torna violento e acaba preso.

Esta digressão para explicar o romance foi importante, porque nem todos o conhecem. Além disso, é no decorrer desta digressão que já é possível perceber o que quero dizer quando nomeio a “síndrome do bom-crioulo”. Significa dizer que muitos brancos, por mais esforçados que se mostrem em suas desconstruções, uma hora ou outra vão cair na síndrome – que uso menos com o caráter patológico e mais comportamental. Enquanto somos os negros legais e gentis, está tudo certo. Somos os “bons-crioulos”, que terão a fala mansa, serão contidos, calmos e terão toda a paciência para conviver sob aquela situação que, na verdade, encoberta a persistente submissão racista. Enquanto aplaudimos o esforço branco, explicamos, reexplicamos, explicamos novamente, como se fossemos professores persistentes e que têm como tarefa ajudar a alma branca a se regenerar, está tudo ótimo. Ao passo que nos insurgimos, que apontamos erros, que questionamos, toma lugar a narrativa do estereótipo, da figura do negro “naturalmente” brutal e raivoso. Passamos a ser chamados de incompreensíveis, instáveis, pessoas que focam a crítica às pessoas erradas, como se fossemos incorrigíveis (como se algo houvesse para ser corrigido), como se nossa natureza fosse conflitiva e causadora de problemas por si só e assim por diante. “Vocês veem racismo em tudo!”, dirão alguns, “Vocês problematizam tudo!”, dirão outros. É como se ver uma situação, perceber a sutileza do racismo e expô-la fosse um inconveniente. Daí, o jogo vira. Na verdade, volta ao seu script costumeiro. Se não acabamos presos como Amaro, e muitas das vezes é exatamente este o final, passamos a ser evitados, a impaciência, que seria nossa, toma conta do “branco desconstruído”. Aquele “toque” sobre o isolamento é colocado em prática porque somos “radicais” demais – aqui, não no sentido de “raiz” como em Davis, mas de “drástico”.

Chego, portanto, à conclusão de que poucos brancos estão, de fato, abertos a compreender o racismo, mas mais do que isso, desconstruí-lo e questioná-lo estruturalmente. Porque fazer isso envolve racializar-se, enxergar seus próprios privilégios e questioná-los, destruí-los. O racismo ainda é algo visto como alheio, presente apenas no outro, e a branquitude insiste em querer negros como um respaldo, o chamado token, para poderem legitimar suas negativas do racismo que ainda carregam, reproduzem e se privilegiam. A pergunta, como aponta Grada Kilomba, não deve ser “Eu sou racista?”, para toda a pessoa negra que se relaciona, mas “O que estou fazendo para destruir as estruturas de privilégios e hierarquias raciais?”.

Pessoas negras também se cansam e, obviamente, se insurgem porque é absurdamente violento o tipo de relação que a branquitude, expressa em todos os espectros ideológicos, imprime quando em convívio constante com pessoas negras. Tenho percebido esta violência e lógicas perversas há muito tempo e em muitos espaços. Sequer situações que garantiriam aprendizado, se transformam em reflexões reais. Não se pode defender a igualdade na diferença pela metade. Empatia é palavra que caiu no gosto e na boca de todos, mas é muito pouco colocada em prática, de fato. Se reconhecer racista não se resolve com textão de Facebook, se no cotidiano não se impõe reeducação, reflexão e ação radical.

É como se diz popularmente, “se não aguenta, não desce pro play”. Ou, se para alguns é um playground todo equipado e divertido, para nós é um improvisado e com vários perigos. É questão de sobrevivência. E já estamos cansadas de sobreviver. Queremos viver.

1] Sempre que surgiu o termo “branco”, “pessoas brancas”, está se aludindo a branquitude, lido como categoria.

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