A MARGARINA, O GALO E OS PARDAIS

Por: José Lima Santana

JLS 1
                                                           Padre José Lima Santana

O sujeito saiu de casa, no fim da tarde, para comprar margarina. Margarina. Puxa vida! Como foi que a mulher deixou faltar margarina em casa? Saiu na bronca. Além do mais, um amigo lhe disse que margarina era quase uma matéria plástica. Um horror! Mas, a sogra dele só comia margarina. Margarina! Era terrível deixar a caminhada em torno da quadra do prédio para ir comprar margarina. Enfrentar o trânsito no fim da tarde. Enfrentar a fila no caixa do mercadinho. Tudo isso para comprar um mísero pote de margarina.
JLSA MARGARINA, O GALO E OS PARDAIS – Imagem: byfafah

Não tinha jeito. Pegou o carro. Saiu. A caminho do mercadinho, voltou o pensamento para a família, no interior. Nunca mais tinha ido à cidade natal. Achou-se um filho ingrato. Se já não tinha mais pai e mãe vivos, tinha irmãos, sobrinhos, tios e tias. Não custava dar uma esticada, fazer uma visita. A vida na capital asfixiava. Naquele momento, por exemplo, ele precisava de ar. De ar interiorano. De um lugar bucólico onde pudesse passar ao menos uns bons momentos. Sentiu-se ainda mais um filho ingrato. A sua cidade poderia lhe dar aqueles bons momentos.

O carro passou da entrada para a rua do mercadinho. O pensamento estava voltado para o interior. Seguiu em frente. Logo mais, estava na BR-101. A pista estava muito remendada. Além disso, tinha a sinalização eletrônica. Puxa! Todo mundo só queira lascar com o povo. O governo federal multava. O estadual multava. O municipal multava. Haveria de chegar o dia em que ninguém aguentaria mais andar de carro.

Percorreu a rodovia federal. Chegou ao cruzamento com a rodovia estadual. Esperou alguns minutos. Muito movimento nos dois sentidos da BR. Entrou na rodovia estadual. Por enquanto, buracos tapados. Mal tapados, mas tapados. Bem adiante, buracos precisando ser tapados. Não havia carro que aguentasse. Pedaços de rodovia que poderiam ser comparados a queijos suíços. Uma lástima!

Enfim, chegou à cidade natal. Foi à casa de uma tia. Bem recebido. Chegou na hora do jantar. A tia era uma exímia cozinheira. Comeu bem. Deveria seguir viagem, para a cidade mais acima, onde moravam os irmãos, onde ele próprio passou a maior parte da vida, da infância à juventude. Ali, o pai tivera casa comercial. Ali, o pai e a mãe estavam sepultados.

Depois do jantar, foi instado a pernoitar ali, na casa da tia. Deveria seguir viagem na manhã seguinte. Era melhor e mais seguro. Aceitou a ponderação da tia. Não aceitou dormir numa cama. Queira dormir na varanda ou na garagem, numa rede. Queria sentir mais de perto o frescor da noite. Naquela cidade, os dias de novembro em diante e até a chegada do inverno eram muito quentes, mas, as noites eram frescas. E mais ou menos frias no inverno.

Rede armada. Deitou-se e pôs-se a balançar. A tia lhe deu um vasilhame de repelente. Uma ou outra muriçoca. O repelente as afastaria e lhe permitiria um sono tranquilo. Pensou na vida. Pensou na maldita margarina. Deveria ligar para casa? A mulher ficaria preocupada. Os filhos também. Ligou. “Você endoidou?”, indagou a mulher. “Endoidei”, respondeu com desdém, desligando o telefone.

Noite fresca. Noite boa para dormir. O sono veio logo. Deve ter roncado e bufado à vontade.

No meio da madrugada, um galo abriu a garganta e deve ter acordado meio mundo. Há muito tempo, ele não ouvia o canto dos galos. Mas, àquela hora? Às três e quinze? Galo miserável. Não poderia cantar um pouco mais tarde? Às cinco horas, por exemplo? Outros galos responderam ao canto do primeiro. Os galos são assim. Cantam e reverberam. Quem tem o sono leve, incomoda-se. Sofre a cada madrugada. Todavia, ele acabou se sentindo bem. Os galos deviam mesmo cantar. Era assim a vida interiorana. Ele voltou a dormir.

Por volta das quatro horas, os pardais começaram a sua cantoria. Eram muitos. Orquestra afinadíssima. E cantavam ali, bem pertinho, no jardim cheio de arbustos. Ele se virou na rede. Os pardais da capital não lhe incomodavam. O seu apartamento ficava no décimo primeiro andar. Aqueles pardais também deveriam cantar um pouco mais tarde, depois que o sol desse bom dia ao mundo.

Levantou-se às cinco e meia. Apesar do galo e dos pardais, o sono não foi de todo ruim. O sino da Matriz tocou suas precisas badaladas. Firmes badaladas que ressoaram por toda cidade. Pena que muita gente já não acorre ao chamado do sino. Ele tomou banho. Logo, o café foi servido. Café interiorano como ele se acostumou desde menino. A tia, assim como a sua mãe, era caprichosa no café da manhã. A bem dizer, em todas as refeições.

Despediu-se da tia e do marido dela, flamenguista como ele. Dois sofredores. Não seguiu viagem para visitar os irmãos. Ficaria para outro dia. Afinal, a cumeeira da casa tinha caído com as mortes do pai e da mãe. Não haveria de se sentir bem ao passar na casa onde viveu com os pais e os irmãos. Precisaria de um tempo para remoer o passado.

Retornando à capital, ele foi ao mercadinho. Chegou ao apartamento por volta das nove horas. Os filhos já estariam no trabalho. A netinha perguntou: “Vô, comprou a margarina?”. Ele respondeu: “Comprei”. E pôs sobre a mesa da cozinha o pote de margarina na pequena bolsa plástica do mercadinho. Em tom raivoso, a mulher disse: “Sexta-feira, que será feriado, eu vou sozinha comprar a margarina”.

JOSÉ LIMA SANTANA É PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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Um comentário sobre “A MARGARINA, O GALO E OS PARDAIS

  1. Quando Flávio Flores era vivo, vendia medicamentos, sabia aplicar injeção, era farmacéutico prático, indicava alguns remédios aos doentes que o procuravam. Mas negociava com bebida alcoólica também. Só que Seu Flávio tinha um jeito esquisito de aplicar injeção. O paciente chegava, ele punha a seringa para esterilizar num recipiente a álcool, fincava a agulha no braço do sujeito, ía vender uma pinga, conversava, batia um bom papo, enquanto isso, o paciente ficava esperando pela ação do farmacéutico; depois, ele vinha com a seringa e aplicava a injeção. Não sei se alguém reclamava. Em terra de cegos quem tem um olho é rei.

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